Podcast – A “Cidade de Deus” de Agostinho

Podcast – A “Cidade de Deus” de Agostinho

Estado da Arte

31 Janeiro 2018 | 17h38

Entrevista para a série Café Filosófico – CPFL com João Carlos Nogueira: professor de ética e filosofia antiga da Pontifícia Universidade de Campinas e tradutor da Cidade de Deus (no prelo); Moacyr Novaes: professor de Filosofia Medieval na Universidade de São Paulo e autor de A razão em exercício. Estudos sobre a filosofia de Agostinho (Ed. Paulus); e Pedro Monticelli: professor doutor de filosofia patrística, escolástica e contemporânea da Faculdade de São Bento e da Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação.

Em 2017 o Café Filosófico celebrou o tema da “Responsabilidade”. Inaugurando o ano com o ciclo “Novos Horizontes da Responsabilidade”, o professor Oswaldo Giacoia diagnosticava: 

Novos agentes ou sujeitos éticos emergem no mundo contemporâneo. O poder-fazer, fomentado pelo desenvolvimento tecnológico, colocou o ser humano em condições teóricas e práticas de destruir inteiramente suas próprias condições de existência no planeta terra. Nesse contexto, um novo conceito de responsabilidade torna-se indispensável, e tentativas são feitas nas diferentes esferas culturais, da religião às ciências, da filosofia às artes e à política. Responsabilidade é atualmente a tradução da necessidade de amadurecimento e despertar para uma nova consciência dos impasses e dilemas do habitar humano no mundo.   

Esta “consciência do habitar humano do mundo”, ainda que seja, logicamente, tão antiga quando o próprio humano, avança e se propaga pelo tempo através de evoluções, retrocessos e rupturas. Precisamente deste(s) processo(s) se diferenciam os diversos gêneros de atuação humana (cultura, religião, ciências, filosofia, artes, política), e dentro deles seus próprios subgêneros e disciplinas.

Dentre os grandes inovadores da história humana, Agostinho de Hipona (354-430 d.C) tem não só o mérito de ser um dos precursores do gênero literário “autobiografia”, com as suas Confissões, mas de ter produzido a primeira grande reflexão sobre esta mesma história. Como anuncia a sinopse desta entrevista:  

“Muito além de uma apologia contra os pagãos, a Cidade de Deus se abre a uma especulação sobre a História Universal sem precedentes no mundo clássico e sem descendentes no medieval, possivelmente só igualada em fôlego e amplitude pelas epopeias metafísicas modernas de filósofos como Vico, Hegel, Comte ou Marx. Em sua visão, toda existência humana, individual ou social, está, do princípio ao fim, tensionada, quando não dilacerada, entre dois amores – dois amores que fundaram duas Cidades. Nas suas palavras:

‘O amor de si levado até o desprezo de Deus gera a cidade terrena; o amor de Deus levado até o desprezo de si gera a cidade celeste. Aquela aspira à glória dos homens, esta põe acima de tudo a glória de Deus. . . . Os cidadãos da cidade terrena são dominados por uma estúpida ambição de predomínio que os induz a subjugar os outros; os cidadãos da cidade celeste se oferecem um ao outro em serviço e espírito de caridade e respeitam docilmente os deveres da disciplina social’.”

Em seu esforço de discernir e distinguir as esferas de responsabilidade e interação entre as duas Cidades, um tópico essencial é a distinção entre o que, em nossa vida, é ditado pela “justiça” – ou seja, o que se impõe como dever para todo ser-humano, independente de seu credo, nacionalidade, etnia – e o que é ditado pela “caridade” – ou seja, o que se impõe como dever para cristãos como ele. 

É precisamente em suas discussões sobre o senso de justiça universal – que forma as bases do que depois ficaria conhecido como “Direito Natural” – que se encontra o maior valor do livro para além da esfera teológica. Neste sentido, esta entrevista vem se somar a outros esforços do Café Filosófico para compreender o que é a justiça e a injustiça, e, consequentemente, para se concretizar e primeira e combater a segunda. Um exemplo foi o Ciclo “Visões da Justiça” capitaneado por Fernando Schüler.

Mas assim como a Justiça pode ser pensada do ponto de vista político (em termos de “Justiça Social” e “distributiva”), e assim como pode ser pensada do ponto de vista jurídico (enquanto “Justiça Legal” e “retributiva”), também pode e deve ser pensada do ponto de vista moral, enquanto uma predisposição para o bem ou “virtude”. Neste âmbito, é interessante se contrastar as noções de espiritualidade na época de Agostinho (em vias de se tornarem o que hoje entendemos como a “ortodoxia” cristã) com as noções contemporâneas. Um esforço nesse sentido foi realizado no ciclo “7 prazeres capitais – pecados e virtudes hoje”, com curadoria de Leandro Karnal.

Este mesmo exercício de comparação nos traz de volta à característica singular desta “Cidade de Deus”, isto é, a especulação sobre a história universal e a necessidade de se compreender o fenômeno humano em sua historicidade. Agostinho confere arcabouço filosófico a intuição latente no profetismo hebraico de uma história não cíclica como é característico da consciência mitológica –, mas sim linear, evolutiva, em marcha rumo a uma apoteose que, no seu caso, se mostra como o “Reino de Deus” já prefigurado pelo povo eleito Israel e instaurado pelo messias Jesus Cristo, e que deve ser disseminado pela comunidade de Cristo na terra, a Igreja, até ser consumado com a sua segunda volta.

É precisamente a esta fascinante emergência do elemento original do Cristianismo em meio à cultura helenística (grega e romana) que se dedica o filósofo José Arthur Gianotti em sua palestra no Café Filosófico denominada “De Alexandria a Roma”. Como ele mesmo diz: 

Estoicos, céticos e neoplatônicos levam suas investigações até Roma. Mas feita essa passagem, só poderemos indicar como Agostinho de Hipona será o grande elo entre o pensamento grego e o cristianismo.          

Este “grande elo”, que o leitor das Confissões conhece em sua expressão mais íntima e lírica, assume, na Cidade de Deus, proporções épicas, e por isso é um capítulo incontornável na epopeia do “humano no mundo”.

Confira:

 No Acervo do Café Filosófico: