Podcast: Édipo

Podcast: Édipo

Entrevista com Adriane Duarte (USP), Flávio de Oliveira (Unicamp) e Lúcia Rocha (Unifesp).

Estado da Arte

14 de agosto de 2019 | 14h57

Imagine descobrir que seus pais não são seus pais, que seus filhos são seus meio-irmãos, frutos de seu casamento com sua verdadeira mãe, a viúva de seu pai, que foi assassinado por você – o mesmo pai e mãe, diga-se, que tentaram matá-lo quando bebê. Seria o despertar para um pesadelo? Incesto, infanticídio, parricídio são abominações desde que o homem é homem, porém um homem veio ao mundo não só para sofrer essas calamidades, mas ainda para ver o enforcamento suicida de sua mulher-mãe e, muito depois, velho, mendicante, sem os olhos que cegara com as próprias mãos, o rapto de suas filhas-irmãs e a guerra civil em sua Cidade precipitada por seus filhos-irmãos, aos quais por fim amaldiçoou, profetizando seu fratricídio.

Édipo vem de uma dinastia de personagens que, como Dom Juan, Dom Quixote, Fausto e Hamlet, transcendem, segundo Lowell Edmunds, “as suas origens nacionais e as obras da arte, da música e da literatura que contaram sua história. Cada um atingiu um status especial na imaginação do Ocidente, capaz de falar poderosamente da condição humana. Dos cinco, Édipo, outrora rei de Tebas, pode conclamar o maior dos reinos no pensamento dos nossos tempos”. Na verdade, não só dos nossos, pois, 2500 anos mais velho, Édipo é de longe o mais reinterpretado no grande teatro do Mundo. Muito antes que poetas épicos como Homero e Hesíodo cantassem a sua agonia, Édipo já era cultuado como um espírito tutelar sagrado e seu corpo era objeto de sacrifícios rituais em sepulturas reivindicadas por povos de toda a Grécia. Ancestral dos heróis de Troia, ele magnetizou como nenhum outro os corações da trindade dramatúrgica helênica: Ésquilo, Eurípedes e Sófocles. O Édipo Rei deste último era estimado por Aristóteles como a tragédia por excelência, incomparável em seu poder de purificar nossa humanidade pelas emoções do pavor e da piedade. Com ela em mente, Hölderlin dedicou seu epigrama a Sófocles:

Mais de um tentou em vão dizer o mais alegre com alegria. 
Aqui o encontro exprimido por fim na dor.

Além da Grécia, Édipo reviveria nos dramas de outras nações, desde a Roma de Sêneca, até a França de Corneille e a Áustria de Hofmannstahl. E além do palco, o seu enigma desafiou filósofos como Hegel, antropólogos como Lévi-Strauss e psicólogos como Lacan.

Mas quem terá sido Édipo? A maior vítima do Destino ou o maior responsável por sua desgraça? Um maldito soterrado em tormentos ou um herói elevado à condição divina? Será o seu drama uma excrescência macabra da imaginação, um pedaço do inferno na terra destinado a uns raríssimos eleitos para o espetáculo de muitos, ou será um destino que pesa sobre todos nós antes do nascimento, o desejo de fazer sexo com nossa mãe e de castrar e assassinar nosso pai, como sugere o Complexo de Freud – e porventura de matar nossos filhos, como desejou Édipo e seu pai? E podemos nos maravilhar de que as testemunhas anônimas do coro concluíssem assim: “Não ter nascido é a melhor de todas as coisas; mas quando um homem viu a luz do dia, a segunda melhor de longe é voltar o quanto antes ao lugar de onde veio”? Por outro lado, poderemos não nos maravilhar quando um Édipo moribundo diz às filhas resgatadas: “Uma palavra nos livra de todo peso e dor da vida. Esta palavra é amor…”

Convidados

Adriane Duarte: professora de letras clássicas da Universidade de São Paulo e autora de Cenas de reconhecimento na poesia grega.

Flávio de Oliveira: coordenador do Centro de Estudos Clássicos da Universidade de Campinas e tradutor do Rei Édipo.

Lúcia Rocha: professora de Filosofia Antiga da Federal de São Paulo e autora de Édipo Rei, a vontade humana e os desígnios divinos na tragédia de Sófocles.

***

Em mais uma edição especial da série Café Filosófico, o Estado da Arte leva ao ar uma discussão sobre a tragédia de Édipo, Rei de Tebas, com Adriane Duarte, professora de letras clássicas da Universidade de São Paulo e autora de Cenas de reconhecimento na poesia gregaFlávio de Oliveira, coordenador do Centro de Estudos Clássicos da Universidade de Campinas e tradutor do Rei ÉdipoLúcia Rocha, professora de Filosofia Antiga da Federal de São Paulo e autora de Édipo Rei, a vontade humana e os desígnios divinos na tragédia de Sófocles.

Durante o ano de 2017, o Café Filosófico se dedicou, através de uma série de ciclos mensais de palestras, a discutir o arco de temas em torno à “Responsabilidade”. Assim o ano se abriu com o ciclo Novos Horizontes da Responsabilidade, que, entre outros, contou com o filósofo e psicanalista Zeljko Loparic contrapondo a Ética da Lei de Lacan e Freud e a Ética do Cuidado de Winicott. Naturalmente, numa discussão dessa ordem, o Complexo de Édipo era um tópico inevitável. Para Freud

O destino de Édipo nos move somente porque poderia ter sido o nosso – porque o oráculo declarou a mesma maldição sobre nós, tal como sobre ele, antes do nosso nascimento. É o destino de todos nós, talvez, dirigir nosso primeiro impulso à nossa mãe e nosso primeiro ódio e nosso primeiro impulso assassino contra nosso pai.

Mas, como tudo o mais em torno à lenda de Édipo, essa interpretação tão bem implantada no imaginário popular é largamente controversa. Mesmo um psicanalista relativamente ortodoxo como Erich Fromm sugeria objeções:

Se a interpretação de Freud está correta, deveríamos esperar que o mito nos contasse que Édipo encontrou Jocasta sem saber que ela era sua mãe, se apaixonou por ela, e então matou seu pai, mais uma vez inconscientemente. Mas não há indicação nenhuma no mito de que Édipo se sinta atraído ou se apaixone por Jocasta.

Independentemente da interpretação psicanalítica, contudo, não há dúvida de que o destino de Édipo nos move porque poderia ter sido o nosso. Não que pudéssemos esperar sermos envolvidos em uma trama tão horrenda quanto à do incesto e do parricídio involuntários de Édipo, mas, como diz a professora Rocha, “pode ser que estejamos fazendo algo, querendo fazer uma coisa e estejamos fazendo exatamente o seu contrário”. Por isso Édipo se tornou um paradigma imortal do sofrimento involuntário e da culpa inconsciente – algo que, em teoria, é uma contradição em termos, mas que, na prática, é um enigma que devora a todos nós. Afinal, em que medida os nossos sofrimentos são causados por nossas transgressões? Em que medida essas transgressões são voluntárias, e em que medida eram inexoráveis? E em que medida nosso destino é determinado pelas transgressões de nossos antecedentes? 

É nessa condição fecunda dos grandes paradigmas humanos que faz com que a tragédia de Édipo possa se relacionar de maneira prismática a tantos dos Ciclos já promovidos pelo Café Filosófico, como por exemplo O sofrimento humano nos tempos atuais (2014), Encarando a dor (2013), Família (2012) ou Mitos (2009). 

Veja também: 

Tudo o que sabemos sobre:

PodcastÉdipoSófocles

Tendências: