O que a filosofia (ainda) pode nos dizer? – Parte II

O que a filosofia (ainda) pode nos dizer? – Parte II

Estado da Arte

08 Novembro 2016 | 14h00

Por Gabriel Ferreira da Silva

 

Após uma introdução cujo objetivo era situar o problema principal sobre um pano de fundo mais amplo, no artigo anterior eu indiquei aquilo que denominei “ponto nevrálgico” – que poderíamos chamar de metafilosófico –, subjacente a todos os meus textos neste Estado da Arte, a saber, se desde meados do século XIX paira uma suspeita sobre o papel da filosofia como intérprete do mundo, haveria então lugar para ela no debate público acerca da vida e dos problemas cotidianos? Se sim, qual? De que modo? Da mesma forma, naquela primeira parte eu apontara, a partir das pesquisas do sociólogo de Cambridge Patrick Baert, que toda uma série de modalidades de participação em tal debate por alguém treinado em filosofia havia se esgotado, esvaziado ou possivelmente se confundido com aquela do cientista social, político ou, vá lá, até com a forma de participação da celebridade palpiteira. Para quem acompanhou a linha de raciocínio daquele primeiro texto, a dissolução e o desaparecimento de toda e qualquer especificidade da contribuição filosófica para a grande conversação da vida pública não é fonte de nenhuma surpresa, uma vez que esse seria tão somente o epifenômeno superficial da perda total de validade da pretensão da filosofia em querer se constituir como um discurso sobre a realidade. Não pretendo ainda tratar da causa aqui, bastando por ora falar dos efeitos.

Sócrates conversa com amigos antes de ser condenado à morte por um tribunal popular ateniense (do filme de R. Rossellini)

Sócrates conversa com amigos antes de ser condenado à morte por um tribunal popular ateniense (do filme de R. Rossellini)

Neste momento, quem lê até aqui pode compreensivelmente estar pensando em por que diabos se incomodar com isso. Não seria essa uma preocupação rasteira cujo objetivo real, embora não declarado, seria uma mera tentativa de estabelecer uma reserva de mercado para determinados “profissionais” – dentre os quais, obviamente, se encontra o autor dos artigos? Pretendo que a resposta negativa à última questão fique evidente a partir das minhas considerações sobre a primeira que, caso sejam bem sucedidas, mostrarão por sua vez como é precisamente de uma atitude genuinamente filosófica que a discussão sobre os temas mais prementes da vida social – no Brasil e no mundo – está carente.

Para as respostas que eu aqui ensaio é preciso, em primeiro lugar, entender um quadro tão importante que chega a ser uma pena que o grande historiador britânico Christopher H. Dawson, no início de uma de suas Gifford Lectures (traduzidas e publicadas no Brasil sob o título Criação do ocidente – a religião e a civilização medieval, É Realizações), sintetize-o em tão poucas linhas. Com o despertar da famigerada opinião pública, que descobriu a si mesma como relevante – ao menos politicamente – e detentora de certo poder, tornou-se de certo modo fundamental que o espaço existente entre o grande público e o intelectual ou o cientista, caso pretendam se aventurar fora de seu habitat natural, não seja grande o suficiente a fim de que estes não fiquem completamente sem o apoio, a compreensão – e, eventualmente, até sem o dinheiro – daquele. Como também nota Dawson de maneira perspicaz, a crescente especialização dos saberes nos últimos séculos é uma ameaça grande a esse frágil equilíbrio. Afastando-me agora das consequências analisadas pelo historiador, é essencial notar que o panorama acima descrito é um excelente ambiente para o surgimento e a proliferação de uma espécie de participação no debate público que tem se convertido em um tipo padrão. Se o fosso entre a opinião pública e o intelectual não pode se alargar em demasia, a melhor forma de aproximar-se do “público”, essa entidade ideal ela própria forjada com o auxílio dos “bem-pensantes”, é encampar e assumir suas posições. Atente-se para o fato de que, ao me referir às posições da opinião pública, estou incluindo todos os espectros que a compõem, ainda que divergentes entre si, muito embora seja patente que defender a posição ou tratar dos temas que gozam de maior aceitação e prestígio é claramente um melhor negócio.

O problema que gostaria que o leitor visualizasse é que, a partir daí, participar do debate público é quase sinônimo de repisar temas da hora e tomar partido. Que não se pense que estou fazendo uma apologia da imparcialidade ou da isenção (essa mesma tornada hoje em quase um crime intelectual inafiançável). O embaraçoso nisso é que a principal função de um intelectual público é tornar-se agora uma espécie de contínuo, um office-boy encarregado do fornecimento, a este ou àquele lado, de um argumento um tanto mais lustroso, de uma referência erudita, de uma citação acachapante, ou seja, em uma palavra, de um verniz. Prova disso é que é virtualmente impossível puxar pela memória um dos partícipes atuais do debate que não termine por restringir sua contribuição àquele leva-e-traz. Uma vez mais, é importante deixar claro que o comprometimento e a adesão não são caminhos vedados; apenas não são os únicos e, talvez, nem os mais desejáveis a — agora eu especifico — um filósofo ou uma filósofa.

É, portanto, uma disfunção severa que alguém que veja a si mesmo como uma pessoa dedicada à vida intelectual se torne exclusivamente alguém a serviço, seja do partido, da causa ou do movimento (se aqui você lembrou dos casos de Sartre e Russell citados no texto anterior, muito bem; se lembrou de casos brasileiros, melhor ainda). Que, por fim, se transforme-se tão somente em um intelectual orgânico cuja dis-função reside em ser um mero porta-voz mais qualificado é a antítese da atividade filosófica. Ora bem, e se não for isso, então o quê? Ou, depois desse interlúdio, como responder àquela questão que já estava ao fim da primeira parte e reaparece aqui no começo do primeiro parágrafo? O que resta como contribuição genuinamente filosófica às discussões públicas?

O caminho de resposta que vejo como talvez o único possível passa por duas tarefas igualmente importantes e complementares. A primeira delas pode ser nomeada grosso modo a partir de um tópico famoso de uma obra póstuma do filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein (1889-1951), intitulada Investigações filosóficas (publicada em 1953). Disse grosso modo porque não pretendo aqui me comprometer com nada mais do que com o impulso geral de Wittgenstein. Ali, o filósofo propõe que a filosofia, ela mesma, seja compreendida em termos de uma atividade terapêutica. Com isso, longe de propor um divã filosófico, o que Wittgenstein tem em mente é que a filosofia deve fundamentalmente dedicar-se a “tratar” da linguagem, depurá-la e, com isso, elucidar e esclarecer falsos dilemas ou problemas, assim como iluminar as verdadeiras aporias. A primeira tarefa, a tarefa primordial da filosofia no debate público deveria ser, então, promover uma terapia do debate. Se já no século XIX o filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard (1813-1855) alertava que o tempo das distinções havia passado, tanto mais o lamentaria hoje. As questões candentes da discussão pública, que envolvem não apenas a dimensão política e social, mas de tudo aquilo que podemos chamar de mundo da vida, estão repletas de falsos dilemas, obscuridades, incertezas e imprecisões. Investigue entre os seus próximos e veja se há um mínimo de “clareza e distinção” sobre ideias básicas, fundamentais, sobre política, religião, moral ou ciência. Ou, ainda, se há ao menos a percepção de que refinar tais ideias seja algo a se perseguir para um debate minimamente mais qualificado. Não é preciso ser um gênio, então, para perceber que qualquer embate de ideias ou visões nessas condições só pode levar ao erro. No entanto, no Brasil mesmo há uma série de intelectuais historicamente identificados com este ou aquele espectro político (ou mesmo a partidos), esta ou aquela agenda, e que não apenas não agiram – e não agem – a fim de qualificar a discussão, como ajudaram sistematicamente a torná-la mais confusa e mais enviesada. Longe de pretender dar a última palavra sobre os assuntos, o que deveria consistir numa tarefa sempre presente no horizonte filosófico é o da clarificação, da distinção, da análise desapaixonada e da explicitação dos problemas e das soluções que geralmente não são vistos (ou são obstinada e deliberadamente ocultados).

Como uma consequência quase óbvia daquela ação terapêutica sobre o debate, a segunda incumbência consiste justamente em abrir novos campos, confrontar outros aspectos, temas, problemas, dificuldades e dimensões da experiência humana no mundo, seja ela individual, em primeira pessoa, seja em sociedade. Uma compreensão minimamente bem formada sobre o ser humano percebe claramente que se de fato determinadas coisas são primordiais na ordem do tempo, são condições para outras, disso não se segue que elas sejam as mais importantes ou primeiras de direito. Se é verdade que alimentar-se é condição de possibilidade para as outras atividades da vida, dificilmente alguém assinalaria a digestão como a coisa mais importante da sua existência. Ora, ninguém nega que a política, a economia, a taxa de juros ou as eleições são, de fato, fundamentais para a vida tal como hoje a concebemos. Mas elas dizem respeito a apenas uma fração da nossa experiência que, dificilmente, colocaríamos como a principal. Ora, uma das principais dimensões da clarificação das questões e da remoção de obscuridades é o reordenamento das posições, conceitos e ideias segundo um senso de proporção e de hierarquia que, ele mesmo, deve ser analisado, debatido, qualificado. Todavia, alargar o domínio das possibilidades, dos problemas e, inclusive, das soluções que contemplem outras camadas da existência humana para além daquilo que se nos apresenta de fato, como a da moral, da fruição estética, dos sentimentos, do fundamento, da racionalidade, da justificação e, principalmente, do sentido de todas elas tomadas em conjunto, não é tarefa da política, do entretenimento, da economia e nem mesmo das ciências específicas, mas há vinte e cinco séculos vem sendo, com idas e vindas, múnus daquilo que convencionou-se chamar de filosofia. Fazer tal tipo de contribuição para o debate, para além do mero posicionamento com mais ou menos refinamento ou erudição, já seria um mundo. Como escreveu o próprio Wittgenstein na obra referida acima, “mostrar à mosca o caminho de saída da garrafa”. E sem o propósito de fazê-lo tão somente para trasladá-la a outra.

 

Gabriel Ferreira é professor de filosofia na Universidade do Vale do Rio dos Sinos.