Os rostos do messianismo e as políticas da salvação

Os rostos do messianismo e as políticas da salvação

A sacralização da política parece ter sido o efeito inesperado da secularização e uma de suas contradições centrais.

Estado da Arte

17 Abril 2018 | 17h00

por Rodrigo Coppe Caldeira

O termo messias, originário do hebraico mâshiâh, em grego traduzido por Christos, significa “ungido”. Vem designar aqueles que receberam da divindade uma missão especial, consagrando-se para uma tarefa específica. Ele é o ungido que virá colocar fim a ordem atual da realidade, desempenhando um papel central na salvação dos indivíduos como um todo ou de um grupo específico. Sua ação se relaciona com a transformação definitiva do estado de coisas.

Como fenômeno religioso, o messianismo não pode ser encontrado em todas as tradições religiosas. Como demonstrou Max Weber, ele teve como seu protótipo e modelo mais acabado a religião israelita. As forças psico-sociais do messianismo já foram estudas e discutidas por inúmeros pensadores do século XIX e XX.

No âmbito da esfera política moderna, não nos faltaram experiências messiânicas. Stálin, Hitler e Mao Tsé-Tung são os exemplos mais famosos, e também mortíferos. As ideologias políticas que representavam revestiram-se de aspectos messiânicos. Por causa disso, foram descritas como religiões políticas (Eric Voegelin) e religiões seculares (Raymond Aron). Passaram a colocar sua fé num futuro distante e radiante, sob a forma de uma ordem a ser criada pelas mãos humanas, portadoras da salvação. Como nos ensinou Julien Freund em seu seminal Les politiques du salut, de 1974, a política tendeu a usurpar as funções e as tarefas que eram especificamente religiosas. Tornou-se intolerante e pretendeu determinar a ortodoxia e a combater heresias, descobrindo sua vocação redentora. A sacralização da política parece ter sido o efeito inesperado da secularização e uma, entre outras, de suas contradições centrais.

Os movimentos populistas, geralmente, estão carregados de aspectos messiânicos. Eles podem ser de sinais contrários, tanto de esquerda quanto de direita, mas trazem, quase sempre, um furor autoritário – o desejo de salvar os outros não aceita recusas. O messianismo caminha lado a lado com algum tipo de doutrina escatológica, que por sua vez está relacionada com uma crença no sentido da história. Aquele que se inebria com o messianismo sempre acredita que o descobriu e que tem a chave para os seus mistérios. Sua ação escatológica tem em vista a transformação do Regnum Hominis em Regnum Dei. Ele é o enviado, o profeta, a transfiguração da pureza de um conhecimento encarnado que nos leva pela mão àquele mundo em que a realidade se encontra com o desejo.

Cristo destrói sua cruz, óleo sobre tela de José Clemente Orozco, 1943, Museo de Arte Carrillo Gil.

A reedição do messias escatológico político em terras tupiniquins, em cores e sabores diversos durante nossa história republicana, nos faz perguntar mais uma vez – já que a pergunta também se reedita ao mesmo tempo em que o próprio fenômeno – o que se esconde por trás da escolha de seus seguidores a professarem uma fé irrestrita em suas verdades, em suas doutrinas e ritos: exigência primária, que elimina qualquer possibilidade de críticas e nuances, a não ser que aqueles que as proferem estejam dispostos a encarar o ostracismo da heterodoxia herética. Uma outra questão é se essa ortodoxia doutrinária-messiânica, de fato, representa uma verdadeira convicção, em que corpo e alma do fiel estão dispostos frugalmente em seu altar, ou se não passa mais do que um discurso motivacional efetivo, em que os crentes que a condividem, usam-na como uma espécie de licor orgiástico em busca de manter os ânimos exaltados. O culto ao líder tende a ter uma função socio-emocional.

O líder messiânico exige uma ética puritana, um senso de obediência cego, que elimina o indivíduo, que apagado ontologicamente dá lugar a um grande “nós”. No mundo definitivo e sem contradições, rumo ao qual o messias sabe como nos conduzir, não haverá mais conflito pelo simples fato de que não haverá mais “eus”. No campo da democracia liberal atual, toda solução é precária, e o lugar do poder, um espaço vazio. Se vivemos o início de uma era pós-democrática, só o tempo dirá. O que se observa, não obstante, é o vir à tona de dejetos messiânico-milenaristas nesse início de século. O “inferno de salvadores”, como falava o filósofo romeno Emil Cioran, parece que vai se cristalizando como um horizonte inescapável. Por estas bandas, somos obrigados a viver com seus avatares, herdeiros de um milenarismo ibérico: uma crescente fila de candidatos a Dom Sebastião. Escorregamos perigosamente para uma situação em que messianismos psicóticos se digladiarão abertamente.

Rodrigo Coppe Caldeira é Historiador e professor do Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.

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