O humano desafeiçoado

O humano desafeiçoado

Ter consciência de que a violência é um dado inevitável da história humana é estar atento para o fato de que ela sempre encontra novos caminhos para se manifestar e que seus agentes podem ser nós mesmos.

Estado da Arte

29 de julho de 2018 | 16h00

por Rodrigo Coppe Caldeira

The truth does not change according
To our ability to stomach it.
Flannery O’Connor [1]

Em setembro de 1932, Sigmund Freud respondeu a uma carta de Albert Einstein que o questionava sobre as possibilidades da humanidade se livrar da ameaça da guerra. Einstein estava particularmente preocupado com a organização das emoções das massas tornando-as instrumento de uma minoria e de suas pretensões políticas. Freud responde de maneira igualmente preocupada, especialmente pelo grau de letalidade que os instrumentos de guerra adquiriam. Mas não se admira pelo fato de que os conflitos de interesses entre os grupos humanos sejam resolvidos pelo uso da violência. Sua teoria das pulsões já havia avançado a hipótese.

Falar publicamente que há uma propensão no ser-humano à violência, principalmente quando congregado em grupos sociais, é assumir alguns riscos nesse ambiente de debate público marcado muitas vezes por uma superficialidade esterilizante. Um deles é o de ser acusado de “naturalizar a violência”. Claro que na altura em que estamos da civilização, sabe-se que já nos decidimos pela “violência da comunidade” no lugar da violência individual, pela violência do Estado sobre aquela perpetrada por indivíduos ou grupos. Abrimos mão de cometer atos violentos em prol de um bem maior. Isso, em tese, é óbvio. É sabido que massacres e genocídios se fizeram e fazem presentes por todo o planeta. O Estado mesmo se incumbiu de perpetrá-los em escala industrial, como a experiência nazista desgraçadamente nos ensinou.

Afirmar que a violência é um dado inevitável da história humana, marcando-nos desde nossas origens mais remotas, não é se esquivar das responsabilidades com nosso destino comum, muito menos deixar de levantar a voz para acusá-la, principalmente quando toca os mais vulneráveis. Ter consciência dessa constante humana é estar atento para o fato de que ela sempre encontra novos caminhos para se manifestar. E que seus agentes podem ser nós mesmos. Sim, leitor, sair da menoridade mental, ou mesmo espiritual, é compreender que o mal também acha veículo em nós. Nada mais primário do que acreditar que se tem a visão correta, o entendimento correto, a solução correta; que sou “do bem”, enquanto aqueles que não partilham dos meus valores e crenças são “do mal”.

No entanto, é preciso lembrar que esse tipo de estrutura, do “nós” e “eles”, não é nenhuma novidade. Ela faz parte do longo percurso humano e está relacionada à constante do tribalismo, um de nossos traços fundamentais. É ali, nos grupos, que se extrai alguma segurança, sentido de pertencimento, identidade. Em suma, benesses climatizadoras num mundo descompassado e imprevisível. A história da humanidade nos ensina que é nos grupos que contamos com apoio mútuo, divisão de trabalho e, fundamentalmente, colaboração a fim de atingir metas compartilhadas. Regularidades que encontramos em nossa ancestralidade das hordas africanas primevas e que chegaram até o homem moderno. Somos “buscadores de grupos compulsivos”, afirma Edward O. Wilson em seu A conquista social da terra. Para o biólogo, “em cada um de nossos grupos encontramos competição por status, mas também confiança e virtude, os produtos inconfundíveis da seleção de grupo. Nós nos preocupamos.” (p. 296).

É nos grupos, primeiro na família, depois na igreja, time de futebol e partido político, que nos identificamos e compartilhamos noções e formas de vida. É neles que encontramos os elementos que nos perfazem, uma janela moral, portanto o que pode ou não ser aceito. Somos em grande medida frutos do regaço cultural por onde chegamos ao mundo. E a partir daí olhamos para ele. E o julgamos. Etnocêntricos não são apenas os outros. Além do mais, o grupo é o esteio em que encontramos a conformação e a confirmação daquilo em que acreditamos. Como somos dados à tendência de buscar e interpretar novas evidências que confirmem aquilo no qual já acreditamos e péssimos em buscar aquelas que o desafiem, nada melhor do que estar entre amigos. É chamado viés de confirmação. Ele está geralmente relacionado às intuições, principalmente quando interesses pessoais e reputação estão em jogo. Nosso design evolutivo nos leva a buscar justificativas em vez de verdades. E por isso, como ensina Jonathan Haidt em seu The righteous mind. Why good people are divided by politics and religion, é tão importante criarmos condições para que pessoas de diferentes crenças e perspectivas se encontrem e possam usar argumentos que não confirmem as reivindicações e pretensões uns dos outros, colocando-se em um confronto aberto, real, honesto e respeitoso, e nesse encontro civilizadamente conflituoso possam se perceber pertencentes a um destino comum, pensando e refletindo em conjunto, mesmo que por caminhos discrepantes. Algo muito diferente do que vem acontecendo corriqueiramente na contemporaneidade, ampliado pelas redes sociais, com suas guerrilhas política-culturais e seus militantes cheios de verdades inquestionáveis que saem despudoramente lançando anátemas contra os desviantes. O sectarismo da monovalência fez escola.

A questão de fundo que se coloca é sobre essa negação do humano. E isso acontece, particularmente, quando enxergo todo o mal no outro, sem me dar a chance de descobrir, e assumir, que ele também é ferido por mim. Odiamos, amamos e invejamos sempre uma fantasia. Parece que a incapacidade de assumir as ambivalências e desconcertos humanos, essa falha arcaica, o perigo que nos ronda constantemente – as motivações contraditórias do amor e do ódio, do egoísmo e do altruísmo – nos assola por dentro. Quem pode negar que o melhor de nós está ali, ao lado do que há de pior? Sem o reconhecimento mínimo de tal ambivalência sempre seremos alvos fáceis de nós mesmos, escorregando ligeiramente para lutas fratricidas que no final das contas têm como objeto absolutamente nada.

O sentido de responsabilidade surge quando se percebe a impossibilidade de se esconder atrás de uma pretensa virtude. De não precisar se afastar de si mesmo para descobrir a fonte do mal no mundo. Não acreditar tanto em si mesmo é, assim, o primeiro passo para fazer a crítica desse mesmo mundo. Se não podemos nos safar por completo dessa nossa natureza grupal, que traz os seus riscos, mas também a nossa salvação, podemos, pelo menos, narrá-la e denunciá-la em nós mesmos. Mea culpa, mea maxima culpa. O que requer um mínimo de coragem, além de fazer algum bem no horizonte de oligofrenia ideológica e de esgarçamento social em que estamos metidos.

Rodrigo Coppe Caldeira é Historiador e Professor do Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. (As opiniões do autor são de cunho pessoal e não refletem necessariamente a posição oficial da instituição).

[1] “A verdade não muda de acordo/ Com a nossa capacidade de digeri-la.”