Os três problemas da Revolução Russa (ou de qualquer outra)

Os três problemas da Revolução Russa (ou de qualquer outra)

A revolução não é necessariamente a mensageira da mudança. Quase sempre se mantém reproduzindo o que de pior existia na sociedade.  

Estado da Arte

18 Dezembro 2017 | 18h00

Por Vinícius Müller

A efeméride de 100 anos da Revolução de outubro de 1917, quando os bolcheviques de Lênin, apoiados pelos conselhos de trabalhadores, os Soviets, tomaram o poder ou derrubaram de vez o cambaleante governo provisório encastelado na Duma (Parlamento) da Rússia, nos presenteou com um sem número de análises, de balanços e afins nos últimos meses. Entre elas, e entre nós brasileiros, chama a atenção a obra de Daniel Aarão Reis, professor da Universidade Federal Fluminense e especialista na história do evento que agora se torna centenário (A revolução que mudou o mundo. Rússia, 1917. Cia das Letras, 2017).

A obra, além de muitíssimo bem escrita, traz algumas reflexões interessantes sobre o papel das mulheres e dos camponeses naquilo que o autor chama de “Revoluções Russas”, no plural. Mulheres e camponeses, ou agentes que, ainda segundo o autor, são esquecidos na maior parte das histórias que contamos sobre o período que se estende de 1905 (a primeira revolução) até 1921 (com a Contrarrevolução de Kronstadt, rebeldia militar caracterizada como favorável à retomada do projeto ‘democrático’, perdido durante a Guerra Civil, e que foi esmagada pelas forças do Exército Vermelho de Lênin). Contudo, é no encadeamento da obra que o percurso do que Aarão chama de Revoluções Russas se revela para além daquilo que está escrito. Há um fio que conduz o leitor em círculos, como um looping ou um tempo cíclico entre o modo como descreve e localiza historicamente a dinastia dos Romanov e sua autocracia até a ascensão do totalitarismo stalinista.

Cena de “O Encouraçado Potemkim” de Sergei Eisenstein (1925), sobre o motim na marinha russa em 1905, retratando o massacre tzarista nas escadarias de Odessa – que, na verdade, nunca aconteceu.

A unidade possível de um país geograficamente continental, étnica e culturalmente variado, economicamente atrasado e socialmente dividido (pensemos numa comparação entre a população europeizada de São Petersburgo e a esmagadora maioria da população que vivia na zona rural) era quase como um milagre operado pelo tzarismo russo. Mesmo amparado pela Igreja Ortodoxa Cristã, o Estado Russo era mais uma aglomeração de regiões conquistadas e mantidas sob forte controle do que uma nação. Contudo, o poder do Tzar e o modo como simbolicamente se construiu, na Rússia multinacional, a vinculação entre o líder, seu poder pessoal e a sociedade, transbordava a questão institucional, a transformando na verdade em desnecessária. Dessa forma, não há leis ou instituições formais mais importantes ou hierarquicamente superiores ao poder do Imperador. E assim, alguma pitada de religiosidade – o apoio mútuo entre o Império e a Igreja Ortodoxa – era suficiente para, na maior parte dos casos, manter a população subordinada ao poder do Tzar.

Por outro lado, esse fenômeno não era exclusivo da Rússia. A associação e sobreposição entre aquilo que parecia parte da sociedade moderna – o Estado – e elementos pré-modernos, como o poder familiar e dominial (de dominium, antecessor do feudo) foi visto, em medidas diferentes, em diversos países e impérios até a 1ª Guerra Mundial (1914 – 1918). O que se discutia era a possibilidade e viabilidade de alguma modernização institucional em uma sociedade que assim se organizava. Nesse sentido, a modernização não viria da sociedade civil organizada, ou do avanço daqueles imbuídos da mentalidade burguesa, ou do próprio enriquecimento promovido pelo mercado. Mas, sim pela ação do Estado. De cima para baixo e muito parecido com aquilo que Voltaire já apontava na França do século XVIII, ou que Pombal mirou em Portugal, ou mesmo que Kant achou que seria feito por Frederico da Prússia, o “Rei Filósofo”, na mesma época.

Nessa modernização conservadora que ocorria na Rússia no tardar dos oitocentos, elementos novos se ajustavam à manutenção dos antigos e arcaicos: fim da servidão com manutenção da pobreza rural; industrialização com financiamento externo e repressão aos movimentos de identidade nacional não-russos; poder personalizado e patrimonialista do Tzar e sua Corte e tímidos avanços democráticos, como o surgimento de inúmeros movimentos ideológicos, sociais e agrupamentos políticos. E, claro, o aparecimento da Duma, o Parlamento, em 1905. Nesse ambiente aparentemente contraditório, a Rússia foi, segundo Niall Ferguson (O Horror da Guerra. Editora Planeta, 2014), o país que apresentou as maiores taxas de crescimento econômico entre os europeus até a Primeira Guerra Mundial ser deflagrada.

Contudo, o ritmo das mudanças e resistências em um ambiente que combinava a unidade tzarista com a multiplicação de interesses e reivindicações fragmentadas tornava improvável qualquer tipo de construção de uma nova unidade: proliferavam os Soviets (Conselhos de trabalhadores) camponeses, urbanos e de soldados, os variados tipos de manifestações rurais, inclusive aqueles ligados à formação de um grupo de pequenos proprietários, e os grupos políticos e ideológicos, que transitavam desde o radicalismo socialista ao liberalismo burguês. Nesse meio, os bolcheviques de Wladimir Ulianov, ou simplesmente Lênin.

O colapso que a Guerra de 1914 trouxe à Rússia era símbolo da mesma amálgama, do mesmo mosaico que tornava o país refém de contradições e conflitos provavelmente sem soluções fáceis. Ao se modernizar, a Rússia se aproximou dos países europeus mais desenvolvidos. Mas, o caráter conservador dessa modernização a mantinha ainda muito distante da situação de enfretamento em condições iguais em uma “Guerra Industrial” como foi aquela. Portanto, a Revolução de fevereiro, assim como a de outubro de 1917, eclodiam exatamente na esteira de uma modernização relativamente fracassada levada adiante por um despotismo muito pouco esclarecido dos Romanov.

Contudo, se por um lado a radicalização dos personagens na antessala da ascensão dos bolcheviques justificava-se pela deterioração da situação russa durante a Grande Guerra e pelos próprios limites do projeto dos Romanov, por outro pouco se sabia como tal modernização poderia ser feita naquele país. Para além da conhecida hipótese de que era possível ‘acelerar’ a história em nome de um projeto que, em princípio deveria contar com uma fase ‘burguesa’ para, depois revelar as contradições do capitalismo: essa fase seria atropelada em nome de uma inevitabilidade histórica que, chegada a hora, impunha a ruptura mesmo sem passar pelos degraus previstos pela teoria.

 

Foto de uma vala comum onde em 1940 foram despejados mais de 20 mil prisioneiros de guerra poloneses executados durante o massacre stalinista na floresta de Katyn – que nunca aconteceu, segundo a versão oficial soviética.

Eis o primeiro problema das revoluções. Quando tomadas pela convicção da tal inevitabilidade histórica, se arvoram no papel de transformadoras daquilo que consideram ruim em algo que alcançará um objetivo pré-determinado. E não medem esforços para isso. E não podem voltar atrás. Logo após a tomada do poder pelos bolcheviques, seguida pela saída da Rússia dos conflitos da Primeira Guerra, a situação se agravou tão intensamente que as poucas experiências que envolviam algo ao menos próximo de um ‘socialismo democrático’ e de resquícios de uma economia de mercado (as pequenas propriedades rurais e industriais que permaneceram privadas durante o período da Nova Economia Política durante a década de 20) ruíram. É certo que a Guerra Civil (1918-1921) contribuiu para a ainda maior deterioração das condições de vida da população russa, mas a saída do governo revolucionário que tentava se consolidar foi digna do Tzar derrubado na véspera: esmagamento dos pequenos proprietários; nacionalização e excessivo controle sobre a produção agrícola, inclusive com confisco de parte da produção de grãos; apelo ao nacionalismo russo; mudança de opinião sobre a autonomia dos povos não-russos; prisões e expurgos daqueles considerados inimigos da revolução. Como diz o próprio Aarão:

Fechou-se então a hipótese de um socialismo democrático. Ela não voltaria a se abrir. Fechou-se igualmente aquele ciclo revolucionário. O comunismo soviético afirmara-se como ditadura política de partido único. E assim permaneceu durante décadas, até sua desagregação final. (A Revolução que mudou o mundo, p.49)

Eis, assim, o segundo problema das revoluções. A certeza que carregam sobre a história e sobre o futuro, faz com que, na maior parte das vezes, outros alvos – muitos de modo indesejado – sejam acertados em escala e intensidade maior dos que os alvos previstos.

Por isso, é mais fácil depois de tanto tempo olhar para aquilo que a Revolução manteve, não para aquilo que transformou: a mesma estrutura despótica, centralizada, Imperial e nacionalista dos Romanov. A mesma relação patrimonialista e de dominium que Nicolau II tanto usou a seu favor. E se faltava transferir e adaptar o poder pessoal que tinham os Imperadores, Stálin o fez com maestria ao longo das décadas de 1930, 40 e 50.

O problema da conclusão de Aarão é que, aparentemente, não vê como inevitável esse looping, essa retomada pelos bolcheviques daquilo que tanto criticavam no Império Russo. Ou, talvez ainda mais adequado, como inevitável o uso e o desenvolvimento pelos bolcheviques daquilo que, mesmo sendo o alvo de suas críticas ao governo anterior, mostrou-se indispensável para a manutenção do poder dos revolucionários:

“Recuperar a gesta livre e democrática do ano de 1917, quando tudo parecia possível, antes que as revoluções russas, apanhadas na dinâmica de guerras civis catastróficas, desembocassem na ditadura revolucionária?” (A Revolução que mudou o mundo, p. 192)

Não, não é possível. Eis o terceiro problema das Revoluções: como normalmente acertam aquilo que não miravam, e aquilo que acertam, quase sempre, é o que inviabiliza o próprio governo, a única saída para manter intacto seu ideal histórico e utópico é utilizar, de modo mais agressivo, as mesmas forças que achavam combater. Nesse sentido, a permanência que a Revolução Russa foi obrigada a patrocinar foi maior e pior do que a mudança que os revolucionários imaginavam patrocinar. A revolução, portanto, não é necessariamente a mensageira da mudança. Quase sempre se mantém reproduzindo o que de pior existia naquela sociedade.

Vinícius Müller  é doutor em História Econômica pela USP e professor do Insper.

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