Os “sem-lugar”: os brasileiros que não aderiram à guerra ideológica

Os “sem-lugar”: os brasileiros que não aderiram à guerra ideológica

Como ficam os brasileiros que não se identificam com nenhum dos lados da recente disputa eleitoral e querem construir uma nova face política para o País ‘sem resistência’?

Estado da Arte

14 Novembro 2018 | 18h05

por Isabelle Anchieta de Melo

Somos 40 milhões. E isso não é uma força de expressão. Somados os votos brancos, nulos e abstenções. Os “sem-lugar” na última eleição representam cerca de um terço do total dos ‘eleitores’. Desde 1989, não se via algo igual. Destaco ‘eleitores’, porque, ao contrário do que se propaga no senso comum, a suposta não escolha é, sim, uma escolha de um lugar por vir. Um lugar em que o combate à corrupção e à violência possa associar-se, sem contradições, a interações humanas equânimes e à priorização da cultura e da educação ─ setores estratégicos e motivadores para a superação das pobrezas simbólicas e reais de nosso País. Um lugar em que não seja necessário falar grosserias movidas a testosterona para ser forte e que não abuse da ideia de vitimização como estratégia política para manobrar as massas e uma elite de intelectuais e artistas ─ que julgam combater o bom combate.

Os “sem-lugar” são capazes de colocar à prova suas certezas, examiná-las, desconfiando sempre de cartilhas prontas, de ideologias com cheiro de mofo, de palavras de ordem e de salvadores da pátria. Não vestem camisas com frases prontas. Não adotam identidades partidárias. Críticos de si mesmos, riem daqueles que se julgam superiores moralmente por saberem que o homem é processo. “O homem é superável”. 

Não são anarquistas, muito menos deslegitimam os vencedores só porque eles não os representam. Os “sem-lugar” não fazem “resistência a priori”. Irão apoiar e defender as boas decisões do governo para o País, questionar os possíveis retrocessos e não farão oposição por oposição que, no fundo, almeja somente desestabilizar o candidato eleito democraticamente para roubar-lhe poder. Os que agem assim são os verdadeiros inimigos da democracia (e do País), e não o contrário, como tentam fazer crer. 

Nesse mesmo sentido, o teórico franco-búlgaro Tzetan Todorov, sagazmente, afirma que os inimigos da democracia “têm a aparência menos assustadora do que os de ontem, que a atacavam de fora; não projetam instaurar a ditadura do proletariado, não preparam um golpe de estado militar. Eles usam os trajes da democracia e, por essa razão, podem passar despercebidos. Nem por isso deixam de representar um verdadeiro perigo: se não lhes for posta nenhuma resistência, um dia eles acabam por esvaziar esse regime de sua substância”. 

Não sem razão temi quando esses inimigos íntimos da democracia fingiam protegê-la e iniciavam um suposto movimento em sua defesa. Havia um grande risco do esvaziamento do sentido forte dessa palavra. Assim como foi feito com a ideia de “golpe”. Mesmo a ideia de “tortura” foi desvirtuada no momento em que o candidato do PT acusou falsamente o vice de Bolsonaro de torturador. A mentira acaba por macular a força da verdade, a memória e mesmo a legítima resistência daqueles que passaram, sim, por essa barbárie da nossa História. Foi desrespeitoso.   

Nem a esquerda, nem a direita, esse lugar sem nome e sem rosto, mira um futuro comum em que o equilíbrio e a imparcialidade sejam uma busca inquietante, nunca uma parada. Uma busca em nada pacífica. Exige um esforço para não se deixar levar; por ter autonomia; por criar seu próprio juízo após a apreciação dos contrários. Reconhece e apoia as conquistas de lado a lado, sem, no entanto, deixar de manter um distanciamento crítico de seus excessos. Mas não se trata somente de uma exigência racional. Ela requer, sim, a paixão pela busca da verdade, por uma aproximação possível dela.   

É a paz depois de um longo período de guerra. 

Esse lugar que os “sem-lugar”, hoje, ocupam não é o da indecisão ou de uma postura reticente. Trata-se apenas de um movimento não nomeado e que terá de ser construído. Criado. “São sujeitos sem predicados. Mas, certamente, estão em processo de autocriação como sujeitos políticos. Em algum momento, acabarão por encontrar com uma ideia com a força de nomeá-los”.

São pessoas cansadas dos ‘ismos’ e de suas armadilhas retóricas, que intuem haver algo além do já conhecido e apontando para a autossuperação histórica. Mesmo que esse ‘algo’ seja um híbrido do que já existiu, combinando a liberdade econômica com a responsabilidade social. Sim, responsabilidade social. É preciso ter coragem de dizer que “a solidariedade humana não é um palavrão. As pessoas precisam de proteção e isso é um direito. O trabalho, a educação, a saúde e a aposentadoria”.  Entenda-se: trabalho e aposentadorias mais dignas do que as existentes hoje no país, além de uma educação de excelência, com professores selecionados, avaliados e bem remunerados. 

Um Estado atuante no que é necessário ser, inclusive como sendo aquele que detém o ‘monopólio da violência’ para coibir a ‘guerra de todos contra todos’ e a justiça feita pelas próprias mãos, típicos de uma barbárie social à qual não queremos retornar.  Mas ao mesmo tempo em que possamos construir uma sociedade fluída em termos de comportamento e afetos, que valorize a meritocracia, a livre concorrência, o empreendedorismo, a pesquisa e a educação. Em outras palavras, uma sociedade que desse conta de somar “a inovação da sociedade com a proteção social”, escapando tanto de um populismo hipócrita como de um capitalismo sem freios. 

Os “sem-lugar” são pessoas que se deram conta de que os seus desejos não estavam representados por ‘nenhuma alternativa acima’ e resolveram correr o risco de apostar no vazio. Se toda mudança pressupõe risco, quanto mais se fizer necessária a mudança, maior terá de ser a nossa aposta, já que “toda produção de um novo sujeito político é também a produção de sua sombra e de novos riscos”.

Por isso, enganam-se profundamente os que pensam que os “sem-lugar” saíram do jogo político. Ao contrário. Eles serão o futuro, são os que abrirão o caminho para a mediação e a conciliação social e política. Ao não assumirem um lado, são livres para apoiar e mesmo compor o que há de bom e mesmo apresentar elementos que escapam a mirada dos partidários. Costumo dizer que estar “em cima do muro” é a melhor posição estratégica para ver as coisas por cima. Para não se envolver em brigas desnecessárias, mas, sobretudo, para indicar aos que não conseguem enxergar de seu ângulo de visão que há, sim, um caminho comum no horizonte. 

Isabelle Anchieta de Melo é doutora em Sociologia pela USP, jornalista, mestre em Comunicação Social pela UFMG. Recebeu prêmio como Jovem Socióloga brasileira pela Associação Internacional de Sociologia com apoio da UNESCO