“Perder a cabeça sem perder a elegância”

“Perder a cabeça sem perder a elegância”

Maria Antonieta sempre soube o que vestir em cada ocasião, mas usou seu apreço pelos trajes e seu conhecimento da causa como uma marca pessoal. Pecou por seus excessos, e por eles foi duramente condenada.

Estado da Arte

16 de junho de 2017 | 09h50

Por Laura Ferrazza

No dia 16 de outubro de 1793, uma carroça aberta transportava a última rainha da França de sua prisão na Conciergerie para o cadafalso. Nesse trajeto, o mundo pôde testemunhar sua derradeira afirmação sobre a importância da moda. Usando um simples vestido-chemise imaculadamente branco, pálida e com os cabelos louros claríssimos em uma touca de linho, ela encarnou a figura da mártir que caminha para o sacrifício. Mesmo que a plateia desejasse avidamente sua morte, ela os deixou perplexos ao se apresentar vestida de forma modesta, mas com grande dignidade. Foi o ato final de uma personagem que soube usar a moda como arma para o bem e para o mal.

Muitas vezes, é bem verdade, Maria Antonieta pecou pelo excesso. Talvez porque a essência mesma do fenômeno que tentava manipular – a moda – tenda ao exagero. No anseio de usar as roupas como uma forma de afirmação pessoal e de poder político, a rainha às vezes levou sua paixão pelo vestuário à beira da loucura fantasista. O feérico das aparências – expressão usada por Gilles Lipovetsky para referir-se ao fenômeno da moda – sempre conduziu o ímpeto criativo por caminhos tortuosos. A acusação de extravagância e superficialidade sempre pairou sobre o universo da moda; e essa pecha foi extremamente severa sobre a última rainha da França. Ela viveu num contexto social convoluto e viu na moda uma ferramenta de ação, um espaço de afirmação de sua posição social. Suas criações indumentárias foram abundantes. Algumas ajudaram a precipitar sua ruína. Outras marcaram a história da moda de forma positiva e ainda nos afetam hoje.

Entre as valorosas contribuições da Maria Antonieta à história dos costumes, podemos citar esta: ela foi uma das primeiras mulheres que ousaram usar um traje de montaria bifurcado.  Na época, as mulheres eram obrigadas a usar vestidos e montar sentadas de lado na sela, com as pernas fechadas – restrição que permaneceu dominante até o início do século XX. Quando Maria Antonieta chegou à corte de Versalhes, cavalgar era um de seus poucos prazeres. A cavalo, sentia-se livre do rígido protocolo que cercava os membros da família real. Para praticar tal atividade com o máximo de conforto e liberdade, Maria Antonieta elaborou seu próprio traje de montaria. A parte superior respeitava o estilo da época: como a montaria era associada à figura masculina, o traje para essa prática inspirava-se na vestimenta dos homens. Ainda assim, a mulher não devia dispensar o espartilho, usando-o sob um paletó aberto, revelando um colete de mesmo tecido, ambos ajustados ao corpo, destacando uma cintura fina e seios protuberantes. Todos esses detalhes, Maria Antonieta deixou intactos. Foi na parte inferior do traje que a então delfina da França mostrou até que ponto ia sua rebeldia indumentária. Negou-se a usar saias longas e rodadas e a montar de lado, como era o esperado de uma mulher. Em vez disso, passou a vestir apertadas calças de montaria – além de usar uma sela masculina, ou seja, montava com as pernas abertas, como um homem. Tudo isso era extremamente chocante para a Europa da época. O simples uso de calças por mulheres era um tabu. Discursos médicos e moralizantes condenavam ferozmente a ideia de que mulheres pudessem andar trajadas dessa forma, com o contorno das pernas delineado pelo tecido. Era preciso esconder coxas, joelhos e canelas sob rendas, saias e anáguas. Se o traje de montaria feminino bifurcado passou a ser aceito no início do século XX, o uso de calças por mulheres no dia-a-dia só passou a vencer as resistências na década de 1930.

Maria Antonieta foi imediatamente condenada por sua ousadia. Seus médicos, sua família, sua própria mãe, os cortesãos – todos se escandalizaram com o traje e a sela da rainha. Mas ela não se deixou dobrar e foi ainda mais longe: fez-se eternizar em um retrato equestre, à maneira dos grandes líderes e reis, usando o referido traje e montada como um homem. Trata-se do quadro Maria Antonieta a cavalo, de 1781, pintado por Louis-Auguste Brun. Numa sociedade em que a mulher tinha papéis específicos a desempenhar (no seu caso, a produção de um herdeiro para o trono), a jovem princesa buscou afirmar uma imagem própria, individual, sem medo. Na pintura de Brun, ela se equipara às figuras masculinas proeminentes, contrariando as expectativas sociais que pesavam sobre ela.

 

Maria Antonieta a cavalo de 1781 por Louis-Auguste Brun

 

Contudo, algumas de suas ousadias indumentárias fazem jus à fama de frívola e extravagante. Um episódio que despertou muitas críticas ocorreu no inverno de 1776. Após uma nevasca que durou seis semanas, a rainha, acompanhada de sua amiga, a princesa de Lamballe, desfilou pelo Bois de Boulogne num trenó puxado por cavalos brancos e ostentando seus altos penteados empoados, encimados por plumas também brancas, combinando com aquelas que adornavam as crinas de seus cavalos. Ao cobrir-se inteiramente de peles brancas e diamantes para um passeio de trenó num inverno rigoroso, a rainha buscava criar uma imagem de beleza transcendente; mas a ostentação de todo aquele conforto e luxo soou como uma ofensa aos que passavam frio.

Por sinal, uma de suas modas mais excêntricas foram os penteados grandiosos e complexos, apelidados de “pouf” – aos quais aderiram todas as mulheres da nobreza e da alta burguesia.

 

Exemplo de penteado tipo “pouf” usado por Maria Antonieta.

Eram verdadeiras obras de arte capilar, feitas de cabelo natural e artificial, encimadas por esculturas de diversos materiais, representando desde fragatas de guerra a fontes adornadas por pássaros empalhados (pássaros reais, a propósito…). Nesses ícones do excesso, já detratados em seu próprio tempo, a moda mostrava uma faceta ridícula e até perigosa – tanto que o ódio revolucionário pela figura de Maria Antonieta estava intrinsicamente ligado à sua idolatria pelos belos trajes. Com suas atitudes, pintou o quadro de uma aristocracia decadente que, ao sentir o esfacelamento do poder, aferrava-se ainda mais aos elementos externos e visuais de sua posição.

Ainda assim, não se pode perder de vista a importância de Maria Antonieta na história da expressão – e mesmo da emancipação – do indivíduo por meio das roupas em seu corpo. Na França da época, imperava a lei sálica, que proibia o acesso de mulheres ao trono; por isso, a figura feminina tinha um campo de ação limitado. No âmbito que lhe coube, Maria Antonieta viu na moda o melhor espaço para expressar seu eu e para demonstrar poder – nem que fosse o poder de gastar e influenciar o gosto alheio, já que todos acabavam seguindo seus caprichos visuais, por escandalosos que fossem. Tornou-se autoridade indiscutível na questão das aparências. Ela possuía um entourage de profissionais da moda que ajudou a alçar o estilo da rainha para a fama internacional, e era chamado ironicamente por seus críticos de o “ministério da moda”.

Perto do final forçado de seu reinado, ela cometeu nova ousadia, ao abandonar o pesado traje da corte por um simples vestido de algodão. Como reflexo de suas leituras de Rousseau, a rainha desejou viver em maior harmonia com a Natureza. Criou no Petit Trianon, uma fazenda onde encenava o papel de camponesa, colhendo ovos previamente limpos por seus criados e abraçando carneirinhos. Para entender seu comportamento, é preciso saber que o aspecto cênico da vida era muito importante na sociedade francesa do século XVIII – ainda mais na realeza. Depois de sua rebelião contra as saias de montaria, houve um breve episódio em que se insurgiu contra outra peça polêmica do vestuário feminino: o espartilho. Ele reinava absoluto como um símbolo da riqueza e imobilidade dos nobres, que não precisavam movimentar seus corpos para apanhar qualquer objeto, já que tudo lhes era trazido por mãos alheias. Maria Antonieta, contudo, sentia-se uma prisioneira no calabouço estreito do espartilho. Demorou, mas na década de 1780, a moda do campo inglesa atravessou o canal e a rainha logo substituiu a seda e a cintura apertada por vestidos mais confortáveis e aparentemente simples. Novamente, os moralistas se manifestaram, alegando que o corpo da rainha não era propriedade dela, mas do Estado. Ela representava o ventre dos Bourbon, que não podia se dar ao luxo de andar por aí solto. Mas, assim como fizera em relação ao traje de montaria, Maria Antonieta não voltou atrás e não cedeu às pressões. Essas pequenas revoluções em tecido fazem dela um ícone na história da moda.

Maria Antonieta sempre soube o que vestir em cada ocasião, mas usou seu apreço pelos trajes e seu conhecimento da causa como uma marca pessoal. Pecou por seus excessos, e por eles foi duramente condenada. Embora acusada de esvaziar os cofres da França para suprir seu apetite pelo luxo, é certo que não arruinou o reino sozinha.  Mas forneceu a munição necessária aos adversários. Levou a moda muito a sério, talvez até demais. Mesmo no momento de deixar a vida, escolheu seu traje com sabedoria. E após sua morte, algumas aristocratas começaram a usar uma fita vermelha atada ao pescoço para emular o colar de sangue produzido na rainha pela guilhotina. Nisso, a trágica e bem-vestida soberana parece ter atingido seu objetivo. E é impossível para nós, ainda hoje, separá-la de sua paixão pela moda.

 

Laura Ferrazza é doutora em História da Arte pela Sorbonne/PUCRS e pesquisadora do PPG de História da UFRGS

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