“Oxalá”

Estado da Arte

23 Março 2017 | 15h00

Por Felipe Pait

O filho de uma amiga professora de botânica, a Liz – vou chamá-la assim, podia ser Susan, ou Amy, ou outro nome popular na década dela, vocês imaginam qual é – tinha medo. Ele não era comunista, certamente não árabe ou muçulmano, nem judeu, não se metia de política, mas tinha medo. Preferia ficar invisível. Medo de quê? O leitor brasileiro de uma certa idade entende.

Era um pouco depois do segundo golpe, o golpe dentro do golpe, ou autogolpe, como preferirem. Os primeiros anos foram como um amigo, ortodoxo do Brooklyn, a frummer un a freyer, entendam como quiserem, havia previsto. A primeira emenda continuava falando com suavidade, mas a segunda carregava um porrete maior. Piadas sobre a Laranja Mecânica que espionava todas as conversas eram constantes, sob risinhos nervosos. Ninguém deixava de falar ao computador. Ler os antigos jornais de primeira linha, agora com tiragens minúsculas e banidos das coletivas de imprensa? Não na escola ou no trabalho. Jornalismo de investigação, histórias de enriquecimento rápido inexplicável que ainda ganhavam prêmios de reportagem? Leveraged buyouts no Vale do Silício com dinheiro dos novos oligarcas? Desaparecimentos? Evitavam comentar.

Depois começou a complicar. Corrupção é uma coisa, ideologia é outra, incompetência ainda uma terceira. Para grande estrago duas das três não bastam. Furacão aqui, vazamento sísmico num fracking ali, chumbo na água acolá, epidemias de doenças erradicadas… As catástrofes, na falta de providências, iam exigindo novos bodes expiatórios. O regime derrapava para uma guerra, sabe-se lá contra quem. Não uma invasãozinha mixuruca. Havia novas potências menores com armas nucleares… Não escrevo para ensinar a história que vocês conhecem. O regime foi deposto, o Agente Laranja teve o que merecia, as coisas ainda pioravam.

Liz me contava sobre um esquema para investir numa ilha mediterrânea – a República da Córsega, o Reino das Duas Sardenhas, não sei bem – que serviria para obter passaporte europeu para o filho e a família. Dois ou três contos de réis, uma quantia irrisória para um nababo chinês, e bem dentro das possibilidades de um profissional de classe média americana… pelos preços de antigamente. Hoje o dólar não vale mais nada. Um punhado de escudos e cruzados portugueses eram a casa e a aposentadoria dela num próspero subúrbio da Nova Inglaterra. Depois como iam se sustentar nas Europas?

“Liz, acho que dez mil réis resolvem seu problema. Só me responda uma pergunta: você nasceu no Brasil?”

Minha amiga hesitou. Insisti. “Preciso que você me forneça a resposta correta”. Falávamos pelo telefone comum. Quanto menos segurança, menos chama a atenção. Quanto mais encriptado, mais vigiado. O Kremlin tem ouvidos dentro da Casa Branca. O Partido Comunista Chinês? Nem precisa. Só a boca.

“Nasci,” respondeu ela.

“Muito bom”. Agnóstica convicta, levava os amigos para ouvir os coros das igrejas africanas-americanas. Escutei o lado criativo da memória. “Seus pais foram missionários, certo? Batistas, metodistas? Você lembra o nome da cidade brasileira onde nasceu? Não? Perfeito. Uma cidade do interior, imagino. Vou investigar”.

* * *

Tirei uma licença prêmio de uns meses para escrever um livro, e me instalei numa modesta e aprazível pensão de cidade pequena, no grande sertão, nas veredas, nas Geraes, me desculpem não dar muito detalhe. Perto de um parque nacional quasi-acessível, clima bom de montanha, comida simples e farta, cachoeiras de águas outrora límpidas e cristalinas, caminhadas pelas serras. Levem muita água durante a estiagem, não confiem no GPS, atenção às cobras. Lugarejo de alguma história, afastado dos roteiros turísticos convencionais.

Logo apresentei-me ao pastor. Homem instruído, viajado. Escrevia um livro, contei-lhe, e ia à igreja para não ler os livros sagrados sozinho no shabes. Na cidade não havia sinagoga. Tudo verdade.

“Por que não? Le ilahe ille’lleh,” disse-me num pouco do árabe aprendido nos estudos e em missões nos arquipélagos, para além da Cochinchina. Concordamos.

O livro progredia bem, contei ao pastor, que tinha genuíno interesse. A cibernética de Wiener, a esfera de Riemann, o jogo de Go, a superelipse de Piet Hein, a música klezmer. A matemática, as ciência sociais, a Criação, conversamos bastante. “Não teria muito leitor cá na nossa acanhada cidade, mas quem sabe no futuro? O progresso vem rápido, a juventude sai para estudar, alguns voltam, um dia abrimos uma faculdade aqui”.

Mais tarde expliquei-lhe a situação de minha amiga bióloga. Nascera no Brasil, quando os pais, falecidos de longa data, eram missionários metodistas. Mas não sabia onde exatamente havia sido registrada. Com certeza cá por nossas bandas. Não guardara atestados, nem fotografias. Na América do Norte havia muito incêndio. Não era maldade do regime, sempre houve. Nunca entendi por quê. Calefação exagerada, construção em madeira, tapeçarias, guarda-roupas atulhados, sei lá. Não os possuía.

“Descreveu-me muito as flores do cerrado, os ipês, nanuzas, capim dourado, sempre-vivas,” contei. Queria voltar à terra das vagas lembranças da infância. Procurava um lugar tranquilo para trazer o filho arquiteto, a nora professora, os netos pequenos. Longe das confusões do hemisfério norte. Faltavam-lhes vistos e documentos. Finalmente tivemos uma ideia: haveria de ser algum dos fiéis escrivão, com perícia para esquadrinhar os tabelionatos. Liz por certo faria um donativo significativo se a certidão de nascimento fosse encontrada, em algum dos cartórios da região.

Nosso país progrediu muito. A informática às vezes facilita o trabalho, às vezes é usada por governos maldosos como óbice à liberdade. Mas o estudo, a fé, a persistência, a busca pelo sucesso nos negócios, são sempre aliados. Encontrado o certificado de batismo, foi fácil localizar a certidão, numa cidade bem próxima àquela onde acertadamente escolhi começar a busca. O resto, passaporte, vistos, naturalizações, tudo correu com presteza e simplicidade, conforme reza a lei.

Liz e a família moram agora no Espinhaço. (Xi, contei. Agora já sabem. Tanto se me dá. Não há mais segredos.) O filho projeta obras públicas e escolas, até quem sabe… Também é artista de algum sucesso, e muita serenidade. Da forma como vivem, podiam todos mesmo terem nascido lá. Não há palavra falsa que venha d’alma. Quando visito-os, ocasionalmente, tenho que explicar ao pastor que ainda trabalho no livro. Um dia fica pronto, insha’allah.

Felipe Pait é professor no Laboratório de Automação & Controle da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Estudou engenharia elétrica na USP e na Universidade Yale.

Encontrou algum erro? Entre em contato