O longa ‘O Formidável’ e o impasse de Jean-Luc Godard

O longa ‘O Formidável’ e o impasse de Jean-Luc Godard

O crítico Willian Silveira analisa o longa 'O Formidável', sobre a vida do cineasta franco-suíço Jean-Luc Godard. Mesmo com a presença de Louis Garrel e com a direção do oscarizado Michel Hazanavicius, o filme decepciona.

Estado da Arte

04 de novembro de 2017 | 12h30

Por Willian Silveira

É de chamar atenção que um lançamento sobre Jean-Luc Godard seja recebido com indiferença nos cinemas. Parece que mesmo a estratégia de combinar a direção do oscarizado Michel Hazanavicius (O Artista, 2011) ao protagonismo de Louis Garrel não foi suficiente. Quando esteve em São Paulo para a estreia como diretor no pouco memorável Dois Amigos (2015), o ator passou boa parte da manhã no Reserva Cultural respondendo sobre o que viria a ser este O Formidável. Na ocasião, a falta de inspiração da comédia envolvendo um triângulo amoroso – a mais relevante obsessão francesa desde o socialismo –  ajudou a direcionar o interesse da imprensa para o papel de um dos ícones do cinema. A expectativa existia. Hoje, a recepção fria é uma resposta à caricatura que não desperta no espectador qualquer sentimento digno do personagem principal – seja admiração ou repulsa.

Aos 40 anos, você precisa de uma causa. Godard tinha 37 anos quando vislumbrou, movido pelo pessimismo dos gênios, a urgência do que se impunha. Era preciso algo novo, um cão, uma religião – verdadeira ou travestida de hábito alimentar, como hoje; qualquer coisa para substituir a juventude, esta razão em si mesma. No caso, o realizador de Acossado (1960) preferiu a política. Inspirado na autobiografia de Anne Wiazemsky, atriz e esposa de Godard por 12 anos, O Formidável nos apresenta um homem em crise, tomado pela contingência dos anos 60 e decepcionado com a imagem que ajudou a criar.

Os ares da revolução de maio de 68 se faziam sentir em Paris quando a experiência política de Godard colide com a sua representação social. Como de pronto, o clássico burguês, filho de família franco-suíça, herdeiro do banco Paribas, percebe que a forma do seu cinema não corrobora a sua vontade – a promoção da revolução. Na tentativa de alinhar os anseios ideológicos ao seu métier, o diretor finge ignorar uma juventude que lhe escapa pelos dedos a fim de se envolver nas reuniões do partido comunista, no movimento estudantil, e no cotidiano dos sindicatos. Jean-Luc faz todos os esforços possíveis para se converter em um insurgente, estereótipo exótico e fundamental aos olhos de um rebento da confortável Rive Gauche parisiense.

Tendo o cinema como única arma, Godard sente que não há mais espaço para frivolidades. A nouvelle vague que ajudou a construir precisa substituir as encaradas de Jean-Paul Belmond à câmera e a sensualidade descompromissada de Jean Seberg por um conteúdo que exprima um vocabulário efetivo, que faça sentido no aqui e atue no agora. Nas ruas, em meio a gritos de ordem contra de Gaulle, barricadas e protestos sindicais, manifestantes deixam o pretexto uníssono para se declararem admiradores da renovação estética perpetrada pelos primeiros filmes do diretor. Como tentações no desertos, simpatizantes triviais e acadêmicos de uma Sorbonne caricata exigem o retorno a um cinema de ação estilizada e moralidade ambígua, como em O Desprezo e o Demônio das Onze Horas, filmes que Godard renega em nome de uma convicção superior. Ali, lado a lado na luta, Godard percebe o quão distante está daqueles que admira – mesmo quando próximo. Isolado, incompreendido e frustrado, ele sabe que jamais será uma revolucionário, pois a revolução passa, ironicamente, por aniquilar a si próprio e aquilo que representa.

Em uma cena exemplar, o personagem de Garrel toma a palavra em meio à reunião do partido comunista. Anunciado seu nome, os presentes irrompem em palmas e urros, como a saudar a presença de um Eisenstein de óculos e refinado. No entanto, a verborragia desarticulada do discurso de Godard transparece um traço imperdoável: o de quem faz a revolução por oportunidade, não por necessidade. O pecado terá como pena a resposta humilhante, proferida por um camarada do outro lado do ginásio. Na sequência de duras verdades que se segue, a revolução se apresenta de maneira transparente, como um evento tomado por potência e sem qualquer caráter. Constatação que faz com que o protagonista deixe o coração do partido desiludido com os companheiros e ainda mais decepcionado consigo.

Movido por um Vietnã interior, como gostava de salientar, Godard lançaria A Chinesa em 1967. Rechaçado pela esquerda e pela direita, será durante as filmagens dessa plataforma de exercício maoísta que o diretor conhecerá Anne, então com 19 anos. A jovem atriz, companheira durante os anos mais difíceis da carreira de Godard, será a responsável pelas pontuais passagens de real valor presentes em O Formidável, retiradas quase literalmente do livro. O pastiche ao qual somos entregues durante boa parte da projeção é de responsabilidade de Hazanavicius.

Sinal de uma época apática, ou do cansaço provocado pelos últimos trabalhos do realizador de Adeus à Linguagem (2014), a verdade é que um filme como O Formidável, independente das suas limitações, não poderia passar como banalidade. O simples propósito do longa deveria provocar a ida ao cinema – mesmo que duvidemos se alguém ainda vai ao cinema.

Willian Silveira é editor da revista Sétima e membro da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (ABRACCINE).

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