O veredicto iídiche de Franz Kafka

O veredicto iídiche de Franz Kafka

Thiago Blumenthal analisa as influências do teatro iídiche na obra de Frazn Kafka.

Estado da Arte

23 de novembro de 2017 | 19h00

Por Thiago Blumenthal 

Muito já foi dito sobre o Kafka judeu e parece já haver certa atmosfera amistosa dentro da crítica especializada do autor tcheco em, não necessariamente aceitar, mas considerar os sugestivos motivos judaicos orbitando pelo seu intrincado universo. A leitura nesse sentido pode ser ampla, porém sempre com o cuidado que a interpretação do objeto exige. Passa pela crítica de ordem mais biográfica, que se ancora em todas as referências ao judaísmo notadas em cada entrada do diário do autor e mesmo nas correspondências trocadas com amigos e amantes. Outros buscam um cabalismo que, a meu ver, parece forçado e nada original, uma tentativa insana de inserir uma teorização fechada no texto literário e não a via inversa. Por outro lado, recentemente, em publicação providencial dentro da fortuna crítica brasileira, Enrique Mandelbaum faz um traçado bastante completo do judaísmo na obra de Kafka, ilustrando toda uma análise acurada com uma apreciação comparativa estabelecida entre alguns contos do Rabi Nakhman de Bratzlav. O resultado, apesar de intrigante e até inesperado, é natural, e a ponte que une Kafka e o Rabi Nakhman é, apesar de estreita, confiável.

A qualidade do texto de Kafka e a sua flexibilidade interpretativa fazem com que sua obra ainda seja tão lida, apreciada, comentada e criticada. Penso no boom mais recente da crítica literária, que é a questão genética. Sinceramente não sei se Kafka já é objeto de estudo da chamada crítica genética e tenho dúvidas quanto à viabilidade deste viés dada a necessidade física mesmo do manuscrito. De todo modo, seria um estudo enriquecedor e o convite ao pesquisador de Kafka está feito nesse breve parêntese. Porém, eu vinha dizendo sobre esta obra ser tão lida e tão estudada, e me deixa contente que a crítica cada vez mais explore os âmbitos judaicos, os possíveis, sem o fórceps prejudicial que comprime o texto e o modela a seu bel prazer.

Só que um ponto ainda me incomoda na crítica de Kafka, e mais especificamente, na apreciação judaica de seu texto: o autor e o teatro iídiche itinerante, com quem teve intenso contato na Praga da década de 1910. Não me refiro à questão meramente biográfica, até porque, como sabemos, basta procurar as entradas a partir desta época específica para encontrarmos longas digressões sobre a beleza do teatro judeu, uma verdadeira descoberta para Kafka, pequenas paráfrases da peça vista em determinada noite, e palavras de sincera admiração a Yitzkhok Löwy, ator que, graças a Max Brod, pôde conhecer pessoalmente e assim estreitar os laços a uma profunda amizade. A questão principal aqui, tão pouco abordada e parece que esquecida da crítica, é dos efeitos que teve a imersão de Kafka no teatro iídiche, se houve uma influência em sua obra, em seus escritos. Há apenas um único trabalho de pesquisa a respeito dessa questão especificamente literária, da professora norte-americana Evelyn Torton Beck, trabalho este publicado, porém sem tradução no país.

Há pouco tempo, em um contato estabelecido via e-mail, a professora Beck, que já traduziu Bashevis Singer do iídiche supervisionada pelo próprio autor, com quem trabalhou de maneira bastante próxima, ela dizia que, apesar do fato de a sua publicação Kafka and the Yiddish Theater ser realmente a única a lidar com o tema em seus âmbitos propriamente literários, há alguns escritos recentes sobre essa relação entre Kafka e o iídiche. O primeiro nome que ela cita é de Jean Jofen, que trata, não do teatro, mas da influência dos contos e do misticismo iídiches no autor. Aqui, vale lembrar que o misticismo em Kafka, desde Scholem, tem sido ao mesmo tempo fonte de leitura e de muita controvérsia. Há, na crítica, os defensores mais ferrenhos e aqueles que abominam qualquer tipo de mística no que chamam de duro realismo kafkiano. Fato é que esta parece ser uma vertente que não pode ser desconsiderada e que, ao menos a mim, não parece empobrecer a complexidade do autor.

Um outro nome que a professora Beck cita é o do italiano Guido Massino que, em sua obra Fuoco Inestinguibilie – Franz Kafka, Jizchak Löwy e il teatro yiddish polacco ­– de 2002, traça um bem cuidado trajeto histórico desde o primeiro momento em que Kafka vai assistir a uma peça da trupe de Löwy. Trata-se de um importante trabalho, por sua originalidade – e também por sua coragem, já que contamos com poucas fontes de pesquisa – que, embora de foco absolutamente histórico, revela todo um universo desconhecido de boa parte do público leitor de Kafka, que mergulhava na cultura iídiche com um entusiasmo quase infantil. Além disto, Massino fornece importantes pistas contextuais para quem vê um até então inesperado paralelo literário.

Sem tradução para o Brasil, as obras citadas são de difícil aquisição, mas uma salutar fonte de pesquisa crítica no que se refere à relação estabelecida entre o autor tcheco e judeu com o teatro iídiche-polonês.

Um pouco de história

No outono e no inverno de 1911, justamente um ano antes de escrever O Veredicto (Das Urteil no original em alemão), passou por Praga uma trupe de jovens atores judeus, liderados pelo complexo e difícil Yitzkhok Löwy, que atraiu, de forma mesmo obsessiva, como lemos em seu diário, o autor que, até aquele momento, não havia escrito muito, era apenas um funcionário de uma seguradora, estava próximo dos trinta anos e ainda morava com os pais. As peças eram representadas no Café Savoy – vale notar que o lugar existe até hoje – e tinham um público fiel, em sua maioria jovens intelectuais judeus que viam naquele grupo uma forma de expressão bastante autêntica da cultura judaica, de repertório melodramático e popular, que tomava da tradição oral iídiche uma fabulação de certo modo rude, enérgica, embalada por canções tradicionais, todas recitadas em uma espécie de transe, alternando o iídiche russo-polonês com um alemão agramatical –; o que poderia resultar em uma quase incompreensão do público causava esse efeito hipnótico que tanto cativara Kafka.

Não demorou muito até o autor tcheco familiarizar-se não só com este teatro mas com seus atores. Yitzkhok Löwy, o líder do grupo, tornou-se amigo pessoal de Kafka, graças à intermediação do sempre amigo em comum Max Brod. Infelizmente, por ter uma personalidade atípica – que tanto atraía o amigo Kafka – Löwy começou a demonstrar cada vez mais uma incapacidade de trabalhar em uma companhia cômica, sofrendo de crises progressivas de depressão, isto até o fim de sua vida, quando, capturado pelo regime nazista, morreu na unidade de Treblinka. A última vez, entretanto, em que se viram foi em Budapeste, quando Kafka o visitou e ele estava enfermo, de cama em um hospital.

Kafka, nesse produtivo intervalo de 1911 a 1912, chegou a financiar o teatro iídiche ali realizado e as entradas em seu diário neste período revelam um momento bastante entusiasmado do autor, a ponto de estar “irracionalmente” – conforme dito pelo próprio autor – apaixonado por uma das atrizes desse teatro, Millie Chissik, que já era casada, tinha três filhos e por volta de dez anos mais velha que Kafka – ela partiria depois para a Inglaterra, onde tornou-se referência da companhia iídiche de Londres.

Em fevereiro de 1912, Franz Kafka faz uma leitura pública de um texto seu cujo tema era justamente o iídiche, servindo de prefácio à leitura de alguns poemas por Yitzkhok Löwy. Nesse texto, o autor tcheco diz que o iídiche tinha apenas 400 anos, sendo, portanto, a mais jovem língua européia – ele mostrava-se encantando com a descoberta do iídiche, cometendo um outro erro histórico, pois o iídiche tem sua origem datada aproximadamente do século X. Dizia também que não possuía uma gramática oficializada – de fato, o primeiro livro científico sobre a gramática iídiche, de Birnbaum, Praktische Grammatik der Jiddischen Sprache fur den Selbstunterricht, foi publicado no ano de 1918 em Viena. Um dos poemas lidos por Löwy foi “Sand un Schtern”, uma amarga interpretação da promessa bíblica que reza: seremos como as estrelas no céu e a areia na praia do mar. Kafka encerrou a noite com a frase: “Nun, greteten wie der Sand sind wir schon, wann wird das mit den Sternen wahr werden?”, ou seja, como a areia, já demos um primeiro passo, mas e quanto às estrelas? Quando vai ser verdade?

Pontos de contato

Apesar de toda essa carga contextual que liga Kafka ao teatro iídiche de modo tão intenso no início da década de 10, muitas de suas ideias presentes em seu diário e muitos de seus textos parecem ter sofrido uma forte influência iídiche. Porém, para este breve recorte, dois textos-chave de todo o universo kafkiano ganham atenção: Amerika e Das Urteil (O Veredicto). No primeiro, o encontro do protagonista Karl, por exemplo, com o foguista – em episódio marcante da novela – ganha uma ambientação típica do espaço cênico iídiche, minúsculo e apertado, em que os gestos se tornam hiperbólicos, quase que preenchendo completamente esse espaço. Os gestos de Karl são elaborados e bastante exagerados, refletindo diretamente seus pensamentos, como em uma espécie de código para uma suposta audiência.

Quanto ao fim da narrativa, ainda que esse fim seja discutido, pois muitos dizem que a história não termina – pelo simples motivo de Kafka ter cessado a escrita e nunca mais ter voltado a ela em Amerika – já outros dizem que ela aparentemente termina “sem fim”, em aberto (não cabe entrar nesse mérito), mas o fato é que a última cena da novela se dá no misterioso teatro de Oklahoma, em que Kafka explicitamente se apropria do tema presente na peça Got, Mentsh un Tayvl (Deus, Homem e o Diabo) de Yakov Gordin, a que o autor tcheco havia assistido. A conversa entre Deus e o Diabo com uma infinidade de anjos em volta do palco é emprestada desta peça, e mesmo a descrição da disposição dos anjos (e do procedimento do truque de palco pelo qual pareciam voar) parece sair do seu diário, como se estivesse descrevendo a peça de Gordin após a sua apreciação.

Já em O Veredicto, escrito em uma única noite, em setembro de 1912 parece inaugurar a série de obras-primas do autor e, mesmo se deixarmos de lado o intenso momento “iídiche” que Kafka vivia, os pontos de contato são inúmeros e é impossível negá-los. Primeira e marcadamente, nunca nenhum escrito de Kafka tinha sido tão dramático como este, intenso, com diálogos vivos e um andaime formal que poderia ser muito bem re-montado como roteiro teatral.

A metade inicial do conto se constrói ainda sobre a prosa kafkiana, sempre precisa e clara, sem subjetivismos ou enfeites narrativos. Conta que Georg Bendemann, protagonista do conto, terminara de escrever uma carta a um amigo na Rússia, noticiando-lhe o noivado com a senhorita Frieda Brandenfeld. Há toda uma digressão (sempre objetiva) dos problemas que o amigo enfrenta em terras estrangeiras e das dificuldades em dar-lhe esse tipo de notícia, chegando a criar problemas com a noiva. Pois quando o filho passa pelo quarto do pai, decide falar que finalmente tomara a decisão de contar sobre o noivado ao amigo e, por isto, já havia escrito uma carta a esse respeito. É quando irrompe um diálogo quase insano, que só se encerra com o veredicto paterno: a morte por afogamento, que o filho aceita, dando cabo de sua vida.

O mesmo aspecto já referido sobre Amerika aqui também se evidencia: o espaço quase sufocante do teatro iídiche apresentado em Praga é o mesmo: o quarto do pai é pequeno, tem apenas uma janela que permanece sempre fechada (mesmo se aberta daria de frente a um muro contíguo, conforme descrito no conto) e não à toa o filho sugere ao pai a mudança de quarto, para um ambiente maior e mais iluminado. Essa ambientação dá o tom para que o diálogo e a narrativa forcem protagonista (Bendemann, o filho) e leitor a um beco sem saída. Há mesmo um momento em que o filho fica acuado a um canto do quarto, o mais distante possível do pai – aquele espaço o encerra.

Toda a descrição exagerada e quase caricata da personagem do pai – a boca desdentada, os pulos insanos que ele dá sobre a cama de braços abertos para amedrontar o filho, o roupão aberto e a linguagem utilizada – são emprestadas da fabulação iídiche, do cenário e do figurino extravagantes, da atuação exagerada, de uma riqueza gestual particular, sem contar os efeitos do chiste iídiche, sempre inclinado ao trágico.

Em relação à linguagem, a frase kafkiana “triste” com um uso irônico, típico do humor judaico, acentua-se na formalização explícita de uma dramatização elevada à máxima potência, onde o gesto complementa de modo essencial a significação do todo. Walter Benjamin já havia se referido a este aspecto de sua obra, o gestual, porém ele o relacionou com o teatro chinês, sem qualquer menção à estrutura teatral iídiche e ao intenso contato do autor tcheco com essa vertente de manifestação dos seus.

Desse modo, após esse breve panorama, a tarefa de detecção da influência do teatro iídiche na obra de Kafka se mostra, apesar de extensa e delicada, bastante aprazível. Nunca arriscada, penosa ou impraticável. E, também por ser um aspecto pouquíssimo trabalhado pela crítica de Kafka, essa leitura não só re-atualiza a fabulação do autor, como permite inseri-lo ainda mais dentro de uma perspectiva de uma literatura que respira entre a areia da praia do mar e as estrelas no céu.

 

Thiago Blumenthal é fundador da editora Lote 42 e doutorando em Literatura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.