O sentido do mundo

O sentido do mundo

Como lidar com o fato de que mesmo aquelas coisas que julgamos mais certas e seguras estão sujeitas ao imprevisível, ao acaso e à fatalidade?

Estado da Arte

02 Julho 2018 | 14h17

 

por Felipe Pimentel

Dada a quantidade de pessoas circulando, nascendo e morrendo no mundo; as milhares de movimentações de veículos na superfície, sobre e sob a terra; a necessidade de trânsito de materiais para as mais diferentes partes produtivas e as consequentes distribuições de mercadorias; a complexidade de recursos naturais e artificiais explorados e manufaturados; os sinais invisíveis da comunicação digital que trafegam pelos ares; as conexões estabelecidas entre as empresas, produtos e serviços; as dezenas de moedas no mundo intercambiando entre si seus valores e suas transações; que tudo isso esteja acontecendo ao mesmo tempo no globo terrestre de modo suficientemente organizado é realmente surpreendente. É evidente que para explicar e organizar todas essas ações, nós passamos o tempo inteiro comunicando e organizando esses fluxos de informações em planilhas, relatórios, mensagens, tabelas, gráficos, artigos e livros. A conexão entre as ações e as informações criam algum tipo de certificação que as coisas estão no seu devido lugar.

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Quando olhamos para a história das civilizações, os erros ocorridos parecem sempre tolos e óbvios. A Grande Fome medieval, o colapso do império romano, as diatribes internas das pólis helênicas, as contradições da democracia ateniense escravista, as Grandes Guerras mundiais. Como não previram o desacordo entre produção, população e abastecimento? Que ignorantes esses medievais! Como puderam fazer acordo com hordas inimigas? Que ingênuos esses romanos! Por que não se uniram contra os adversários externos? Que esnobes esses gregos! Como não previram o avanço dos nazistas? Traidores, tolos, chamberlains! Porém, uma rápida reflexão já nos remete para um sexto da população com fome no mundo, o imperialismo calcado na democracia, Al Qaeda, Estado Islâmico, 2008. Provavelmente, daqui a duzentos anos, os homens desse futuro possível dirão: “que ignorantes esses millenials, como não perceberam/fizeram isso ou aquilo?” 

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O célebre pensador Nietzsche, normalmente denominado filósofo, gostava de rejeitar essa alcunha, anunciando-se como psicólogo (chegando, inclusive, a afirmar que era o “maior psicólogo que a Europa já conheceu”). Sua crítica à filosofia e também a outras áreas, como a moral e a religião, possuía um fundo psicológico. Sua concepção de existência abrangia dois âmbitos: um lado organizado do mundo (os seres em geral e a própria realidade), apreensível pela razão e possível de ser representado; e um lado completamente caótico, onde nada pode ser capturado pela racionalidade ou por qualquer tentativa de circunscrição de um sentido, de uma lógica. Segundo ele, a nossa condição humana e a própria realidade eram uma combinação desses dois fatores; daí se compreende porque rejeitava um tipo específico de filosofia, aquela caracterizada exatamente pelo anseio de explicar a totalidade (ainda mais as religiões, que tentam oferecer um fundamento último também para a Criação). Em última instância, ele acreditava que tais manifestações (moral, filosofia, religião) eram fruto de uma incapacidade (uma fraqueza psicológica) das pessoas em lidar com o sem-sentido das coisas, almejando acoplar à realidade e a si mesmas qualquer sentido artificial, ainda que construído de maneira complexa.

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Uma das principais forças motoras do mundo, o mercado financeiro, age baseado em séries intermináveis de planilhas e modelagens, cálculos e previsões científicas, armazenadas em incontáveis bytes pelo mundo. Seus protagonistas estão entre as pessoas mais competentes do mundo do trabalho contemporâneo, e sua prática diária costuma ser um teste de fogo físico e psicológico para elas. Somente alguns sobrevivem. O funcionamento do mercado financeiro está alicerçado nas maiores abstrações possíveis, e os seus resultados perfeitamente tangíveis e reais respondem e funcionam de modo puramente virtual. É praticamente uma corrupção de ontologia aristotélica ou da química lavoisieriana. Não deixa de ser curioso que a principal entidade a determinar a sustentação de todo o tecido econômico seja uma corruptela do célebre ditado latino ex nihilo nihil fit. Seus irmãos mais reais, as empresas e os governos, trabalham modelando cenários no excel, onde a realidade precisa, depois, forçosamente entrar, e com o tempo ali se encerrar. Suas práticas efetivamente passam a ser dominadas pelas planilhas que decidiram os fluxos, os processos e as metodologias encerradas no arquivo xls, às quais está submetido o PMO.

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A diplomacia também possui esse lado. Os especialistas nas redes terroristas explicam o modo como eles funcionam para os estrategistas militares, que por sua vez transmitem ao governo, que, autorizados pelos legisladores, toma decisões de como desmantelá-las do modo mais preciso, eficaz e definitivo. As teorias políticas que as embasam demonstram como se sustenta uma grande nação e como se luta contra inimigos externos ou internos. As ações são as mais diversas e muitas vezes terminam exitosas, sacrificando a rede terrorista e desmantelando seus braços armados. A médio prazo, as redes retornam mais complexas, mais articuladas e, não suficiente, mais radicais – surpreendendo os estrategistas, os especialistas, os governos e a opinião pública. Visto à distância, no tempo e no espaço, seu ressurgimento 2.0 parece tão evidente agora quanto impensado alguns anos atrás.

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Ocorre que a realidade parece estar muito organizada, funcionando normalmente, sem maiores impedimentos, e que as explicações e certificações que damos para ela são suficientes para dar conta de tudo o que está acontecendo. Mas a parte mais divertida entra aí: sejam pequenas, como a quebra de uma pequena empresa ou o fracasso de um plano estratégico, sejam gigantes, como o desastre do combustível no Brasil ou a crise do subprime de 2008, as situações caóticas que acontecem ou surgem demonstram que o fundamento da realidade e do modo como o mundo funciona é absolutamente frágil, fugaz e nonsense. Que a retirada de um item provoque um colapso de abastecimento num país; que o setor mais influente do mercado, composto pelas mais competentes pessoas, entre em franca bancarrota autoinfligda; que as planilhas matemáticas do PMO não consigam mais segurar a realidade que lhes escapa; que o Estado Islâmico tenha surgido das cinzas da Al Qaeda; todas essas coisas atestam suficientemente que há uma fragilidade maior do que pensávamos no funcionamento do nosso mundo – que mesmo aquilo sobre o que nem pensamos muito, pois supomos estar seguro, está tão sujeito quanto nós às mais imprevisíveis intempéries e aos mais devastadores acasos?

E nós nisso tudo, como ficamos?

Não poderíamos ter uma solução para aquilo que nos escapa, dado que isso é o que o define, mas já seria de bom tamanho se nós colocássemos no nosso cálculo do mundo uma variável qualquer que assegurasse uma porção razoável da realidade sem qualquer possibilidade de mensuração, representação e sentido. Já é um bom começo para nos libertarmos da nossa pretensão, da nossa ambição e da nossa efetiva ingenuidade de querer controlar a realidade – todos esses fatores que foram tão responsáveis por tantos desses colapsos que tentaram prevenir. 

No limite, estaremos pelo menos mais leves. Compreender o sem sentido da realidade — nada pode trazer maior libertação e bom humor.

Felipe Pimentel é historiador e psicanalista.

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