Pascale Tournier: “diferentemente do movimento reacionário, o conservadorismo não deseja um regresso completo”

Pascale Tournier: “diferentemente do movimento reacionário, o conservadorismo não deseja um regresso completo”

Em entrevista exclusiva ao Estado da Arte, a jornalista Pascale Tournier comenta a ascensão do novo conservadorismo na Europa à luz do seu livro "Le vieux monde est de retour, enquête sur les nouveaux conservateurs"

Estado da Arte

12 de abril de 2019 | 17h00

por Rodrigo Coppe Caldeira Rodrigo de Lemos

“O conservadorismo se apoia numa nova geração que, a exemplo dos seus contemporâneos, se identifica pelo zapping. Esses jovens bebem à direita, à esquerda, mesmo à extrema-esquerda, bricolam, tateiam, transgridem com um prazer indissimulado”, afirma Pascale Tournier, redatora-chefe da revista La Vie, que se tornou especialmente conhecida com a publicação de seu livro Le vieux monde est de retour, enquête sur les nouveaux conservateurs (editora Stock, 2018).

Pascale Tournier é uma observadora atenta da vida política francesa, fonte de inspiração para o seu trabalho. Jornalista, formada em 1997 pelo Institut Pratique du Jornalisme, atuou em vários veículos de comunicação franceses. Tendo realizado uma acurada análise sobre a emergência de um novo conservadorismo francês, Tournier gentilmente nos concedeu esta entrevista exclusiva para o Estado da Arte.

Por que você se debruça sobre o fenômeno conservador contemporâneo?   

Tudo surgiu da vitória no outono de 2016 do antigo Primeiro Ministro, François Fillon, na eleição interna da direita francesa, face a Alain Juppé e Nicolas Sarkozy, os dois favoritos. Muitos de meus colegas jornalistas não previram isso. Foi eleito por esse eleitorado conservador. Havia então um tema que não desapareceu. Ao contrário. Essa onda conservadora continua a trabalhar a sociedade e principalmente toda uma nova geração, que cresceu depois da queda do Muro de Berlim em 1989. Ela tem voz na recomposição política em curso na França. O exemplo mais recente: o candidato às eleições europeias dos Republicanos e filósofo François-Xavier Bellamy, que é oriundo desse movimento. Mas esses conservadores têm sensibilidades tão diversas quanto as capelas existentes na França! Em meu livro, exploro o mundo desses antimodernos, “anarquistas”, dândis de direita, tradismáticos, espiritualistas, monarquistas, soberanistas, identitários, declinistas, bioconservadores, republicanos… Estão longe de serem fascistas completos. Porém, não hesitam em embaralhar as cartas entre a direita tradicional e a extrema-direita. Por diversão, provocação ou verdadeira convicção. Com a queda de François Fillon nas eleições presidenciais em 2017, não têm mais líderes políticos, mas esperam muito de Marion Maréchal, sobrinha de Marine Le Pen e neta de Jean-Marie Le Pen, atualmente retirado da vida política.   

Quais movimentos no tabuleiro político contemporâneo tornam possível a aparição desse novo conservadorismo?

Na origem dessa nova família de pensamento, indicaria antes a situação de “policrise” atravessada pela Europa e que não poupa a França: uma crise de legitimidade democrática, econômica e migratória. A nova geração é particularmente atingida: no mundo globalizado, o espectro do desemprego ronda frequentemente essa faixa etária na saída da universidade. O vivre ensemble [a convivência entre populações culturalmente diversas], propalado aos quatro ventos, manifesta-se para eles com a ascensão do comunitarismo ou um sentimento de insegurança cultural. “O novo mundo” que herdam não é vivido por eles como o da mundialização feliz, mas da identidade infeliz.

Está de acordo com a ideia de que há uma “revolução conservadora”? O que ela significa?

Sim, na medida em que essa corrente ideológica quer impor sua visão do mundo e do homem. Empreendem uma verdadeira batalha cultural, tentando impor seu vocabulário ao grande público. Saíram da sombra devido à importante lei de sociedade que é o casamento igualitário (NdT: a lei do casamento gay, aprovada sob o governo de François Hollande em 2013, que suscitou protestos da extrema-direita) e assumem sua visão antropológica, fundada na ordem “natural”.

“O novo mundo” que herdam não é vivido por eles como o da mundialização feliz, mas da identidade infeliz.

Para responder a crise existencial atual, esses conservadores à francesa concordam quase todos quanto a um projeto que se refere à ideia de limite. Têm horror ao slogan de Maio de 68, “É proibido proibir”, assim como ao conceito “tábula rasa” do passado. Pedem referências no espaço e no tempo. Têm de desmontar as estátuas do progressismo e do universalismo de esquerda, que apontam para o futuro e para o Novo Mundo. Essa ideologia, nascida sob influência do Iluminismo e triunfante nos anos 70, está para eles na origem de todos os males: individualismo contemporâneo, teoria do gênero, deserto espiritual, dissolução da autoridade, ascensão do comunitarismo, busca infinita por novos direitos… Essa ideia de Limite vai se desenvolver de forma diferente. Alguns vão destacar a transmissão, outros o laço nacional, a bioética (denúncia do transumanismo, da Reprodução Medicamente Assistida, da Gestação por Substituição), a ecologia. Mas há um ponto cego no seu sistema de pensamento: a economia. Eles não têm muito a dizer sobre isso, salvo palavras mágicas.  

Daniel Lindenberg, historiador das ideias e ensaísta, afirmou, em entrevista ao Canal U, que os novos reacionários acreditam que a chave do futuro está no passado. Há uma diferença entre os reacionários e a nova geração de conservadores que você estudou?

Segundo o dicionário Larousse, o conservadorismo é uma atitude ou tendência de alguém, de um grupo ou de uma sociedade, definida pela recusa à mudança e pela referência securizante a valores e estruturas imutáveis. É um modo de pensar, um estilo de vida, uma relação com o mundo que apela à prudência e a uma certa circunspecção ou um pessimismo frente à novidade. Diferentemente do movimento reacionário, o conservadorismo não deseja um regresso completo. Tenta preservar o melhor das tradições, olhando com discernimento a mudança, lança um olhar crítico à modernidade, sem negá-la. É uma filosofia do enraizamento. Resumindo, corresponde a uma posição média, entre imobilismo e movimento.   

Qual seria o papel da religião no novo conservadorismo? A identidade religiosa desempenha um papel nesse movimento?

A religião católica é uma das chaves para a compreensão do movimento. Não se trata somente de um verniz sociológico, mas um eixo estruturante que se exprime diversamente. Mais que sua fé, alguns reivindicam suas raízes e sua cultura cristã francesa frente à ascensão do Islã na sociedade. São os católicos identitários. Justificado historicamente, seu combate pode flertar rapidamente com as teses racistas do Rassemblement national, o partido de Marine Le Pen, levando a romper as travas que até então tinham prevalecido: um católico não votava em extremos.

Outros se apoiam na antropologia cristã da finitude para pensar os limites do ser humano, sejam esses católicos ou não. Por exemplo, os soberanistas que podem se considerar como conservadores se apoiam na matriz antropológica cristã estruturada em torno da finitude para legitimar o retorno das fronteiras, frear a tentação demiúrgica do homem na área da ciência.

Os últimos, porque são levados pela esperança da sua fé, são motivados a reconstruir a sociedade em bases cristãs, “que foram retiradas como um tapete sem que percebessem”. Preocupados com a crise atravessada atualmente pelas instituições, esses espiritualistas aspiram a reatar com o bem comum, a atenção para com o outro e com os mais frágeis, como apregoado pela doutrina social da Igreja.  

Celebraram-se no ano passado os 150 anos de nascimento do escritor Charles Maurras. Curiosamente, várias correntes do novo conservadorismo reivindicam esse autor. Não há contradição com o catolicismo que essas mesmas correntes apregoam, dado que Maurras foi condenado em 1921 pelo Papa Pio X?

Charles Maurras é uma figura importante para esse movimento. Esse intelectual dos anos 1930 deslegitimou o pensamento conservador, fazendo-o atravessar o limite que marca o fascismo. Seu “nacionalismo integral” é um tipo de conservadorismo do sangue e da terra e nutriu, como você sabe, o petanismo dos anos 1940. Sua “excomunhão” política e religiosa impediu a direita francesa durante muito tempo de abordar o campo intelectual. Esse ciclo está se fechando. Charles Maurras ainda exala enxofre, mas menos que antes. Todo um trabalho foi feito por intelectuais para restaurar sua imagem e, sobretudo, mostrar que seu antissemitismo era um antissemitismo de Estado e não racial. Como seus contemporâneos, a geração mais jovem não tem a mesma relação de culpa com a história que seus antepassados tinham. Pode se reapropriar, assim, do “nacionalismo integral” de Maurras, um arsenal doutrinal muito estruturado, baseado na restauração da autoridade e a busca do bem comum, no intuito de reencontrar a grandeza nacional perdida. Seu cristianismo é esvaziado da fé e é, então, cultural. É uma parte determinante da identidade nacional e daí um fator de coesão social, conforme ao pensamento de toda uma juventude que pede referências e radicalidade, como mostra o novo impulso da Ação Francesa. Expressões do pensador de Martigues são utilizadas por políticos de destaque, tal o chefe dos Republicanos, Laurent Wauquiez, como “o país real”.   

No segundo capítulo do seu livro, Le vieux monde est de retour, você menciona a bricolagem de ideias na aparição do novo conservadorismo. Pode detalhar esse fenômeno?  

De novo, o conservadorismo se apoia numa nova geração que, a exemplo dos seus contemporâneos, se identifica pelo zapping. Esses jovens bebem à direita, à esquerda, mesmo à extrema-esquerda, bricolam, tateiam, transgridem com um prazer indissimulado e em função de seus interesses e também para se opor aos antecessores, que cresceram em um ambiente político estruturado pela oposição entre direita e esquerda. Podem permitir-se isso: desde os anos 80, a oposição tradicional na França não quer dizer mais muita coisa, pois o Partido Socialista abandonou as classes populares em prol dos bobos [as classes média e média alta urbanas, progressistas e cosmopolitas] que vivem nas grandes metrópoles. O partido de Marine Le Pen, Rassemblement National, trocou de pele e o Presidente da República, Emmanuel Macron, com o partido central En Marche, alterou a paisagem. Eles assim leram Charles Péguy, Georges Bernanos, mas alguns também leram Maurice Barrès e Charles Maurras. Também buscaram à esquerda os filósofos ou escritores Simone Weil, George Orwell, Jean‐Claude Michéa. O discurso de Michel Onfray, Régis Debray ou Alain Finkielkraut soa bem aos seus ouvidos.

A geração mais jovem não tem a mesma relação de culpa com a história que seus antepassados tinham.

Seu livro situa a onda conservadora no ambiente francês. Entretanto, intelectuais e líderes conservadores surgem em outras latitudes (como na Índia, sob Modi, ou na Turquia, com Erdogan). Acredita que haja uma relação entre esses fenômenos?  

Sim, como já disse, a França e a Europa atravessam uma crise econômica, política e migratória. Em um mundo hiperconectado e globalizado, os outros países do mundo também são atingidos por essas novas mutações e essas novas problemáticas. Surge pouco a pouco a questão do modelo liberal e dos seus excessos, o tema da abertura das fronteiras e do destino das classes médias. Um clamor por autoridade e proteção aparece segundo o desejo de certos eleitores. Ele varia em função das realidades nacionais.  

Qual relação distingue entre o ideal conservador dos autores pelos quais você se interessa no seu livro e as novas tecnologias (sites, blogs, redes sociais) de que eles se servem para difundir suas ideias?

Tocamos aí num paradoxo. Eles são reservados quanto à evolução da técnica e particularmente da Internet, que impõe um ritmo frenético nas relações sociais. Entretanto, são os primeiros grandes usuários para difundir suas ideias e conduzir seus combates. Ninguém está a salvo de paradoxos. Sobretudo os franceses!

Rodrigo Coppe Caldeira é Historiador e professor do Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.

Rodrigo de Lemos é professor na UFCSPA (RS) e doutor em Literatura pela UFRGS.