O sonho de Leonardo di Caprio

O sonho de Leonardo di Caprio

Estado da Arte

16 Janeiro 2017 | 08h05

Por Felipe Massao Kuzuhara

O filme Before the Flood (Antes da Enchente), documentário sobre mudanças climáticas estrelado por Leonardo DiCaprio, teve seu lançamento global via internet na National Geographic. Apesar das melhores intenções e da qualidade do filme, penso que assisti, acima de tudo, a um grande abacaxi a ser descascado. Afinal de contas, por que um ator com a visibilidade de DiCaprio se esconde por trás de um documentário, ao invés de se exibir naquilo em que ele é mais capaz? Isto é, por que ele não atuou num filme de ficção, criando uma narrativa emocionalmente poderosa e de alcance mundial sobre o mesmo tema, ao invés de insistir em fatos e relatos? Tento aqui pensar sobre esta tensão, entre o sonho (ficção) e o fato (documentário), para discutir nossa condição frente à crise ambiental que enfrentamos.

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Primeiro aos fatos: Before the Flood é um documentário sobre as mudanças climáticas. Nele, Leonardo DiCaprio se apresenta como um cidadão preocupado em divulgar os efeitos e os impactos econômicos sobre o meio ambiente. O DiCaprio da vida real virou mensageiro da paz pela ONU em 2014, com foco especial em mudanças climáticas. Em pouco tempo, o seu filme foi visto por mais de 25 milhões de pessoas, e foi debatido em muitas escolas e outras instituições. O filme retrata lugares em condições de mudança dramáticas, tais como geleiras árticas, plantações na ?ndia, campos petrolíferos no Canadá, nas cidades da China, e alerta para as ações que devem ser tomadas para evitarmos uma dirupção mais catastrófica de nosso planeta. DiCaprio entrevista figuras importantes, como o presidente da ONU, Ban Ki-Moon, o Papa Francisco e Barack Obama.

O filme faz parte de uma série de outros documentários, tal como seu precursor An Inconvenient Truth de Al Gore, ex-vice-presidente dos Estados Unidos e ganhador do Premio Nobel da Paz em 2007. Neste sentido, DiCaprio seguiu numa toada familiar, ao atualizar fatos, gráficos e relatos, em uma discussão sobretudo racional, sobre emissões de carbono, mudanças de temperatura no mundo e em consonância com uma linha de abstração compatível com o debate científico e político no mundo. Por isso mesmo, Before the Flood bate na mesma tecla. Talvez DiCaprio repita os fatos, em vez de apostar na ficção, simplesmente porque não existe hoje uma narrativa capaz de mobilizar uma atenção massiva sobre as questões ambientais. Em outras palavras, temos razoável consenso científico, mas não há uma simples história, coesa, eficiente, afetivamente envolvente, que nos arremesse para dentro da agenda ambiental.

Você conseguiria me apontar um filme que consiga representar e articular aquilo que dever ser nossa grande questão para este século? Eu não consigo. Se o século XX foi marcado pelo medo de uma distopia nuclear, a divisão do mundo em dois blocos, e a questão da pobreza extrema, somos hoje confrontados com o fato de que o mundo não aguenta nosso desenvolvimento econômico. Esse parece ser o grande problema para o século XXI. Há vários filmes que apontam as questões do século passado (Dr. Strangelove, Planeta dos Macacos, Exterminador do Futuro, todo o nosso Cinema Novo, etc.) mas qual filme nos fala devidamente sobre a questão ambiental? Não há nenhum minimamente relevante sobre o assunto. No entanto, o diretor de cinema Fernando Meirelles aponta que o discurso ambiental precisa ser contado em histórias pois “nossa cabeça é desenhada para compreender o mundo por histórias. As religiões ensinam sua moral contando histórias, crianças aprendem o que é o bem, o mal e tudo mais ouvindo histórias.”

Eis um dos grandes problemas frente à crescente crise. É sintomático que, entre sonho (ficção) e fato (documentário), conseguimos apenas apelar à razão como faz o documentário de Di Caprio. Os mercados, governos, e até mesmo as religiões já começaram a responder às mudanças climáticas. Mas o problema é complexo, profundo, e necessita de participação e mudanças em todos os níveis, inclusive o individual. Neste sentido, a questão ambiental pede maior envolvimento emocional, em vez de indiferença ou negação. Alguém acredita que Donald Trump rasgaria os projetos ambientais em curso nos Estados Unidos se seus eleitores fossem mais sensíveis ao tema?

Filme e sonho são debatidos em conjunto em psicanálise desde a obra de Bertram D. Lewin, ao menos. Neste sentido, o sonho pode ser visto como a projeção interior de um filme, criando uma narrativa pessoal durante o sono que nos ajuda a processar e dialogar com nossas paixões, medos, e anseios profundos. Em outras palavras, é desde a Interpretação dos Sonhos de Freud que se consolida em psicanálise a ideia de que sonhar cala fundo em nosso inconsciente, sendo uma de nossas atividades mais básicas. Através de pequenas narrativas oníricas, sonhos articulam experiências emocionais importantes. De certa maneira, é isso que deveríamos esperar do sonho coletivo que pode ser o cinema de ficção. Por isso Hollywood também é conhecida como a nossa fábrica de sonhos. Já não há mais tanta necessidade de claridade nos argumentos e do uso da razão em relação à questão ambiental. Precisamos, sim, que nossa porção irrefletida, intuitiva e inconsciente consiga se articular e conectar no compasso de nossa condição ambiental. Mais histórias, menos dados. Mais ficção, menos documentário – eis o abacaxi que nos é apresentado sintomaticamente no dilema de Leonardo DiCaprio. Sem descascarmos isso, nos sobrará muito de indiferença, negação e ceticismo.

Não tenho a menor pretensão de converter alguém. Mas, se o apelo a fatos e sonhos possíveis não o convencerem, talvez o apelo financeiro o faça. Porque se você tiver uma boa sacada, DiCaprio te espera de braços abertos, e Hollywood com um saco de dinheiro, caso consiga criar uma boa história – simples e poderosa – sobre a questão ambiental. Depois de Leonardo DiCaprio, Gisele Bundchen, Nicholas Cage e outros vêm aí. São eles agora, tentando influenciar os rumos de nossa condição por meio de, oxalá, novas e efetivas narrativas sobre o grande desafio que enfrentamos

Felipe Massao Kuzuhara é economista, mestre em teoria psicanalítica e doutorando pelo Birkbeck College (Londres) em Psicologia Social.