Perpetuação e ruptura: a literatura de Chinua Achebe

Perpetuação e ruptura: a literatura de Chinua Achebe

Pode a destreza estética na literatura estar a serviço de estereótipos raciais? Como lidar com as críticas e com o valor da literatura assim produzida? Adriano Migliavacca analisa a literatura de Chinua Achebe em busca de algumas respostas.

Estado da Arte

06 Outubro 2018 | 16h00

 

por Adriano Moraes Miggliavacca

É impossível, em uma coluna voltada ao estudo da literatura africana como esta, não se deparar em algum momento com certos temas, difíceis por dizerem respeito a conflitos bastante atuais. O que é frequentemente chamado de “literatura africana” ou, talvez mais adequadamente, “literatura africana moderna” – a literatura africana escrita em línguas europeias – vem se formando a partir das independências da África desde o final da década de 1950, suas relações com o cânone ocidental sendo construídas em uma difícil, mesmo que produtiva, triangulação que tem como terceiro vértice os referenciais orais africanos. Tal construção se torna mais complexa devido à natureza tensional da relação entre os povos europeus e africanos por conta do racismo e da dominação colonial, problemas que não poderiam senão impactar as redes simbólicas que constituem e conectam a nova literatura e as antigas.

Antes que os próprios africanos começassem a transpor seu mundo para o papel, diversos escritores europeus ambientaram muitas de suas obras na África. O intérprete europeu da realidade africana acabou se tornando uma figura paradigmática, especialmente no campo da antropologia e etnologia e, em grau um pouco menor, da teologia. Ora, o crítico literário nigeriano Abiola Irele lembrou em mais de uma ocasião que a relação que os africanos estabelecem com a disciplina da antropologia é algo ambígua. Por um lado, essa disciplina possibilitou os primeiros olhares científicos sobre as culturas e sociedades africanas, desmontando parte dos preconceitos que caracterizavam tais culturas e sociedades como desprovidas de racionalidade e pensamento – como se fossem obra do instinto. Por outro lado, a abordagem antropológica do negro e sua cultura pressupõe estes como objeto de análise mais que sujeitos de ação – algo que foi consideravelmente mitigado nas obras de uma segunda geração de antropólogos africanistas como Marcel Griaule e Germaine Dieterlen. Essa coisificação antropológica encontra eco também no âmbito da novelística, como o mostram obras de Joyce Cary (Mister Johnson), Graham Greene (The Heart of the Matter) e Joseph Conrad (Heart of Darkness). Em romances como esses, e é novamente Abiola Irele quem o diz, o africano não surge como um sujeito portador de cultura, mas como um símbolo de certos estados morais e questões existenciais ou, ainda, como parte da paisagem. A essa literatura o crítico nigeriano chama de “literatura de exotismo”.

Muitas dessas obras constituíram parte não desprezível da formação literária de escritores africanos modernos. Esse é o caso do romancista que, segundo mais uma vez Abiola Irele, inaugurou a moderna literatura africana: o nigeriano Chinua Achebe. Diversas vezes se mencionou a motivação inicial para Achebe investir na literatura. O ficcionista nigeriano foi instado pela figura da África, em especial de seus habitantes, que encontrava nos romances de sua juventude, admitindo que, na leitura desses romances, identificava-se com os europeus, de caráter sólido e intelecto desenvolvido, e detestava aquelas figuras instintivas e sem valores morais que encontrava nos africanos; até o dia em que percebeu que essas figuras desprezíveis eram a caracterização que os autores europeus faziam do povo ao qual elepertencia. Era necessário responder. E a resposta veio na forma do romance Things Fall Apart.

Com o lançamento desse romance, Achebe se tornou uma importante voz na literatura moderna e é na posição de crítico e professor que ele aprofunda sua resposta à literatura que o assombrou em sua juventude e lança-se em uma ousada reavaliação de uma obra de alto prestígio no cânone ocidental. Pelos meados dos anos de 1970, quando ensinava na Universidade de Massachusetts, Achebe, preocupado com a reincidente imagem da África como um local de superstições desprovido de cultura, publicou o longo e densamente argumentado ensaio An Image of Africa: Racism in Conrad’s Heart of Darkness”. Os muitos romances de exotismo que lera não passavam, agora, de simples fósseis literários. A obra-prima de Joseph Conrad, no entanto, permanecia atual e vigorosa, e seus niggers seguiam povoando a imaginação europeia de africanos semianimalizados.

Com sua crítica à imagem que Conrad apresenta do africano, Achebe se coloca no espaço pantanoso entre a estética e a moral. Será que o triunfo artístico de Conrad justifica a depreciação dos africanos em sua obra? Achebe é incisivo em sua resposta negativa – uma obra que celebra a desumanização de parte da humanidade não pode ser considerada uma grande obra de arte, independentemente da qualidade de sua escrita. Aqui Achebe se encontra em um campo minado, ousando confrontar a força do cânone para ali afirmar essa parte da humanidade que já introduzira com Things Fall Apart.

É fácil assumir uma posição de repúdio ou apoio incondicional em relação ao posicionamento de Achebe. Mais difícil é ter empatia com sua posição: conceituado escritor de língua inglesa, conhecedor do cânone dessa língua, ele se vê na situação de confrontar sua realidade nativa com a imagem literária que se formou dela. Achebe era conhecido pela objetividade de sua escrita e suas ideias. A relação que estabeleceu com a língua em que escolhera produzir suas obras não era de caráter diverso: o idioma britânico teria os recursos para expressar a África que ele queria dar a conhecer, a África de sua experiência, mas teria de ser um novo inglês, em comunhão com seu lar ancestral, mas apto a comportar o novo ambiente africano. Da mesma forma, Achebe se estabeleceria na imaginação ocidental, mas não sem antes remodelá-la, rearranjar seus espaços para que ela pudesse acomodar mais essa realidade que se abria.

O leitor talvez esteja recordando algo parecido que vem ocorrendo no Brasil. Há algum tempo, uma polêmica se estabeleceu no cenário literário brasileiro relativa à utilização das obras infantis do escritor Monteiro Lobato nas escolas. Em diversas passagens, os personagens negros eram descritos de forma bastante pejorativa, e diversos intelectuais passaram a se perguntar se tais passagens não teriam o efeito de incentivar o racismo entre as crianças. É importante perceber o paralelo que existe entre a situação a recém-mencionada e aquela envolvendo Achebe e a obra de Conrad. A presença cada vez maior de intelectuais e escritores negros na vida intelectual possibilita uma intensificação do questionamento da carga simbólica que a figura do negro tem no âmbito imaginativo. Entre nós, o poeta e crítico Ronald Augusto, no ensaio “Dá licença, meu branco!”, parte do questionamento sobre a obra de Monteiro Lobato para traçar uma série de momentos da escrita brasileira em que a destreza estética esteve a serviço da reprodução de estereótipos. As obras em que desfilam tais estereótipos não parecem à beira de perder seu lugar no cânone. Da mesma forma, escritores como Ronald Augusto não parecem interessados em parar de questionar os cânones e seus processos de simbolização, tal como o fez Achebe algumas décadas atrás.

 

Adriano Moraes Migliavacca é tradutor e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul