‘Pobreza S.A.’ Uma entrevista com Kris Mauren sobre o documentário liberal que arrebatou até Michael Moore

‘Pobreza S.A.’ Uma entrevista com Kris Mauren sobre o documentário liberal que arrebatou até Michael Moore

Estado da Arte

14 Novembro 2016 | 14h30

por Eduardo Wolf

À certa altura do documentário “Pobreza S.A.”, o líder e vocalista da banda irlandesa U2, Bono Vox, afirma com todas as letras que o capitalismo e o livre mercado fazem mais para tirar as pessoas da pobreza do que a ajuda humanitária. No entanto, continua Bono, “precisamos ajudar cada vez mais”. Essa flagrante contradição está no centro daquilo que o filme produzido pelo think tank americano Acton Institute chama de “indústria da pobreza”.

No Brasil para promover o documentário, que ganhou dublagem e legendas em português e deverá ser exibido no Netflix local em breve, o produtor-executivo do filme, Kris Mauren, que é também co-fundador e diretor executivo do Instituto com sede no Michigan, descreve a ampla gama de atividades da organização que homenageia em seu nome o historiador e pensador liberal inglês John Dalberg-Acton: “Nossa atuação se dá em muitas frentes. Oferecemos inúmeras bolsas de estudos, publicamos por volta de 20 livros por ano, além de organizarmos conferências e encontros que aproximam lideranças empresariais, políticas, religiosas e comunitárias, quando não governamentais”. O objetivo é sempre aproximar esses líderes de uma visão do bem comum, conectando valores morais e uma abordagem economicamente sólida e viável.

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Dessa vez, contudo, o Acton Institute procurou um veículo mais dinâmico para levar essa mensagem a mais gente: “Nós percebemos que para alcançar as massas é preciso contar histórias. Além disso, precisamos usar novas mídias. Hoje, praticamente todo mundo tem um smartphone. Então um filme, um vídeo que pode estar online, é uma forma de alcançar um imenso público com essa mensagem”.

O documentário do diretor Michael Matheson Miller, lançado em 2014, já está disponível em plataformas como Amazon.com e Netflix no exterior. Premiado, elogiado até mesmo por nomes tradicionalmente associados à esquerda americana como Michael Moore, “Pobreza S.A.” fez sua estreia brasileira em um périplo de Kris Mauren por São Paulo, onde o filme foi exibido em sessão com debate no Insper, nas Faculdades Mackenzie e na Unítalo, além de passagens pela Universidade Católica em Petrópolis (RJ) e por Salvador, na Bahia.

Tive o privilégio de debater com Mauren após a exibição do filme no Insper, além de ter participado de um inusitado e imprevisto encontro entre ele e um personagem do documentário: o psiquiatra e ensaísta inglês Anthony Daniels (Theodore Dalrymple), de passagem pelo Brasil para a divulgação de seus livros. Ainda no Brasil, Mauren concedeu a seguinte entrevista exclusiva ao Estado da Arte – Estadão.

O que é o Acton Institute e que tipo de trabalho vocês desenvolvem?

O Acton Institute é um think tank educacional global interessado na conexão de economia e moralidade. Nosso lema é “conectando boas intenções com correção econômica”. Isso é importante, pois nós nos preocupamos com os mais pobres dentre nós, e julgamos que isso é um dever moral, mas é também uma realidade econômica. Nossa preocupação é que muita gente que fala em nome de bons princípios morais, na verdade, tem uma compreensão muito limitada de economia e como alcançar, na prática, as boas intenções que eles desejam.

Você veio ao Brasil para promover o documentário Pobreza S. A., que fala de uma indústria que lucra com ideias equivocadas de combate à pobreza. Que indústria é essa?

Existe uma imensa e complexa indústria que inclui governos, que fornecem o dinheiro, grandes Organizações Não Governamentais, que ficam com uma boa parte do dinheiro, empresas de toda sorte e, por fim, os próprios pobres, que ficam com uma pequena parte do dinheiro. (Risos). Lamentavelmente, é fato que a maior parte do dinheiro de ajuda aos mais pobres acaba se perdendo em transações envolvendo essas grandes ONG’s internacionais e agentes governamentais destacados para cumprir funções em programas especiais de algum tipo de ajuda humanitária. O filme que fizemos busca mostrar essa realidade e os mecanismos que a sustentam, e que, em última instância, contribuíram para a nossa atual situação: quanto mais se gasta em ajuda humanitária, mais pessoas estão dependentes dela – o que não é um bom sinal de eficácia desses programas, eu diria.

Como foi a produção do documentário?

Passamos seis anos produzindo este documentário, e nossa equipe visitou 28 países, entrevistando mais de cem especialistas – de dentro e de fora disso que chamamos de “indústria da pobreza”. Também foram entrevistadas, é claro, muitas pessoas pobres vivendo às margens da sociedade em inúmeros desses países. Políticos, empresários, líderes religiosos: todos os possíveis envolvidos neste complexo processo para que os dados que coletássemos fossem substanciais, relevantes e significativos, captando bem histórias de vida muito reais, colhidas nos contextos em que esses personagens conduzem suas vidas fazendo parte, direta ou indiretamente, dessa indústria. É claro, também repassamos uma tremenda quantidade de dados que são anualmente produzidos sobre o tema, como o Index of Economic Freedom, que tem dados empíricos sobre pobreza em diferentes nações.

Como funcionam as distorções que levam ao quadro de pobreza perpetuada combinada com uma rica indústria em seu redor?

 Bem, tome por exemplo o caso de diversos produtos agrícolas. O governo norte-americano os subsidia pesadamente, e isso é, na verdade, um gesto político. Esses produtores, em última instância, são pagos para produzir em excesso – recebem um valor acertado, com a garantia de compra do governo federal, que depois leva esses produtos agrícolas para certos países pobres do mundo em desenvolvimento sob a forma de “ajuda humanitária”. Só que isso traz consequências devastadoras para os produtores locais. Buscamos contar histórias como essas, dando voz aos seus protagonistas, em países como o Haiti. Os produtores de arroz do Haiti foram dizimados pelo arroz americano gratuito – uma política que, não por acaso, enriqueceu produtores americanos, manteve verdadeiros pelotões de funcionários governamentais e de ONG’s bem empregados e não resolveu o problema da fome naquele país. Mostramos no documentário o ex-presidente Bill Clinton formalmente pedindo desculpas, durante uma sessão no Senado americano, pela desastrosa política de doação de arroz subsidiado pelo governo ao Haiti. As consequências foram terríveis.

Por que as celebridades são tão facilmente atraídas pelo ativismo humanitário?

 Em primeiro lugar, é importante reconhecer que a imensa maioria dessas pessoas realmente quer fazer o bem e deseja ser útil aos mais necessitados. Não creio que, entre as celebridades envolvidas em ações humanitárias globais, haja um número minimamente significativo de pessoas fazendo isso por publicidade. Eles apenas querem ajudar pessoas em condições de extrema pobreza e dificuldade, e mobilizam sua condição de celebridades em prol dessa causa. Suas boas intenções, creio, são genuínas. Contudo, essas celebridades acabam sendo usadas, sem que o percebam, pela “indústria da pobreza”, que acaba perpetuando a situação daqueles que essas celebridades gostariam de ajudar. Esse é, aliás, um bom exemplo de boas intenções não conectadas com correção economia: na prática, o que eles defendem não está ajudando de modo algum os mais pobres.

Pode-se dizer que uma celebridade – digamos, Bono Vox, do U2 – tem “boas intenções, mas maus conhecimentos de economia”. Contudo, é difícil dizer que as grandes corporações e os governos dos países desenvolvidos que fazem parte dessa indústria têm boas intenções também, pecam apenas por seus precários conhecimentos de economia…

 Sim, é claro, a situação diferente. Acredito que os dados que nós apresentamos no documentário mostram claramente que é muito difícil atribuir boas intenções para qualquer uma dessas partes – governos ou grandes empresas ou corporações. Eles sabem muito bem – como o próprio ex-presidente Clinton admite no documentário – que muitas dessas políticas são bastante ruins, como foi o caso do arroz para o Haiti. Claro, ele reconheceu o erro anos depois dos fatos, não estando mais no poder, mas ele é um homem inteligente o bastante para que pensemos que ele deveria estar ciente dessas consequências já naquele momento. O que ocorre é que, nos Estados Unidos como em outros países, e eu tenho certeza de que no Brasil não é diferente, há o que nós chamamos de crony capitalism [“capitalismo clientelista”, ou “capitalismo de laços”], quando o governo é grande o suficiente para trocar favores com grandes corporações suficientemente poderosas para acessar esse poder político governamental. Obviamente, o cidadão comum é privado desse acesso privilegiado ao poder e aos favores governamentais.

Bono Vox em cena do documentário

Bono Vox em cena do documentário

Mas a pessoa que está vivendo com menos de um dólar por dia – linha de corte da pobreza extrema – está em verdadeira situação emergência, não? Ela não pode esperar os efeitos de políticas econômicas corretas e realistas…

 Quando as pessoas estão em uma situação de crise, uma situação de emergência, como as que ocorrem imediatamente após um desastre natural, por exemplo, é claro que devemos pura e simplesmente ajudá-las, sem maiores considerações, sem fazer mais perguntas. Se as pessoas estão passando fome nessas situações de crise, é nossa obrigação moral ajudá-las imediatamente, no momento exato desta necessidade urgente. Contudo, se continuarmos apenas dando-lhes coisas meses, anos, décadas após essas situações emergenciais surgirem ou serem constatadas, então é sinal de que estamos fazendo alguma coisa errada. E esse tem sido o caso da imensa maioria de nossas políticas de assistência. O modo de ajudar os pobres é, fundamentalmente, ajudá-los a encontrar empregos. Isto quer dizer que nossos esforços de longo prazo devem se concentrar em ajudar os países em situações de crise a desenvolver as condições para que seus cidadãos saiam da pobreza e prosperem, e isso ocorre com as instituições adequadas e com o tipo de educação própria para o desenvolvimento dos indivíduos e de suas habilidades para que possam ter e manter empregos em suas vidas. As pessoas não querem depender dos outros, e, em certo sentido, esse deveria ser nosso objetivo: como podemos dar condições a essas pessoas para que elas sejam os agentes transformadores de suas próprias vidas? Esse deve ser o nosso foco.

O que seriam, então, políticas concretas de combate à pobreza a partir de uma perspectiva liberal clássica, não populista?

Não existem soluções mágicas. Deve-se criar um ambiente social e econômico no qual as pessoas poderão fazer sua parte e tomar conta de seus destinos. O governo deve oferecer as condições básicas para que as sociedades possam crescer e prosperar, isto é, devem oferecer a garantia da propriedade privada, a manutenção do Estado de Direito com um sistema de justiça honesto e um governo de dimensões modestas. Esse é o papel do governo: oferecer condições iguais de competição para as pessoas no que diz respeito a esses quesitos para que os indivíduos possam ser produtivos. E em grande parte dos países pobres isso não ocorre, de modo que essas políticas públicas e pré-requisitos institucionais muito básicos para que uma sociedade possa florescer devem ser prioridade na luta pela transformação da realidade desses países. Ajudar na implementação de instituições e de práticas que protejam a propriedade privada e fortaleçam relações de justiça independente é muito melhor do que esse capitalismo clientelista que praticamos quando nos deixamos levar pela lógica pura e simples da chamada ajuda humanitária. O Acton Institute, que já teve a experiência de estudar detalhadamente processos de reformas governamentais nas estruturas de bem-estar garantidas pelo Estado, por exemplo, durante a reforma promovida pelo governo Clinton (1994), está mais focado nessa estratégia que eu descrevi, especialmente na formação de lideranças religiosas, intelectuais, políticas e empresariais que possam atuar diretamente em seus países garantindo a prevalência desses valores e dessas práticas econômicas.

Esta é sua terceira visita ao Brasil em dois anos. A julgar pelo que se lê em parte da imprensa internacional cobrindo os acontecimentos do país, poder-se-ia acreditar que o Brasil viveu um golpe e está em pleno regime de exceção, à beira do autoritarismo de extrema-direita. É essa sua impressão do país?

 De modo algum! (Risos). Pode parecer um exagero, mas eu percebi mudanças dramáticas nos últimos dois anos. Mesmo nesta viagem, durante uma palestra em Salvador, na Bahia, um professor com vinte anos de casa em certa instituição de ensino superior se levantou e disse: “Este evento [do Acton Institute] com esta abordagem sobre a pobreza simplesmente não poderia ter ocorrido há alguns anos. Eu, como professor, durante muitos anos, nunca ousei falar abertamente sobre as minhas opiniões acerca de problemas econômicos e sociais como este [da pobreza] por medo das consequências profissionais”. Eu tive essa experiência umas duas ou três vezes nesta viagem, as pessoas me dizendo que a possibilidade de discutir essas ideias liberais era uma coisa completamente nova. Essa renovação toda é, a meu ver, muito animadora!

O mundo foi pego de surpresa com a vitória do candidato republicano Donald Trump. Como compreender esse fenômeno e o choque que ele representa ao establishment político?

A razão principal é que as pessoas estão cansadas da elite política dos dois partidos [Democrata e Republicano], mas especialmente do partido no poder, que tinha por representante era Hillary Clinton. A verdade é que nenhum dos dois candidatos representava o melhor da América. Estamos falando de pessoas que ganharam o sistema político, pessoas que, na verdade, são corruptas de diversos modos – e um deles, ao menos, tem péssimo comportamento (risos). Isso explica a sensação dos americanos, muito bem expressa em uma piada que circulou antes da eleição: “ao menos depois de quarta, um deles terá perdido” (risos).

Em segundo lugar, como ambos eram impopulares, mas especialmente Trump, muitas pessoas não admitiam publicamente que votariam nele. Isso levou a uma representação subestimada de seu desempenho até o dia da eleição, e muita gente chegou ao dia decisivo com a impressão de que ele estava consideravelmente atrás na corrida presidencial, quando na verdade ele possivelmente já tinha a dianteira.

Em terceiro lugar houve um fenômeno significativo de manipulação da imprensa nas semanas anteriores à eleição, deixando muito pouco clara qual era a real situação.

 Qual o maior risco que Trump oferece política e economicamente?

O maior risco que ele oferece é sua imprevisibilidade, assim como o fato de ele não se orientar por nenhum conjunto discernível de princípios ou ideologia. Nesse sentido, é um populista. No entanto, o mais importante, do ponto de vista econômico, são suas propostas políticas intervencionistas contra o comércio internacional, e uma vez que você ergue barreiras comercias contra outras nações, eles farão o mesmo contra a sua, o que leva a uma guerra comercial em que todos saem em situação pior do que a que entraram. Isso pode levar, é claro, a uma crise econômica grave.