O que sustenta uma relação?

O que sustenta uma relação?

Algumas relações são aparentemente positivas – supõe-se que estão baseadas em amizade ou amor -, porém não são (para não dizer algo mais forte) e podem durar muito – o que faz o senso comum tomá-las por bem-sucedidas.

Estado da Arte

31 Julho 2017 | 17h55

Por Felipe Pimentel

A relação entre duas pessoas pode estar baseada nas razões mais distintas. A maioria delas são saudáveis, como, por exemplo, as amizades afetivas, intelectuais, que partilham gostos e desgostos, ou as amorosas, formadas por paixão e erotismo. Algumas relações não são positivas, mas não são necessariamente patológicas, como quando detestamos alguém – é um tipo de relação, mas ao avesso. Porém, algumas relações são aparentemente positivas – supõe-se que estão baseadas em amizade ou amor -, porém não são  (para não dizer algo mais forte) e podem durar muito – o que faz o senso comum tomá-las por bem-sucedidas. Não se trata daquelas realmente destrutivas, mas de um tipo específico que agora explico.

Algumas relações, de amizade ou amorosas, estão baseadas na alimentação que o sintoma de um faz do sintoma do outro. Digamos: uma determinada pessoa possui uma inclinação a sempre apontar o que não anda bem (segundo a terminologia freudiana, algo próximo ao sintoma histérico). Quer dizer, essa pessoa, involuntária e inconscientemente, possui desejos e os enuncia, e sempre que os atinge, afirma que não era exatamente aquilo. Seu estar no mundo é uma constante insatisfação, e das piores: o mundo não é necessariamente frustrante, uma impossibilidade de realização, mas quase satisfatório. Sempre que nos aproximamos da satisfação, não era bem isso. É muito provável que uma pessoa com determinada característica se vincule a um outro tipo de pessoa (segundo a terminologia freudiana, os obsessivos), cujo trabalho constante no mundo é mostrar que tudo está bem, isto é, que nós conseguimos lograr êxito, que conseguimos realizar nosso desejo, que as coisas estão no seu devido lugar, que nada está faltando, e que se algo falta estamos prestes a consegui-lo. É o vínculo perfeito: de um lado, alguém tenta satisfazer a todo custo o outro, mostrando que finalmente atingiram aquilo que o outro queria; do outro, a pessoa que havia apontado onde estava a realização afirma que ainda não está satisfeita, pois, ainda que tenham quase chegado lá, ainda não era exatamente aquilo. Do ponto de vista dos vínculos, este é o famoso círculo vicioso. A tendência desta relação perdurar por um bom tempo é grande, pois aquilo que a sustenta é a mútua alimentação do sintoma de cada uma das partes: um pede a realização, o outro a busca, quando se a atinge, não era exatamente aquilo – e recomeça todo o ciclo.

Também acontece entre aquelas pessoas de tendência a se autodepreciarem e recriminarem (alguns diriam que é um traço depressivo) e os que se julgam merecedores de admiração (os tais narcisistas), uma relação na qual um tanto mais cresce, quanto o outro mais se menospreza; também entre as pessoas com senso de perseguição (superficialmente paranoides, que anseiam desvendar a falta de confiabilidade alheia) e exatamente as inconfiáveis ou quaisquer outras que gostam de transgredir limites e confianças; as pessoas adesivas (ou dependentes) e as excessivamente autônomas, e assim por diante. Na realidade, nós temos todos esses traços, porém, em cada época, cada um está mais aguçado, tornando-se assim o protagonista das relações que travamos. Quer dizer, ainda que tenhamos traços mais fortes, estamos sujeitos a cair em qualquer uma destas armadilhas citadas. Mas alguém poderia perguntar: por que uma relação dessas seria uma armadilha? Pessoas assim ficam juntas por anos, afinal.

Em primeiro lugar, uma relação tal como as citadas só se sustenta por anos por que poucas coisas são tão fortes quanto nossos sintomas; e, em segundo lugar, por que, na realidade, não se trata de uma relação, mas de uma busca; o que a mantém é uma tentativa constante de resolver o enigma alheio, e como ele não se resolve a “relação” se mantém. E durante a busca a única coisa que não entra em cena é a realização.

 

Felipe Pimentel é historiador e psicanalista