O rosto de jano das luzes

O rosto de jano das luzes

O século XXI precisa despertar do sono profundo que permitiu a contaminação da História pelas teorias racistas.

Estado da Arte

24 de maio de 2019 | 08h30

O escritor nigeriano Wole Soyinka para o Oslo Freedom Forum


por Adriano Moraes Migliavacca

O filósofo e pesquisador cognitivo neozelandês James Flynn, em seu livro What is Intelligence?, reconta uma anedota encontrada no livro The Cotton Kingdom, do arquiteto e jornalista norte-americano Frederick Law Olmsted. Ao viajar pelo sul dos Estados Unidos, Olmsted descobriu leis que proibiam que se ensinassem pessoas negras a ler e escrever. Ao tentar elucidar qual a razão para leis tão curiosas, ouviu que negros não tinham mais capacidade de ler e escrever que animais e doentes mentais. Diante dessa assertiva, só pôde perguntar o porquê de não haver leis proibindo que se ensinassem a ler e escrever animais e doentes mentais.

Essa é uma pergunta que talvez não tenha sido feita vezes suficientes nessa parte de nossa história que vem do século XVIII até agora (aliás, algo não tão recuado no tempo assim). Se o crítico nigeriano Abiola Irele definiu a relação que se instaurou entre o negro e o branco no Novo Mundo como uma de “simbiose e ambiguidade”, a ambiguidade, pelo menos, pode ser encontrada também no Velho Mundo. As teorias racistas que contaminaram o mundo ocidental nos séculos XIX e XX – e que, em nosso século, seguem mais gordas do que mereceriam, cortesia de teóricos como Lynns, Levin e cia. – tiveram suas origens no século XVIII, no “heyday” do racionalismo iluminista. A nova humanidade racional e iluminada precisava de seu contraponto primitivo e irracional, e o papel coube aos mesmos que, no Novo Mundo, eram escravizados, como bem nos lembra Chinua Achebe em um ensaio que já examinamos nesta coluna. A psicose, obviamente, é sempre jano-faceada, e essa relegação do negro ao papel de parte desiluminada da humanidade teve seu contraponto naquilo que o crítico negritudinista alemão Janheinz Jahn chamou de “experimentos estranhos” ocorridos no mesmo século das luzes. No século XVI, a Espanha já tivera o exemplo de Juan Latino (Juan de Sessa, 1518-1596), poeta, latinista e gramático, professor da Universidade de Granada, homem de origem africana de grande erudição e prestígio em seu tempo, casado com sua aluna, a nobre Ana Carleval, amigo de intelectuais e autor de volumes como De translatione corporum regalium e Ad Excellentissimum et Invictissimum D. D. Gonzalum Ferdinandez a Corduba. No entanto, os experimentos pedagógicos tiveram seu pico no século das luzes, no mundo anglo-germânico.

Tais experimentos diziam respeito a pessoas negras que, no século XVIII, receberam a melhor educação que a Europa poderia fornecer com o intuito de se descobrir se descendentes de africanos poderiam demonstrar excelência nas línguas e ideias de Catulo e Goethe. Dois exemplos notáveis vieram de Gana, ambos educados na Holanda. Um foi Jacobus Elisa Johannes Capitein (1717-1747); escravizado e vendido na Holanda, teve educação católica esmerada, nutrindo o plano de voltar para sua África natal como missionário. Ficou célebre por sua obra De servitude, libertati christianae non contraria, de 1742, onde defende a inexistência de conflito entre a escravidão e a liberdade cristã. Anton Willhelm Amo (1703-1759), também ganês levado para a Holanda, mas educado na Alemanha, não tinha a mesma simpatia pelos ideais escravistas que seu compatriota. Sua primeira obra, Dissertatio Inauguralis De Jure Maurorum in Europa (1729), defendia os direitos de negros (“mouros”) na Europa. Conhecedor de seis idiomas (incluídos o grego e o hebraico), instruído nos campos da metafísica, lógica, epistemologia, política, direito, astronomia, teologia, psicologia, medicina e outros, foi professor de filosofia e medicina nas universidades de Halle e Jena, onde suas ideias progressistas, influenciadas pelo médico e filósofo Christian Wolff (1679-1754) encontraram acolhida. Amo se opôs ao dualismo cartesiano em seu trabalho Disputatio philosophica continens ideam distinctam eorum quae competunt vel menti vel corpori nostro vivo et organico, adotando uma linha empirista. Sua principal obra talvez tenha sido Tractatus de arte sobrie et accurate philosophandi (Tratado sobre a arte de filosofar com sobriedade e precisão), que o coloca como um exemplo da racionalidade e precisão de mente da qual os negros viriam cada vez mais a ser a negação simbólica dentro do próprio pensamento que Amo cultivou. Assim como Capitein, terminou a vida em sua terra natal, adquirindo lá o estatuto de um adivinho. Curiosa é a observação do moderno filósofo ganês William Abraham, de que, em sua terra natal, Amo teria sido mau visto pelos moradores nativos, por suas antigas palestras em que atacava o que entendia como superstições, e pelos escravistas holandeses estacionados em Gana, que se sentiriam ameaçados por suas teses sobre os direitos dos africanos.

Poeta, romancista e crítico literário, Chinua Achebe nasceu na Nigéria em 1930

Autores de origem africana também existiram no mundo anglo-saxão. Até hoje é conhecida e estudada a prosa autobiográfica de Oulaudah Equiano (1745-1797) e Ottobah Cugoano (1757-1791) bem como os versos epifânicos da poeta Phillis Wheatley. Cugoano nasceu em uma família nobre de Gana, mas, vendido como escravizado aos 13 anos, chegou à Inglaterra em 1772, onde constituiu reputação como escritor, filósofo e abolicionista. Seu livro Thoughts and Sentiments on the Evil and Wicked Traffic of the Slavery and Commerce of the Human Species, publicado em 1787, une fatos autobiográficos e ideias abolicionistas e chegou a ser enviado ao filósofo político Edmund Burke; não se tem, no entanto, notícia de reação do estadista irlandês. Oulaudah Equiano, conhecido em vida como Gustavus Vassa, foi talvez o mais célebre dos três. De local de nascimento incerto, era de origem igbo; passou pelo Caribe e pelas Índias Ocidentais antes de adquirir a própria liberdade e se estabelecer na Inglaterra como abolicionista e escritor, autor de The Interesting Narrative of the Life of Olaudah Equiano, narrativa autobiográfica de grande sucesso que teve impacto na própria luta contra a escravização. Por fim, Phillis Wheatley, poeta de sensibilidade religiosa e metafísica, foi capturada na África do Oeste (o local exato é desconhecido) e levada a Boston, onde a família Wheatley a adquiriu e proporcionou educação clássica. Wheatley aprendeu grego e latim em sua infância e, na adolescência, já era influenciada pelas obras de clássicos ingleses como Pope e Milton. Os poemas de Wheatley, que a levaram a se tornar conhecida tanto nos Estados Unidos quanto na Inglaterra, são marcados pela experiência religiosa da autora, de natureza cristã, declarando-se salva de antigas crenças pagãs. No entanto, assim como outros escritores de origem africana, ela enfatiza a nobreza de alma dos negros africanos, nos quais reconhece a possibilidade de “graça angélica”.

Essas biografias podem trazer algum desconforto. Afinal, é bom lembrar Wole Soyinka quando disse que David Hume, reconhecido entusiasta da inferioridade intelectual negra, não poderia ignorar o poeta jamaicano Francis Williams, professor da Universidade de Cambridge. Diante das ideias racistas e eugenistas de algumas grandes mentes do Ocidente, o sono tranquilo de muitos tem sido embalado pela constatação de que os ilustres estavam simplesmente “reproduzindo as ideias de seu tempo” e de que “não tinham evidências da inteligência dos negros”. Pois bem, as evidências já estavam lá. Hora de acordar do sono tranquilo.

Adriano Moraes Migliavacca é tradutor, professor do IF Farroupilha e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul

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