Para soltar os cães da guerra

Para soltar os cães da guerra

Quando se fala no uso da palavra como invocação guerreira, impossível não lembrar aquela cena de Shakespeare, em que o jovem Henrique V incita as tropas inglesas à camaradagem heroica, antes da batalha de Agincourt; todo cinéfilo há de recordar esse discurso repetido por Lawrence Olivier e Kenneth Branagh: "Os velhos esquecem e tudo será esquecido; mas ele há de recordar com abundante minúcia os feitos que cometeu nesse dia. Então os nossos nomes, tão familiares em seus lábios como palavras domésticas, serão eternamente revividos entre os brindes transbordantes. E essa história será ensinada pelo bom homem ao seu filho; e o Dia de Crispim Crispiano jamais passará, de hoje até o fim do mundo, sem que nele sejamos relembrados: nós, poucos, nós, venturosos poucos, nós, bando de irmãos".

Estado da Arte

01 de julho de 2017 | 11h03

Por José Francisco Botelho

O chamamento às armas é um recurso veterano na liça das letras: a discórdia, o espanto e a sombra da morte sempre serviram de boa inspiração ao verbo. No início, ao que parece, os gritos de guerra baseavam-se mais no efeito sonoro, no entrechoque puro de fonemas; depois abasteceram-se com nuances de oratória; os melhores, acho, são os que reúnem ambas as virtudes. O frequentador casual de batalhas antigas há de ter se deparado, alguma vez, com a famosa ululação dos helenos frente aos inimigos, reminiscente ao grito das aves de rapina: Alalai, Alalai! Já Camões, no Terceiro Canto dos Lusíadas, nos dá o saboroso clamor rimado dos portugueses durante a Batalha de Ourique: “Real, real! Por Afonso, alto rei de Portugal!”. Eu, sujeito preferencialmente pacífico, costumo colecionar de cabeça, por motivos retóricos, esses velhos berros bélicos; meu favorito ainda é o dos almogávares na Guerra da Reconquista: “Desperta, ferro!” ? bela prosopopeia que desenha, num lance, as lâminas subitamente arrancadas ao sono das bainhas.

Às vezes, um só grito não basta: é preciso propiciar as divindades da guerra, ou o ânimo dos mortais, com discursos elaborados e imagens encadeadas. Quando se fala no uso da palavra como invocação guerreira, impossível não lembrar aquela cena de Shakespeare, em que o jovem Henrique V incita as tropas inglesas à camaradagem heroica, antes da batalha de Agincourt; todo cinéfilo há de recordar esse discurso repetido por Lawrence Olivier e Kenneth Branagh: “Os velhos esquecem e tudo será esquecido; mas ele há de recordar com abundante minúcia os feitos que cometeu nesse dia. Então os nossos nomes, tão familiares em seus lábios como palavras domésticas, serão eternamente revividos entre os brindes transbordantes. E essa história será ensinada pelo bom homem ao seu filho; e o Dia de Crispim Crispiano jamais passará, de hoje até o fim do mundo, sem que nele sejamos relembrados: nós, poucos, nós, venturosos poucos, nós, bando de irmãos”. Não estranha que o Discurso de São Crispim seja tão popular, em tantas épocas em lugares, tão adaptável a tantas situações diferentes: a guerra, aqui, parece uma empreitada incruenta, um esforço metafórico, um passo quase festivo rumo à imortalidade. Palavras assim podem ser repetidas diante de qualquer obstáculo, antes de qualquer iniciativa: incitam à coragem, ao ímpeto espirituoso, ao abraço fraterno. A dor, a lama, o sangue e o gemido são traços colaterais e subentendidos.

 

Ilustração Batalha de Agincourt, John Gilbert, final séc. XIX.

Por isso, se tivesse de escolher o exemplo de uma invocação realmente belicosa, que reviva o terror gutural das ululações arcaicas e que pinte a guerra com verossimilhança medonha, não me voltaria a Henrique V, mas a Júlio César. Após o assassinato do personagem-título, o pupilo Marco Antônio tem de se haver com os assassinos: inicialmente, faz-se de cordeiro manso, escondendo o ódio num sorriso de diplomata. Mas chega então aquele momento crucial do Terceiro Ato em que Antônio fica a sós com o cadáver de César, aos pés da estátua de Pompeu. Só então ele nos diz, em voz alta, o que de fato está pensando e sentindo. O discurso, um dos mais arrepiantes da literatura, termina numa visão infernal, em que o fantasma de César cavalga junto a Ate ou Atê, personificação da loucura cega e vingativa:

And Caesar’s spirit, raging for revenge,

With Ate by his side, come hot from hell,

Shall in these confines with a monarch’s voice

Cry havoc and let slip the dogs of war (…)

No cinema o discurso de Marco Antônio foi interpretado por Marlon Brando em 1953 e por Charlton Heston em dois filmes diferentes ? um de 1950, outro de 1970. Nos palcos, uma reencenação altamente controversa acaba de ocorrer em pleno Central Park. Em junho deste ano, em Nova York, o diretor Oskar Eustis montou um Júlio César cujo personagem-título tinha uma semelhança nada casual com Donald Trump; já Marco Antônio ? numa inversão de gênero hoje comum em adaptações shakespearianas ? foi interpretado pela atriz Elizabeth Marvel, de House of Cards, que conferiu ao personagem um sotaque típico do Sul americano. Desnecessário dizer que a adaptação causou doses idênticas de admiração e escândalo; graças a ela, nosso Júlio César é a peça mais polêmica do ano nos Estados Unidos.

House of Cards –  Elizabeth Marvel

Desde que foram escritas por Shakespeare quatro séculos atrás, as palavras de Marco Antônio junto ao cadáver de César adquiriram peso de provérbio na língua inglesa, especialmente aquele verso central: Cry havoc and let slip the dogs of war. Referências a essa linha podem ser encontradas em títulos de livros, manchetes de jornal, vídeos do Youtube e até na conversa casual do dia-a-dia – como, de resto, ocorre com vários outros fragmentos shakespearianos. Esse tipo de ubiquidade torna o trecho em questão ainda mais difícil de traduzir. Não basta verter o significado literal de cada termo; é preciso recriar, em português, um efeito igualmente soturno, beligerante e sentencioso, cujo poder transcenda a página em que surgiu e ganhe o peso das palavras universais.

A palavra havoc oferece um desafio particularmente violento. Nesse trecho específico, refere-se ao grito de guerra soltado por um soberano, ordenando que as tropas saqueiem, incendeiem e destruam tudo o que encontrarem pela frente. Minha primeira tradução do verso, feita alguns meses atrás, ficou assim: Grita Destruição e solta os cães da guerra.  Tudo parecia bem com minha escolha, até que resolvi testá-la em voz alta ? estratégia sempre prudente, quando se trata de um texto escrito originalmente para o teatro. Aí percebi que, apesar da proximidade semântica, a palavra destruição não era um bom substituto a havoc. E isso por motivos fonéticos: havoc tem o efeito de uma explosão vocal, sonoramente agressiva, que se crava no espaço nem bem rompe o limiar da boca; já des-tru-i-ção capota três vezes antes de bater numa sílaba tônica. Inserida num grito de guerra, parece mais uma série de tropeços do que um estouro. (Na dúvida, sugiro que o leitor ou a leitora faça o teste no recesso de seu lar: grite destruição, e verá que os cães da guerra não aparecem.) Seguiram-se alguns meses de experimentos fonéticos; fiz bocarras na frente do espelho, resmunguei em lugares públicos, temo ter assustado passantes incautos; por fim, escolhi uma palavra menor e mais crua, com a tonicidade mais próxima aos lábios, para fazer jus ao ulular dos guerreiros antigos. O trecho completo ? que há de aparecer, em breve, em minha tradução de Júlio César para a Companhia das Letras ? ficou assim:

Perdão, gleba de terra ensanguentada,

Por ser gentil com esses carniceiros.

És a ruína do homem mais sublime

Que já viveu sobre as marés do tempo.

Ai de quem derramou sangue tão caro!

Eu profetizo, olhando tuas feridas

? Que abrem os rubros lábios, bocas mudas,

Pedindo fala e voz à minha língua:

Terrível praga há de aleijar os homens;

Fúria interna e feroz guerra civil

Vão atrofiar toda a extensão da Itália;

Sangue e destruição serão rotina

E o terror será coisa tão comum

Que as mães só poderão sorrir ao verem

A mão da guerra esquartejar seus filhos,

Toda a misericórdia sufocada

Pelo hábito dos fatos hediondos;

E à caça de vingança a alma de César,

Junto a Atê, fumegante ainda do inferno,

Corre a terra e com voz de soberano

Grita Matança e solta os cães da guerra,

Até que o miasma deste crime horrendo

Se misture à carniça pestilenta

Dos mortos suplicando sepultura!

 

José Francisco Botelho é escritor, jornalista e tradutor. Seu livro de contos A árvore que falava

aramaico (Zouk – 2011) foi finalista do prêmio Açorianos. Suas traduções de Chaucer e

Shakespeare foram publicadas pela Companhia das Letras.

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