O PT e o cangaço

O PT e o cangaço

Estado da Arte

02 de novembro de 2016 | 08h00

por Astier Basílio

Um escudo ético

Semana passada, Lula completou 71 anos. Na tribuna de um plenário vazio do Senado Federal, a efeméride foi lembrada pela companheira não só de partido, mas de encrencas na justiça também, Gleisi Hoffmann, ambos réus na Lava Jato.

Lula, o reizinho nú do cangaço do Planalto Central (*publicada na Rede Brasil Atual)

Lula, o reizinho nu do cangaço do Planalto Central (*foto: Rede Brasil Atual)

A certa altura do discurso, Gleisi leu um artigo do biógrafo Fernando Moraes eivado de pieguice e sentimentalismo. Foi uma espécie de prelúdio louvaminheiro. Ao fim da leitura, Gleisi deu um giro na retórica e redimensiou sua fala no vocativo e começou a chamar o aniversariante de “senhor” e a cantar-lhe loas: “O senhor que tanto fez pelo povo brasileiro, tanto fez pelo povo pobre, que tanto melhorou a vida do povo, está recebendo um tratamento como esse; tá recebendo um tratamento moralista, que na realidade não é pra procurar saber se o senhor cometeu erros, não é pra lhe julgar, é pra lhe condenar…”.

Quem diz que Lula está condenado já o absolveu.

Mas em que se fiou a defesa da senadora pelo Paraná, que de tão repisada nos mesmos argumentos mais parece um catálogo de diretrizes e palavras de ordem definidas pelo diretório? Disse algo que contribuísse para elucidar questões referentes às acusações? Tratou, do ponto de vista jurídico, de inconsistências nas denúncias apresentadas? Refutou depoimentos de delatores?

Nada disso.

Brandiu-se, o que se encena sempre que o PT enfrenta alguma acusação de corrupção,  uma espécie de escudo de honra que pode ser sintetizado assim: para realizar políticas de distribuição de renda atendendo aos pobres, que sempre foram esquecidos pelo estado brasileiro, o Partido dos Trabalhadores reivindica, perante a sociedade, o direito de transgredir a lei.

Era como se o roubo fosse justificado se, e tão somente se, cometido em nome da causa, em nome do ideal de um projeto virtuoso, que visa melhorar a vida dos mais necessitados e construir um mundo melhor.

É o que disse a própria Gleisi Hoffmann, no longínquo ano de 2011.  Na ocasião, pilhado com revelações sobre aumento patrimonial, o então ministro da Casa Civil, Antonio Palocci começava a ser fritado dentro do próprio partido. Quem disparou o tiro certeiro foi a senadora. Tão certeiro que foi a própria Gleisi quem ocupou o lugar quando defenestrou-se o “Italiano”, codinome com o qual Palocci era na surdina referido, em negócios não muito republicanos, conforme investigação da Polícia Federal, com base nos anexos da delação da Odebrecht.

Em matéria de Cátia Seabra, publicada em 1 de julho de 2011 na Folha de São Paulo, narra-se que a senadora participou de um almoço com o ex-presidente Lula, durante o qual exigiu a cabeça do colega. “Gleisi, segundo participantes, disse que os mensaleiros cometeram erros graves em nome de um projeto coletivo. E que esse não era o caso de Palocci”.

Quem manifestou pensamento idêntico a esse foi o jornalista esportivo Juca Kfouri. Para o ex-integrante de grupo de guerrilha armada, Ação Libertadora Nacional (ALN), e contumaz defensor do PT,  só é mesmo condenável a corrupção em benefício próprio. A rapina em nome da causa é merecedora de um degrau de distinção.

Ano passado, Kfouri publicou um texto na Folha de São Paulo. “Por que gente milionária quer sempre mais e mais dinheiro?” Começa com uma velada crítica ao capitalismo, depois enumera alguns políticos cuja “ganância levou à desgraça”. Cita vários. Eduardo Azeredo, Collor, Maluf e José Dirceu, o único que merece suas lágrimas.  A decepção se dá porque ficou provado que o ex-colega de guerrilha operava para si próprio e não em nome dos companheiros.

Para finalizar o artigo, Kfouri relata o encontro que teve com Nabi Abi Chedid. “Homem de direita” com que se encontrara no aeroporto de Congonhas, logo depois do “mensalão”.  “Não te disse que no poder todos ficam iguais”. Reproduzo a resposta de Kfouri: “Pego de surpresa, reagi ingenuamente: ‘Não se justifica, mas pelo menos não é para enriquecimento pessoal’.”

O rei do cangaço

Lula nasceu em 1945. No interior de Pernambuco. Naquele mesmo estado, apenas 7 anos antes, era morto e decapitado, Virgulino Ferreira, o Lampião. Por várias décadas, o cangaceirismo expôs as vísceras do abandono de uma região que crescera à margem do Estado, cujo braço elementar e fundamental, a Justiça, não era capaz de alcançar as demandas existentes, fazendo com que, naqueles ermos sem lei, nem rei, prevalecesse a vingança e a justiça privada.

Sertão, diz-se, advém, etimologicamente, de “desertão”, aumentativo de deserto.  Verdade ou não, este ambiente, ao contrário do litoral, fundou-se à margem da presença do Estado. Foi por esta razão que a sociedade, daquele lugar afastado, admitiu que alguém, desfeitado em seu direito de justiça, vítima de uma ação criminosa, pudesse agir à margem da lei até que empreendesse seu acerto de contas. Era como se a sociedade conferisse um escudo ético a quem seguisse em sua jornada de vingança.

Esta tese não é minha, mas de Frederico Pernambucano de Mello, autor do clássico “Guerreiros do Sol” (1985). O cangaceiro, antes de cair na vida de crimes, elaborava sua narrativa. Era alguém desassistido cujo pai fora assassinado, cuja família fora massacrada, cuja propriedade fora tomada. Era, em suma, alguém que não tinha como levar sua demanda a um juízo constituído pelo estado, àquela altura ausente ou viciado, tendo, portanto, que agir por suas próprias mãos.

Porém, o cangaço era um negócio, um meio de vida. E Lampião, para continuar com o seu escudo intacto, e manter-se na vida de crimes, recusou-se a matar o algoz de seu pai ou não se empenhou para isto. Continuo me acostando ao que diz Pernambucano de Mello. Ver o cangaceiro como representação do oprimido é um exotismo da leitura marxista acadêmica. Não havia qualquer confrontação entre o bandido de chapéu adornado e os donos do poder local, os coronéis, que lhe davam coito e que serviam inclusive de banco, guardando o produto de seus roubos. Ao contrário de haverem-se em luta de classes, sentavam-se na mesa juntos e pactuavam.

O Planalto Central como terra de ninguém

Ao verificarmos que mais de 200 parlamentares estão com implicações na Lava Jato, entre os quais figuras de outros partidos como José Serra, do PSDB, Renan Calheiros, do PMDB, e tantos outros,  vemos que é possível fazer um paralelo com o sertão devastado pelo banditismo nas primeiras décadas do século passado e os arredores do Planalto Central, cujas mãos ficam atadas pelas bridas do foro privilegiado, no qual corruptos galopam impunes.

Num estado, como o brasileiro, em que a corrupção campeia, em que o braço da justiça não consegue alcançar os políticos, em que todos roubam, ter um discurso a favor dos pobres serviu por um tempo como uma espécie de escudo de honra do PT.

Antes de estar no poder, vendeu-se como diferente de todos. Bateu nesta tecla por 20 anos. Pego com as calças curtas fazendo os mesmos crimes que condenara, passou a reivindicar o direito de ser igual aos outros, de quem sempre se considerou superior.

No lugar de enfrentar seus erros e de encarar seus problemas fazendo uma autocrítica, o PT enveredou e envereda ainda pelo truque retórico de transformar as supostas virtudes de seu governo nos únicos “crimes” pelos quais estão dispostos a responder: pobre viajando de avião, negro em universidade, empregada comprando o mesmo perfume da patroa. Eis o único debate que interessa ao Partido.  Conversar dentro dos limites da encenação desta farsa em que os papéis, de vilão e mocinho, já estão dispostos.

Tiveram efeito devastador no latão que dava substância ao escudo desta narrativa os reiterados escândalos que decapitaram toda elite do partido, que está na Papuda ou em vias de para lá ser mandada, a fragorosa derrocada econômica que produziu 12 milhões de desempregados e realizou um efeito sanfona na ascensão social dos que migraram de classe, mas decaíram.

Que o diga o resultado do segundo turno das eleições municipais. Esse escudo de honra petista virou apenas uma tatuagem no peito do que sobrou da militância.

Astier Basílio é jornalista, poeta, ficcionista e dramaturgo. Venceu o Prêmio Funarte de Dramaturgia 2014