O ocaso de um rei

O ocaso de um rei

Estado da Arte

29 Abril 2017 | 00h53

Por Laura Ferrazza

Era outono em Paris, e eu procurava explorar algumas regiões menos turísticas da cidade, pois já estava morando lá há alguns meses. Desci ao acaso do metrô na estação Strasbourg – Saint-Denis, na borda do décimo arrondissement. Ao caminhar pelo bulevar Saint-Martin, percebi tratar-se de uma área um tanto degradada da cidade. No meio de uma paisagem triste, eis que surgiram dois grandes e belos arcos triunfais, cercados por algumas prostitutas e vendedores de substâncias ilícitas, que pareciam utilizar o espaço como local de trabalho. Pelo chão, havia muita sujeira, o que atraía uma considerável quantidade de pombas. Algumas pichações procuravam, com denodo, mas sem sucesso, apagar a beleza das estruturas. Mesmo diante desse cenário de abandono, os arcos mantinham seu ar imponente, chamavam a atenção por seus relevos, por seu significado, por lembrar aquele que os mandou construir.

O destino desses arcos se confunde com o de seu idealizador. Assim como eles, a memória nacional que cerca a figura de Luís XIV oscila entre valorização e esquecimento. Isso se deve em grande parte à Revolução Francesa, que, ainda hoje, lança uma sombra de opróbio sobre qualquer crédito abertamente conferido ao maior dos reis absolutos. Por outro lado, de forma enviesada, seu legado mantém o fascínio. Poucos são aqueles que, na história, puderam afirmar seu poder de maneira tão veemente e ser objeto de tamanhas controvérsias. Não por acaso, o Rei Sol tornou-se um dos monarcas mais conhecidos de todos os tempos e todos os lugares. Sua influência foi tamanha que o seu século, o XVII, veio a ser conhecido como o Grande Século francês. Mas a recepção de sua figura é oscilante, especialmente entre os conterrâneos. Com algumas exceções, como sua obra mais famosa, o Palácio de Versalhes, a maior parte de seus grandes monumentos jazem mergulhados num eclipse parcial. Mas os vislumbres de luz que escapam desse legado ainda não perderam o esprit.

Ao perambular pela Paris de seu tempo, descobri a região dos Grands Boulevards; sim, foi Luís XIV quem fundou a tradição, tão parisienses, dos grandes bulevares. Na década de 1660, após expandir o território francês por suas guerras de conquista, Luís XIV reformulou uma região que ficava na orla da capital, mas que acabou tornando-se cheia de vida e movimento. Era uma área localizada na margem direita do rio Sena, onde ficavam fortificações da época de Carlos V e Luís XIII, as quais, com a segurança trazida por suas conquistas políticas e territoriais, tornaram-se desnecessárias. No lugar dessas muralhas em mau estado, o rei e seu arquiteto, Pierre Bullet, criaram os primeiros bulevares de Paris: Boulevard Saint-Martin, Saint-Denis, Beaumarches, Filles-du-Calvaire, du Temple, des Italiens, entre outros desse entorno. Tratavam-se de vias amplas adornadas por fileiras de árvores, permitindo a circulação de pedestres e carruagens.

A cereja do bolo arquitetônico foi a construção de dois arcos triunfais, aqueles nos quais tropecei por acaso; eram monumentos em honra a suas conquistas, conhecidos como Porte Saint-Denis e Porte Saint-Martin. Inaugurados em 1672 e 1674, respectivamente, exaltavam as vitórias de Luís XIV na região do Reno e do Franco-Condado. Ele via a si mesmo como herdeiro dos grandes imperadores romanos e assim inscreveu sua própria imagens nesses monumentos. No alto da Porte Saint-Denis ? que, aliás, é inspirada no arco triunfal de Tito em Roma ?, lê-se a inscrição em latim “Ludovico Magno”, ou seja, “Luís, o grande”. A região sobreviveu com certa relevância até o final do século XIX, mas acabou eclipsada com a construção dos novos bulevares da Belle Époque e suas grandes lojas de departamento.

La Porte et la Rue du Faubourg-Saint-Denis

Lembrar os grandes feitos de Luís XIV é tarefa fácil, porque abundam. Tão ávido estava pelo poder que deu um golpe de maioridade em sua própria mãe; ao longo de seu reinado, costumava adentrar nos salões de baile com sua fantasia de Sol, astro ao qual sempre associou sua imagem e que lhe rendeu o famoso apelido. Antes de Luís XIV, e talvez mesmo depois dele, poucos foram capazes de construir uma imagem pessoal tão potente e duradoura. Ele não afirmou seu poder apenas através da força bélica: investiu e acreditou na construção de uma marca e no poder das imagens. Colocou todas as artes ao seu serviço, para exaltá-lo: a pintura, a escultura, a ourivesaria, a moda. Todas essas atividades, no Grande Século do Rei Sol, gravitavam ao seu redor.

Manter um reinado por mais de setenta anos requer pulso firme, visão e, no seu caso, uma boa dose de megalomania; a grande esperteza de Luís, contudo, foi a forma como usou a beleza da arte e o encanto das aparências para subjugar e dominar todos ao seu redor. Sua maior demonstração de poder e egocentrismo foi a construção do Palácio de Versalhes, obra faraônica e sem igual, que se tornou um marco na arquitetura. Essa obra, sim, muito bem preservada e um dos pontos turísticos que mais recebe visitantes na Europa. No palácio, assim como em seu governo, tudo está centrado na figura do monarca. Seu rosto está até mesmo no caixilho que cerra as janelas.

Mas o esforço de manter seu próprio personagem vivo e sublime, por um tempo tão longo, acabaria cobrando seu preço. Para não enfraquecer sua imagem, o rei soube dissimular longamente as marcas do tempo. Na guerra das aparências, sua principal arma foi a moda. Se, no início de seu reinado, ele exibia uma longa e vistosa juba de cabelos próprios, haveria de lançar, aos primeiros sinais de calvície, a moda das perucas de cabelos naturais. Em seu retrato mais famoso, realizado por Hyacinthe Rigaud em 1701, Luís XIV estava com 63 anos. A postura imponente e o rosto pouco enrugado se devem certamente à lisonja do pintor e à exigência do rei. Ali também vemos os sapatos de saltos vermelhos, outra criação de Luís. Só podiam ser usados por ele e por um número restrito de nobres da corte. Os sapatos exclusivos ajudavam a manter sua postura e o faziam parecer mais alto, assim como a peruca, que se eleva no topo da cabeça. Mas seu suntuoso traje, composto pelo “manto sagrado” dos reis franceses, dissimula um corpo já cansado.

“Retrato de Luis XIV”, Hyacinthe Rigaud (1701), em exposição no Museu do Louvre

Apesar da pompa que ainda o cercava, a verdade é o rei se tornara uma figura datada na virada do século XVII para o século XVIII. Era um homem que sintetizava o século anterior, uma gloriosa criatura da era passada. Instalada por ele em Versalhes em 1682, a corte vivera duas décadas sobre um rígido protocolo. No campo da arte, após um longo período de domínio do pintor Charles Le Brun, os últimos vinte anos do reinado de Luís XIV foram marcados pelo ecletismo, pela heterogeneidade e pela experimentação.

No campo das ideias, por volta de 1680, surgiu a chamada “crise do espírito europeu”, que se estenderia por todo o século XVIII. A crítica ao classicismo ganhou espaço, preparando o terreno para o fim da arte palaciana. A chamada “Querela entre os Antigos e os Modernos” marcou o início dos conflitos entre a tradição e o progresso, o classicismo e o modernismo, o racionalismo e o emocionalismo. O grande duelo teria iniciado em 1687, com Charles Perrault. A transição entre o final do século XVII e o início do século XVIII foi caracterizada por uma profunda mudança de mentalidade. De um lado, existia uma tendência mais conservadora e um tanto reacionária e, de outro, um grupo moderno que defendia a ideia de progresso.

Assim, a figura de Luís XIV representava a tradição e o passado, mesmo que seu poder de fato não tenha perecido. A idolatria a sua figura não era a mesma dos primeiros cinquenta anos de reinado. Até mesmo novos espaços fora de Versalhes eram procurados pela nobreza; alguns voltavam para Paris, outros construíam seus próprios refúgios no campo.

Um filme recente (2016) do diretor Albert Serra, em coprodução entre França, Espanha e Portugal, mostra com uma sensibilidade rara os momentos finais do grande rei. Em “A morte de Luís XIV”, o personagem histórico ganha ares demasiado humanos. Mostra que, na doença e na morte, Luís XIV possui algo em comum com qualquer mortal. Por outro lado, revela a frustração do homem mais poderoso da Europa ao ver-se preso ao leito, impedido de cumprir o que acreditavam serem seus deveres sagrados. Alguns dos protocolos reais, criados por ele mesmo, parecem ridículos aos olhos do espectador, além de serem talvez um tanto incômodos naquele momento de sua vida ? como a obrigatoriedade de realizar suas refeições em público. No fim, contudo, o espetáculo de sua agonia e de sua morte contou com uma plateia reduzida de médicos e criados fiéis.

O apagamento do Rei Sol fez florescer uma nova sociedade, com novos desejos, mas tudo isso só veio ao mundo graças, em parte, aos feitos do grande monarca. Seja para contrapor-se aos seus desígnios ou para exaltá-lo, muito foi mobilizado. E sua memória vive, para ser objeto de admiração ou crítica: no fundo, contudo, de forma nem sempre evidente, ele ainda se impõe. Em meio ao caos da cidade contemporânea, e mesmo nos arrabaldes do abandono, seu desejo de grandeza não pôde ser completamente apagado.

Laura Ferrazza é doutora em História e pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)