Passagem por Israel

Passagem por Israel

Senhores de um Estado após dois milênios de errância, como é possível que os israelenses não tenham se cindido em uma geografia simbólica opondo Jerusalém e Tel Aviv, e em projetos conflitantes acerca da nação?

Estado da Arte

24 de fevereiro de 2018 | 18h00

por Rodrigo de Lemos

A acolhida do trintenário israelense encontrado fortuitamente na mesa comunal do Bell Café murchou tão logo perguntamos se havia o que fazer em Tel Aviv no feriado semanal entre o entardecer de sexta-feira e o de sábado, tal como prescrito nos Mandamentos. Era óbvio que em Tel Aviv tudo abria normalmente no sabat; teríamos, por acaso, vindo de Jerusalém? Seu sentimento foi provavelmente análogo ao de um brasileiro questionado no exterior sobre cipós como meio de transporte ou macacos na Avenida Paulista. A Tel Aviv das óperas e das boates underground, das galerias de arte com cara de Chelsea e dos hipsters deambulando na madrugada em torno do Boulevard Rothschild é rondada pela proximidade do deserto e do monoteísmo bárbaro inspirado pela sua beleza desolada. Não é assim que o latino-americano das capitais é assombrado, sobretudo em viagem, pela lembrança da selva ou dos sertões sempre vizinhos, pelo arcaísmo da vida nessas solidões? Para a juventude dourada de Tel Aviv, a memória dos quipás e dos peiot curvados ao som dos salmos diante da menorá é recalcada para um espaço em especial: Jerusalém.

Como em psicanálise, o recalcado emerge com força redobrada, deformando o senso do real. A geografia imaginária opondo Tel Aviv e Jerusalém é em alguma medida isto, imaginária. Já a partir do meio daquela tarde, o sabat caiu sobre Tel Aviv como um manto sonolento, suscitando as piores angústias existenciais precisamente nos feriados religiosos que serviriam a apaziguá-las. Afora alguns bares, as cortinas de ferro do comércio se puseram a cair em uníssono por toda a cidade, e os gatos de sarjeta que, como em Istambul, disputam com os humanos a paisagem urbana nos dias normais se tornaram subitamente os únicos a vararem as ruas.

Quem sabe o sabat pese menos em Jerusalém do que em Tel Aviv. Cidade impossível como Veneza, “sonho de pedra” como talvez a descrevesse Baudelaire, Jerusalém deve ter ressaltados seus encantos na ausência do elemento humano contemporâneo, deixando espaço às reminiscências do Templo e do Gólgota, de otomanos e de Cruzados. Já Tel Aviv não excele nem pela beleza, nem pela espessura histórica. Tudo o que nela fascina é a vida das ruas. Construída às pressas ao longo do século XX a partir do histórico porto de Jafa, Tel Aviv foi o acolhedouro dos imigrantes que chegavam nas várias ondas da Aliá (o movimento de retorno à Terra Santa). A cidade assim padece dos males da modernização acelerada que não são desconhecidos das metrópoles latino-americanas, grandes destruidoras de patrimônio arquitetônico sob a pressão populacional. As construções recentes são frequentemente de uma qualidade abaixo do medíocre, e falta harmonia estilística em uma mesma rua, em uma mesma quadra. A impressão é de pobreza e de perigo, o que não reflete a realidade de um PIB per capita comparável ao do Reino Unido. Como em algumas grandes cidades brasileiras, o art déco e o Bauhaus são as fronteiras extremas da memória arquitetônica, e, fora dos bairros ricos, por vezes mesmo os raros prédios nesses estilos se encontram em estado precário. Na feiura e no eterno presente de Tel Aviv, dividido entre a praia, o café latte e a start-up, a imposição ancestral do ócio obrigatório parece ainda mais arbitrária – mas nem por isso é menos obedecida.

O sabat está longe, entretanto, de restringir-se a um problema estético. Sua observância foi das concessões que os fundadores secularistas de Israel fizeram aos ortodoxos. Ainda que incômodo a nosso interlocutor trintenário na mesa comunal do Bell Café em Tel Aviv, foi o que de menos grave eles cederam. O mal-estar entre os israelenses seculares (os hilonim) é quem sabe maior quanto às intromissões religiosas no Direito Civil. Os casamentos rabínicos são os únicos reconhecidos, e é igualmente à classe sacerdotal que incumbem os ritos funerários. O arranjo pesa nos debates sobre o casamento gay e explica em parte uma situação paradoxal: segundo o Times of Israel, cerca de 64% dos israelenses apoiam sua legalização; ainda assim, o Estado se vê obrigado a reconhecer tão-somente as co-habitações e os casamentos de mesmo sexo realizados no exterior: como no Líbano, inexiste o matrimônio civil, mesmo entre homens e mulheres. Os velhos inimigos que são os israelenses e os libaneses se congregam na necessidade de irem a Chipre caso desejem uma união secular. Nada mais ilustrativo do descompasso intrínseco entre a democracia e uma secularização inconclusa.

Sua laicidade lacunar, bem como a insatisfação que ela suscita entre os hilonim, bastaria a colocar Israel no rol daqueles países divididos de que fala Samuel Huntington a propósito de nações como o México ou a Turquia? Quem viaja ao país, quem lê seus jornais pode pensar que, politicamente, seu parentesco talvez seja menos com a Europa do que com a Turquia: de um lado, partidos de centro-esquerda (Trabalhista) e de centro-direita (Likud), situados na esteira dos chefes laicistas que fundaram a nação moderna; de outro, agremiações ortodoxas poderosas que têm a modernidade por uma tragédia e que advogam um retorno a um monoteísmo purificado de qualquer traço secular. Sem ainda um Erdogan para chamar de seu, esses grupos certamente influenciam o tabuleiro político e têm voz em questões de sociedade.

Não se sabe por quanto tempo esse equilíbrio vai durar. É comum ouvir em conversas e na imprensa que os laicistas têm um fator contra si: a demografia. Israel goza de uma natalidade das mais favoráveis entre os países ricos (três filhos por mulher). No entanto, ela é muito mais agressiva entre os ultra-ortodoxos (6,9 filhos por mulher) do que entre os seculares (apenas a taxa de reposição, de 2,1). Em alguns anos, essa tendência poderá fazer da minoria radical haredi a mais expressiva do país (maior mesmo que a dos árabes).

Além disso, os hilonim, cosmopolitas, apresentam uma tendência mais marcada à emigração. Israel (e Tel Aviv em especial) surpreende como um lugar caro, de preços londrinos. Da universitária que trabalha na versão local do Starbucks ao profissional em início de carreira, muitos jovens exprimem frustração com a carestia e vontade de uma Aliá (a imigração de judeus para Israel) reversa em direção ao Ocidente. Some-se a isso a gentrificação. Um taxista explica que nosso bairro, Neve Tzedek, já fora uma favela. Teria sido gentrificado por uma recente Aliá de judeus franceses, que abriram boulangeries e ateliês de design nas casas precárias rentes às vielas sem calçada em torno da Shalom Shabazi. Os preços dispararam. A mesma tendência se repete na degradada região de Florentin, foco do hipsterismo de esquerda. Por baixa natalidade ou por emigração, não é certo que a demografia vá sempre favorecer o elemento moderno da sociedade israelense.

Ouvem-se frequentemente israelenses preocupados com as possíveis consequências econômicas de uma retração dos hilonim. Segundo a Economist, apenas 45% dos homens ultra-ortodoxos (haredim) estariam na força de trabalho. Eles seriam mais inclinados à leitura da Torá nas escolas religiosas (as yeshivot) do que ao estudo das disciplinas modernas nas universidades (não é também o caso dos muçulmanos fundamentalistas nas suas madrasas?). Ao mesmo tempo, a prosperidade e a segurança de Israel dependem dos engenheiros e dos soldados formados pelo Estado secular. Daí o paradoxo: é o trabalho dessa grande população laica talvez decrescente que permite à minoria religiosa em expansão passar os dias rezando às custas dos benefícios estatais.

O crescimento demográfico dos ultra-ortodoxos também preocupa sob o aspecto eleitoral. Como a xaria entre os fundamentalistas islâmicos, a maioria dos haredim põe a lei religiosa (halaká) acima do mecanismo democrático. Também apoia o fechamento dos transportes comuns durante o sabat, a segregação entre homens e mulheres em trens e a expulsão dos árabes dos territórios israelenses (os dados são do Pew Research). Teme-se que o fortalecimento político dos fundamentalistas transforme Israel em um país mais próximo das sociedades fechadas que o circundam na região, baseadas em um estrito monoteísmo, do que do Ocidente pluralista com o qual muitas vezes é alinhado.

Essas fraturas na sociedade israelense atraem a atenção do viajante; ainda assim, acaso elas não se inscrevem em profundidade na história do povo judeu? No tempo dos Selêucidas (312-63 a-C), também o isolacionismo de javistas entrou em fricção com a racionalidade e o espírito universal do conquistador grego. Desse contato, nasceram tanto o judaísmo helênico de um Flávio Josefo quanto a reação exclusivista dos cultores de Javé, aferrados ao Templo em resistência a um universalismo percebido como alienígena. Quando da Haskalá (o equivalente judeu do Iluminismo), as comunidades da diáspora europeia nos séculos XVIII e XIX se viram igualmente clivadas entre a integração e o fechamento, entre o cosmopolitismo e suas tradições. Senhores de um Estado após dois milênios de errância, como é possível que os israelenses não tenham se cindido em uma geografia simbólica opondo suas duas principais cidades e em projetos conflitantes acerca da nação? A start-up e a yeshivá; viajar por Israel é acostumar-se com ambivalências desse tipo, uma entre tantas. Algumas resultam de uma situação complexa que transcende declarações de intenções. Na volta da Jordânia, onde passamos alguns dias, o agente de imigração israelense me crivou de perguntas agressivas sobre três gerações da minha família. A causa: um passaporte com vistos de turismo a países islâmicos. No grande painel fotográfico em frente à cabine, Ehud Barak apertava a mão de Yasser Arafat sob os auspícios de Bill Clinton em Camp David.

Rodrigo de Lemos é professor na UFCSPA (RS) e doutor em Literatura pela UFRGS.

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