Podcast: A Revolução Russa

Podcast: A Revolução Russa

Entrevista com Bolívar Lamounier, Daniel Aarão e Vinicius Müller para a Rádio Estado da Arte, em parceria com o Instituto CPFL.

Estado da Arte

20 Dezembro 2017 | 15h32

Em mais uma entrevista para a série Café Filosófico, o Estado da Arte recebe Bolívar Lamounier: cientista político, diretor da Augurium Consultoria e autor de Tribunais, Profetas e Sacerdotes: intelectuais e ideologias no século XX; Daniel Aarão: professor de História Contemporânea na Universidade Federal Fluminense e autor de A Revolução que mudou o Mundo e Vinícius Müller: professor de História Econômica do Instituto de Ensino e Pesquisa e da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado. Ouça:

Em setembro deste ano o Café Filosófico promoveu o ciclo de debates “Do paradigma da dominação ao paradigma do cuidado”. Como explica o seu curador, Carlos Plastino:

Organizada em torno das ideias centrais de conflito, conquista e dominação como característica fundamental das relações entre os homens e destes com a natureza, o paradigma da dominação apresenta inequívocos sinais de profunda crise. . . . A crise do paradigma apresenta duas características fundamentais: por um lado torna evidente a cristalização de impasses insuperáveis na situação vigente, tornando imprescindível uma profunda transformação das ideias — do imaginário — que geraram a situação em crise; por outro, e na medida que dita transformação, e se configura como uma necessidade, abre uma oportunidade para a criação de um novo imaginário, isto é, uma outra maneira de conceber os homens, suas sociedades e suas formas de produção. Neste contexto, é possível assinalar a emergência de elementos de um novo paradigma, o paradigma do cuidado, sustentado no reconhecimento da alteridade, reconhecimento que tem na empatia natural dos homens sua raiz mais profunda.

Possivelmente em nenhum outro momento da História humana o paradigma da dominação foi intensificado em tão grande escala como na revolução bolchevique, tal como ilustrado no velho bordão comunista, “conduziremos a Humanidade à felicidade pela força!” Como aponta o professor Aarão durante a entrevista, o paradigma da Revolução violenta e catastrófica, da ditadura do proletariado, se estendeu pelo menos até a Revolução Cubana e, numa escala continental, a Revolução Cultural chinesa. Mesmo na onda de agitações de 1968, quando um novo paradigma estava em curso (o da “Nova Esquerda”, baseado no cuidado e no “empoderamento” das minorias e dos marginalizados), ainda assim a profissão de fé na violência em nome do bem ainda era dominante (basta pensar nos milhares de Livros Vermelhos de Mao Tsé-Tung distribuídos em Paris ou na Califórnia não só por estudantes, mas por intelectuais celebrados como Jean-Paul Sartre).

Nessa linha, no ciclo “Novos Horizontes da Responsabilidade” promovido pelo Café Filosófico em maio, o professor Márcio Seligmann constatava:

Os últimos cem anos, ou seja, desde a Primeira Guerra Mundial, foram marcados por genocídios e etnocídios: os armênios, os judeus, os ciganos, muitas populações da África (no contexto das guerras coloniais e pós-coloniais), populações da ex Iugoslávia, os opositores do Kmehr Vermelho no Camboja, as vítimas das bombas atômicas lançadas no Japão, as populações ameríndias na América do Sul, são apenas algumas dessas vítimas.

O modelo do(s) paradigma(s) da dominação à esquerda e à direita foram tão difundidos ao longo do século XX, que hoje um pensador como Luiz Felipe Pondé pôde dizer de maneira quase escandalosa, em sua palestra para o Ciclo “Visões da Justiça”, que “o Brasil precisa de uma revolução liberal e conservadora”.

Seja como for, como diz o historiador S.A. Smith, a Revolução Russa

se mostrou o mais consequente evento do século XX, inspirando movimentos comunistas e revoluções pelo mundo, notavelmente na China, provocando a reação na forma do fascismo, e depois de 1945 tendo uma profunda influência em muitos movimentos anticoloniais e moldando a arquitetura das relações internacionais através da Guerra Fria.

Seja qual for o futuro que queiramos construir, não há como erguê-lo, sem fazer as contas com esse passado.

Confira:

Veja no acervo do Café Filosófico – CPFL: