O rei que tudo sabe e o adivinho cego: uma cena do ‘Édipo Rei’ de Sófocles

O rei que tudo sabe e o adivinho cego: uma cena do ‘Édipo Rei’ de Sófocles

O Estado da Arte publica trecho da nova tradução de "Édipo Rei", de Sófocles, publicada pela editora Hedra. O tradutor, Márcio Mauá Chaves, explica as escolhas para o texto em português.

Estado da Arte

03 Junho 2018 | 02h49

Montagem da tragédia de Édipo no Coliseu, em Roma, em 2015.

por Márcio Mauá Chaves Ferreira

A cena abaixo faz parte do primeiro episódio do Édipo Rei de Sófocles e representa o famoso diálogo entre Édipo e Tirésias. A peça inicia-se com uma peste assolando a cidade e, por causa disso, Édipo envia Creonte ao oráculo de Delfos para saber o que deve ser feito para que o flagelo se aplaque. Embora o oráculo responda que os assassinos de Laio devem ser mortos ou banidos da cidade, não diz quem eles são, e por isso Édipo convoca Tirésias. Antes de passarmos à leitura da cena, uma palavra sobre a tradução.     

É sempre bom ter em mente uma característica das tragédias gregas que até por volta do século XVIII era óbvia ao público teatral, mas que a partir de então foi se tornando cada vez menos evidente: tragédia é poesia. “Poesia dramática” é justamente uma expressão de que se valem alguns estudiosos para nomear o teatro grego, em que também se inclui a comédia. Isso não significa apenas que o texto de uma tragédia era composto em versos do início ao fim, mas que toda a linguagem contida nesses versos era poética, fazendo-se notar como tal por uma série de fatores: as expressões elevadas (que se afastavam da língua ordinária e dos textos em prosa da época), o emprego de termos encontrados na tradição poética anterior (principalmente nos poemas de Homero), a atenção para a sonoridade e posição das palavras e o uso das mais variadas figuras de linguagem. 

Contudo, a tradução do Édipo que elaborei foi, em sua maior parte, produzida em prosa (e a cena abaixo assim está). Ainda que, quanto a esse ponto específico, ela não se mantenha fiel ao texto original, isso se justifica por dois motivos: primeiro, porque o texto em prosa facilita o primeiro contato do leitor leigo com a obra, além de preservar muito bem seu conteúdo; segundo, porque os textos dramáticos escritos atualmente privilegiam a forma prosaica.

Outros passos da tradução, porém, como os cantos corais, são vertidos em versos e em tom mais elevado, buscando uma duplicidade de expressão encontrada, essa sim, no drama original. Como também é útil lembrar, os versos de que se compõem as tragédias não têm a mesma natureza, já que uma parte deles é recitada por personagens individuais em diálogos e monólogos, ao passo que outra é entoada pelo Coro (ou pelo Coro e um personagem individual) em cantos estróficos com marcas dialetais distintas. Assim, o que se lê em prosa na tradução que realizei são basicamente os chamados trímetros jâmbicos, versos de ritmo mais próximo ao da fala, e o que se lê em versos são os passos do texto compostos pelo que se costuma classificar de versos líricos ou mélicos. 

Cena da montagem de Sir Tyrone Guthrie (1957), “Oedipus Rex”: o diálogo entre Édipo e Tirésias.

ÉDIPO REI – Édipo e Tirésias (versos 300- 462) 

(TIRÉSIAS, conduzido por um menino, entra em cena.)

ÉDIPO

Tirésias, tu que tudo observas, o apreensível e o inefável, o que está no céu e o que pisa a terra: mesmo que não vejas, sabes contudo com que tipo de flagelo a cidade convive. Apenas em ti descobrimos quem dele nos proteja e salve, senhor. Se ainda não ouviste os mensageiros, Febo enviou a nós, que lhe enviáramos consulta, resposta segundo a qual a libertação desta enfermidade somente poderá vir se bem compreendermos quem foram os matadores de Laio, e os matarmos ou os expulsarmos da terra como exilados. Sem então nos recusar a mensagem dos pássaros, nem qualquer outro caminho da arte profética, se o tiveres, protege-te a ti mesmo e à cidade, protege a mim, protege-nos de toda mácula do morto. Estamos em tuas mãos. O mais belo trabalho de um homem é ajudar com o que quer que tenha e possa.

TIRÉSIAS

Ah! Como é terrível o saber quando não traz proveito a quem sabe! Embora tivesse pleno conhecimento disso, o perdi da lembrança; caso contrário, não teria vindo aqui. 

ÉDIPO

O que há? Como chegas desanimado!

TIRÉSIAS

Deixa-me ir para casa. Se me obedeceres, suportarás com toda facilidade o teu fardo; e eu, o meu. 

ÉDIPO

Ao nos privares deste anúncio, proferes palavras que não são justas nem amigáveis a esta cidade, que te nutriu.

TIRÉSIAS

Sim, pois vejo que teu discurso se encaminha para o que não te convém. A fim de que então eu não padeça o mesmo mal …

ÉDIPO

Pelos deuses! Se de fato sabes, não te desvies de nós, quando todos aqui nos prostramos em súplica a ti!

TIRÉSIAS

Porque vós todos não sabeis. Que eu jamais revele os meus males, para não dizer os teus.

ÉDIPO

Que dizes? Mesmo tendo esse conhecimento, não nos contarás? Pensas em nos trair e em destruir a cidade?

TIRÉSIAS

Não causarei dor a mim, nem a ti. Por que me questionas assim em vão? Não poderás obter essa informação de mim.

ÉDIPO

Ó mais perverso dos perversos, provocarias a ira até mesmo de uma pedra! Jamais falarás, mas assim inflexível e impraticável te mostrarás? 

TIRÉSIAS

Repreendeste a minha disposição, mas não observaste a que habita ao mesmo tempo contigo e me censuras.

ÉDIPO

Quem não se enraiveceria ao ouvir tais palavras, com que agora desonras esta cidade?

TIRÉSIAS

Os fatos virão por si mesmos, mesmo que eu os encubra com silêncio. 

ÉDIPO

Mas não és tu quem me deve dizer o que virá?

TIRÉSIAS

Não posso expor mais nada. Quanto a isso, enfurece-te, se quiseres, com a ira mais selvagem. 

ÉDIPO

Sim, tenho tanta ira que não deixarei passar nada do que compreendo! Fica sabendo que, para mim, de fato planejaste com alguém o feito e o fizeste, muito embora não o tenhas matado com as mãos. Se acaso enxergasses, eu diria que esse feito foi de tua única autoria.

TIRÉSIAS

Verdade? Recomendo, pois, que permaneças fiel ao próprio decreto que proferiste e que, a partir do dia de hoje, não te dirijas a estes homens, nem a mim, uma vez que és o sacrílego que traz a mácula a esta terra.   

ÉDIPO

Assim, despudoradamente, soltas essa declaração? Como pensas que hás de escapar disso?

TIRÉSIAS

Já escapei, pois nutro uma verdade que é forte.

ÉDIPO

Quem te informou disso? Decerto não foi tua arte.

TIRÉSIAS

Tu, pois tu me obrigaste a falar sem que eu quisesse.

ÉDIPO

A falar o quê? Fala de novo, para que eu entenda melhor. 

TIRÉSIAS

Testas-me com palavras? Não compreendeste antes? 

ÉDIPO

Não a ponto de dizer que isso está conhecido. Declara de novo!

TIRÉSIAS

Afirmo que és o assassino do homem cujo assassino estás buscando.

ÉDIPO

Não dirás impunemente essa calamidade duas vezes.

TIRÉSIAS

Devo então dizer uma outra, para que te enfureças ainda mais?

ÉDIPO

O quanto desejares, visto que isso será dito em vão.

TIRÉSIAS

Afirmo que sem perceber convives do modo mais ignominioso com os que te são mais caros e próximos, e não notas em que mal te encontras.

ÉDIPO

 Acaso pensas que dirás continuamente isso sem nenhum castigo?

TIRÉSIAS

Sim, se de fato a verdade tem algum poder. 

ÉDIPO

Mas tem, exceto para ti; tu não o tens, visto que és cego dos ouvidos, do intelecto e dos olhos. 

TIRÉSIAS

E tu és um infeliz, ao lançar-me injúrias que contra ti todos estes, sem exceção, logo lançarão. 

ÉDIPO

Tu te nutres apenas da noite, de modo que nunca poderias prejudicar nem a mim, nem a outro que vê a luz.

TIRÉSIAS

Não é teu destino haver de cair pelas minhas mãos: pois basta Apolo, a quem importa executar isso. 

ÉDIPO

Essas descobertas são de Creonte, ou de quem?

TIRÉSIAS

Creonte não é desgraça alguma para ti, mas tu mesmo. 

Édipo e a Esfinge, a “cadela que cantava rapsódias” em Tebas.

ÉDIPO

Ó opulência, realeza, e arte que supera a arte em vida muito cobiçada! Quanta inveja é guardada junto a vós se, por causa deste governo, que a cidade me pôs nas mãos como algo dado, não pedido, Creonte, o confiável, o amigo desde o princípio, rastejou até mim em segredo e deseja dele banir-me, depois de à socapa enviar tal feiticeiro urdidor de artifícios, um pedinte insidioso, cujos olhos estão fixos nos ganhos, mas é cego em sua arte.

Pois vai, diz, como tu podes ser um adivinho digno de fé? Por que não falaste a estes cidadãos algo que os libertasse, quando a cadela aqui cantava rapsódias? Por certo, interpretar o enigma não era tarefa do homem que viria a chegar, mas havia a necessidade de um oráculo, e em relação a isso te mostraste sem qualquer conhecimento advindo quer dos pássaros, quer de algum dos deuses. Mas eu, Édipo, o que nada sabe, vim e a fiz cessar, tendo encontrado a resposta por meio da inteligência, sem aprendê-la dos pássaros. Sim, eu, que tu tentas banir, por pensares que estarás ao lado do trono de Creonte. Penso, porém, que tu e aquele que tramou isso chorareis ao expulsardes a maldição, e, se não parecesses um velho, conhecerias, sofrendo, precisamente as mesmas traições que tens em mente.        

CORO

Tanto as palavras dele quanto as tuas, Édipo, parecem-nos, quando as comparamos, ditas com ira. Não precisamos disso, mas sim de investigar como resolveremos do melhor modo o oráculo do deus.

John Tomlinson como Tirésias em montagem britânica de 2016.

TIRÉSIAS

Mesmo que exerças o poder real, ao menos minha resposta em iguais termos deve ser igualada, pois também eu tenho esta força. Não vivo como teu escravo, mas como o de Lóxias, de sorte que não estarei inscrito sob a chefia de Creonte. Como me injuriaste com minha própria cegueira, digo que tu, mesmo tendo olhos, não vês o mal em que estás, nem onde habitas, nem com quem resides. Acaso sabes qual é tua origem? Não percebes que és odioso aos teus – tanto aos debaixo, quanto aos em cima da terra – e o duplo golpe da imprecação de teu pai e de tua mãe, imprecação de pés terríveis, te impelirá desta terra, tendo tu agora um olhar direito, mas, depois, obscuro. Qual não será o porto dos teus gritos? Que Citéron em breve não estará em consonância com eles, quando te tornares ciente das núpcias que fizeste navegar ao ancoradouro inseguro de tua casa, depois de te deparares com uma boa viagem? Não percebes a multidão dos outros males que te destruirão com teus filhos. Assim, suja Creonte de lama, suja também a minha boca, pois nenhum mortal jamais será mais desgraçadamente destroçado do que tu.      

ÉDIPO

Devo mesmo suportar ouvir isso dele? Que te arruínes! Não irás de novo embora, retirando-te depressa desta casa?

TIRÉSIAS

Se não tivesses chamado, eu não teria vindo.

ÉDIPO 

Eu não sabia de modo algum que irias dizer tolices, pois, do contrário, dificilmente te teria conduzido à minha casa.

TIRÉSIAS

Somos esses tolos, como parece a ti, mas, aos teus pais, que te geraram, éramos sensatos. 

ÉDIPO 

Que pais? Espera! Que mortal me gerou?

TIRÉSIAS

Este dia te gerará e destruirá.

ÉDIPO 

Quão enigmático e indistinto é tudo o que dizes!

TIRÉSIAS

Não és excelente em descobrir coisas assim?

ÉDIPO 

Insulta-me! Em tais insultos descobrirás minha grandeza. 

TIRÉSIAS

Foi justamente esse fato que te destruiu.

ÉDIPO 

Mas, se salvei a cidade, não me importo.

TIRÉSIAS

Partirei então, e tu, menino, me leva!

ÉDIPO 

Sim, que leve! Já que aqui presente tu és um tormento em meu caminho. Se te apressares, não poderás nos causar mais dor.

TIRÉSIAS

Partirei, depois de ter dito aquilo em razão do que vim, sem temer tua face, pois não é possível que me destruas. Digo-te: esse homem, que há muito investigas, fazendo ameaças e proclamações de busca sobre a morte de Laio, ele está aqui, um estrangeiro, um imigrante, pelo que se diz; mas a seguir se mostrará nascido em Tebas, e não se alegrará com essa circunstância. Como um cego depois de ter visto e um mendigo em lugar de homem rico, viajará para solo estrangeiro, apontando com o cetro a terra diante de si. Mostrar-se-á ele mesmo tanto irmão quanto pai dos filhos com quem convive; da mulher de quem nasceu, filho e esposo; e do pai, sócio do leito e assassino. Vai para dentro e pensa nisso. Se me surpreenderes mentindo, diz que eu já não sei nada com minha arte profética.  

         (Sai Tirésias. Édipo abandona o palco e vai para o palácio.)

Márcio Mauá Chaves Ferreira é mestre em Letras Clássicas pela USP e doutorando pela mesma universidade.  Sua tradução da peça Édipo Rei foi recentemente publicada pela Editora Hedra.