Podcast – Dostoiévski

Podcast – Dostoiévski

Entrevista com Flávio Ricardo Vassoler, Lucas Simone e Priscila Marques.

Estado da Arte

26 Setembro 2018 | 09h51

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Segundo Otto Maria Carpeaux, “a literatura russa do século XIX teve que desempenhar várias funções, além da literária propriamente dita: era jornalismo, num país em que não existia imprensa livre; era tribuna política, num país em que não havia parlamento; era cátedra universitária, num país em que as universidades eram fiscalizadas pelos agentes de polícia; era púlpito, num país em que a própria Igreja estava muda.” Num jogo tão complexo, Dostoiévski conseguiu subir ao pódio, talvez só acompanhado por Tolstoi, como o mais celebrado romancista russo. As razões variam. O filósofo Berdiaev afirmava que ele foi não só um grande artista, mas o maior dos metafísicos russos. Para Albert Camus foi ele, e não Karl Marx, o grande profeta do século XIX. Einstein declarou que Dostoiévski lhe deu “mais do que qualquer outro pensador”, provendo-lhe um vislumbre inspiracional no relativismo e na instabilidade da realidade. Nietzsche confessava que “ele foi o único que me ensinou alguma coisa em psicologia” e Freud confidenciou: “Dostoiévski sabia mais sobre a alma humana do que eu.” Segundo seu biógrafo Joseph Frank: “Ele possuía o que eu chamo de uma ‘imaginação escatológica,’ capaz de visualizar ideias em ação e então segui-las até as suas últimas consequências”. Seus romances policêntricos nos precipitam entre pontos de vista existenciais de diferentes personagens, onde o realismo externo se choca com realidades interiores que oscilam entre a mística e a patologia. Em meio a emoções vulcânicas, intrigas labirínticas e ideias extremadas, mesclam-se o burlesco e o trágico, o sentimentalismo e o cinismo. De fato, notou Leonid Grossman, “ele passou por vários estágios na busca por uma verdade guia – romantismo, socialismo utópico, cristianismo (especificamente, a ortodoxia russa), o ‘solo’ do eslavofilismo, a ‘Era de Ouro’ e a luta contra a Europa ‘agonizante’, e, finalmente, a teocracia, ou seja, uma Igreja-Estado.” Em oposição ao mundo imóvel, claro e preciso de Tolstoi, o filósofo Vladimir Soloviov afirmava: “Aqui tudo está em fermentação, nada está formado, tudo está em formação. … [Dostoiévski] não acreditava somente no passado mas no Reino de Deus vindouro, e compreendia a necessidade do trabalho e do sacrifício para a sua realização”. O próprio escritor confessava: “Sou um filho do meu tempo, um filho da descrença e da dúvida até este exato momento e (tenho certeza disso) até o túmulo. … [Mas eu] compus em mim uma profissão de fé, onde tudo é claro e sagrado. Esta profissão de fé é bastante simples, ei-la: crer que não há nada mais belo, mais profundo, mais simpático, mais razoável, mais corajoso ou mais perfeito que Cristo; e não somente não há nada, como não pode haver. Mais ainda: se alguém me provasse que Cristo não está na verdade, e se fosse realmente estabelecido que a verdade não está com Cristo, eu preferiria permanecer com Cristo mais do que com a verdade.” Não à toa, Dostoiévski declamava frequentemente em público o poema O Profeta, de Púchkin, concluindo:

A voz de Deus me conclamou:
‘Ergue-te, Ó profeta, vê e ouve,
Enche-te com a minha Vontade,
Avança sobre terras e mares,
E inflama os corações dos homens com o teu Verbo’.

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Com

Flávio Ricardo Vassoler: Doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo e autor de Dostoiévski e a Dialética. 

Lucas Simone: Doutorando em Literatura e Cultura Russa pela Universidade de São Paulo e tradutor de Memórias do Subsolo.

Priscila Marques: Doutora em Literatura e Cultura Russa pela Universidade de São Paulo, tradutora de Dostoiévski e mestre com dissertação sobre Crime e castigo.