O humanista e os nazistas

O humanista e os nazistas

Bruna Frascolla analisa as ideias de Werner Jaeger e de seu clássico, "Paideia", à luz das pressões do tempo: a ascensão do nazismo na Alemanha da década de 1930.

Estado da Arte

27 Novembro 2018 | 20h18

Cena do documentário de Leni Riefenstahl “Olympia 1936”.

por Bruna Frascolla

Se o mundo vai ficando cada vez mais igual à medida que a tecnologia e o mercado encurtam distâncias, para nos admirarmos com a diversidade cultural humana será cada vez mais preciso ir aos livros para passear por épocas. Isto serve de exercício de tolerância, também; e, quanto mais lemos autores cultos de épocas diferentes, mais aprendemos que o que é bom não é só o que é igual, e que coisas ruins nem sempre anulam o que há de bom.

Por exemplo: em autores de fins do século XIX e começo do século XX, encontramos a menção à ciência da raça feita com naturalidade. Na década de 1930, a segregação racial vigia nos Estados Unidos (inspirando africâneres e alemães), Hitler subia ao poder, Gilberto Freyre lançava Casa Grande & Senzala no Brasil e Werner Jaeger lançava o primeiro tomo da Paideia na Alemanha. A aceitação científica e social da raça vivia o seu apogeu. Tal como hoje não cabe a sociólogos e filólogos desdizer o que dizem os estudiosos das ciências da natureza, tampouco cabia então. Assim, ao leitor ilustrado mais interessa ver as piruetas de Freyre para desenvolver um pensamento antirracista em terreno tão adverso do que medi-lo tintim por tintim com as réguas de hoje.

Já a Paideia é a magnum opus de Werner Jaeger, e talvez o maior clássico generalista sobre a Grécia: vai desde a época de Homero até a de Alexandre, analisando os valores morais, a organização social, a educação e a produção artística e filosófica grega. Numa palavra, a Paideia versa sobre a cultura grega. Na introdução, porém, encontramos considerações sobre o tempo de então. É que Jaeger era um humanista tanto em sentido arcaico quanto atual do termo, isto é, um filólogo versado em letras clássicas que se dedica ao cultivo e restabelecimento de textos antigos, e ao mesmo tempo defensor de um pensamento a que chamava de humanismo. O que um filólogo politizado entendia na Alemanha nazista por humanismo é o que há de atiçar a curiosidade do leitor ilustrado.

O primeiro livro da Paideia foi publicado em 1936, e Jaeger, prestes a emigrar, se queixa da noite negra em que todos os gatos são pardos, que não reconhece melhor ou pior em matéria de cultura. Nela, passou-se a considerar cultura não mais um ideal, e sim um termo descritivo a ser aplicado com um igualitarismo duvidoso. Para Jaeger, então, era claro que existiam culturas melhores ou piores, e negá-lo, usando “cultura” apenas de modo descritivo, sem juízo de valor, era mau legado do positivismo.

Ele ia ainda mais longe, e considerava que raça e cultura eram coisas passíveis de se desconectarem entre si. Cristão, dizia que o homem tem corpo e alma, e que os ocidentais modernos não se diferenciam dos orientais só por esse atributo do corpo que é a raça. Raça por raça, os europeus modernos não são da raça grega do século VI a.C. – em vez desta, o que une o ocidental moderno aos gregos é a alma; ou, mais precisamente, o cultivo da alma. São os valores humanistas, que querem, pela educação e cultivo da alma, tornar cada homem um ideal de humanidade; que pensam no homem livre, e com individualidade. Face radicalmente diferente, pela ausência ideais humanistas a cultivarem a alma, era a oriental, onde um faraó ou imperador se ergue sobre as massas uniformes. Cito Jaeger: “chega ao ponto de podermos sem dificuldade interpretá-los [os gregos] na linha da liberdade do individualismo moderno. Efetivamente, não pode haver contraste mais agudo que o existente entre a consciência individual do homem de hoje e o estilo de vida do Oriente pré-helênico, tal como ele se manifesta na sombria majestade das Pirâmides, os túmulos dos reis, e na monumental idade das construções orientais. Em contraste com a exaltação oriental dos homens-deuses, solitários, acima de toda a medida natural […]; o início da história grega surge como princípio de uma valoração nova do Homem”. Assim, fosse ou não um ariano louro de raça pura, o Führer que lidera as massas não comunga do legado espiritual grego que moldou o Ocidente, aproximando-se antes de um divino Akhenaton.

Nas linhas e ideias acima, vemos interdições incontornáveis à adesão ao nazismo. Se, por um lado, um nazista afirmava a superioridade de uma cultura, e tal tinha de ser a da raça ariana, por outro, para dar este passo, é necessário haver uma estreita vinculação entre cultura e raça. Seria um nazista, portanto, um opositor dos estudos clássicos? Não necessariamente. No artigo “Heidegger, Jaeger, Plato”, de Katie Fleming, descobrimos que o humanismo era uma querela acadêmica à época, e que intelectuais do regime usavam de artifícios variados para defender Hitler e o nazismo. Havia quem se esforçasse para comparar a biografia de Hitler à de Platão, quem mostrasse como o Reich realizava o ideal da República, e até quem atacasse Jaeger como intelectualista por admirar Platão em vez de apreciar o vigor popular da Hitlerjugend. No campo da cultura, havia duas alternativas possíveis: ou se afirmava a absoluta superioridade germânica, triunfando inclusive sobre a Grécia, ou bem se afirmava que gregos e germânicos são a mesma raça, e, contra toda evidência, defendia-se que os helenos eram nórdicos que migraram para a Grécia. Grosso modo, das duas, uma: ou bem os gregos eram arianos e Platão era nazista, ou nem Platão, nem os gregos, prestam. Não existia nem a possibilidade de admirar a cultura alheia, nem era aceitável cometer-se, digamos, “apropriação cultural”, pois cada raça tinha uma cultura estática, sem intercâmbios.

O claissicista e humanista alemão Werner Jaeger.

Em “Werner Jaeger’s Paideia and his Third Humanism”, de Cristoph Horn, vemos que a ideia de terceiro humanismo era relativamente velha; e, se mais tarde retirou o “terceiro” do nome, foi pelo temor de que se criasse um paralelismo entre terceiro humanismo e terceiro império (Reich). A ideia de um terceiro humanismo, alemão, surgira entre filólogos e classicistas contrários ao pan-germanismo e ao nacionalismo exacerbado da era de Guilherme II. Ao menos no caso de Jaeger, o humanismo seria terceiro por terem existido antes o grego, com os sofistas no século IV a.C, e o latino, com os humanistas da Renascença, na virada do século XV para o XVI. O primeiro girara em torno da concepção de paideia; o segundo, da de cultura, e o que surgiria na Alemanha giraria em torno da noção de Bildung, que seriam três palavras que designariam o mesmo ideal. Os sofistas, segundo pensa Jaeger, não devem ser postos numa linha de continuidade com os filósofos, senão com Homero e a Hesíodo, porque eram educadores e iniciadores do homem no legado espiritual e nos valores da sociedade vigente. Os sofistas inovaram – e por isso foram os primeiros humanistas – ao considerarem o Homem por inteiro, e a acharem que têm que incluir nesse legado o conhecimento, que era coisa até então restrita a filósofos e a seitas ocultistas, como a dos pitagóricos. Terão sido os sofistas os primeiros preceptores cujo ofício incluía, além da religião e da moral, o desenvolvimento do raciocínio e o ensino do conhecimento filosófico. Havia em latim uma expressão análoga, a cultura animi, que surgiu como metáfora a partir da referência ao solo: a terra culta é aquela que foi trabalhada para que frutificasse; outrossim, a alma deve ser cultivada para que se desenvolva e frutifique. Tal como o homem cultiva o solo, deve também cultivar o próprio espírito. Segundo Jaeger acreditava, aprender a paideia e conhecer o mundo helênico deveria ajudar os alemães a formar a sua Bildung, e a valorizar o Homem tanto enquanto indivíduo como enquanto Ideia a ser desenvolvida em cada um.

A outra interdição ao nazismo eram o individualismo e a natureza humana partilhada por cada um. Em vez das massas, há indivíduos dotados de autonomia espiritual; em vez de líder supremo, há mais um mortal em meio aos seus congêneres. Nesse cenário, não há espaço para a mãe que mata os próprios filhos para os salvar de um mundo sem Führer.

O projeto de Bildung recebeu acusações de vagueza; e não temos aqui como entrar em seus detalhes. A acusação que nos interessa é a de haver na biografia de Jaeger uma mácula, que é ter tentado se aproximar dos nazistas logo à ascensão do regime. Segundo Horn, reunira-se com o ministro da cultura no regime e publicara um texto sobre educação na revista do partido; segundo Fleming, tentara também conciliar o poeta Tirteu com o nazismo.

Em primeiro lugar, é preciso considerar que as pessoas mudam de ideia; em segundo, que ideias terríveis dificilmente se apresentam como terríveis. Se Jaeger acompanhava um movimento anterior ao nazismo que era contrário a uma educação estatal que já era nativista (e não se pode ser nativista e humanista ao mesmo tempo…), é plausível que tenha tido esperanças de se aproveitar da mudança de regime para mudar a educação alemã. Quanto a Tirteu, não tivemos acesso ao artigo, mas somente à abordagem do poeta na Paideia. Tirteu era o poeta espartano; Esparta, a cidade-Estado avessa à individualidade, na qual os homens eram educados o tempo inteiro e viviam em função da coletividade. No esquema hegeliano de Jaeger, a dórica Esparta, de coletivismo reinante, teria sua antítese com os jônicos, hedonistas e individualistas, e a junção de ambas levaria o espírito grego ao seu ápice, que foi o humanismo dos sofistas: cultivando os indivíduos, educava-os para a vida política, num equilíbrio entre o primado do indivíduo e o pertencimento à coletividade. Pela leitura da Paideia, fica claro que Esparta não é o modelo. (Na verdade, uma aproximação entre Esparta e um regime totalitário não se provaria inexato. Nela, sim, encontramos a mulher que se alegra com a vitória de Esparta, indiferente ao fato de na guerra lhe terem morrido cinco filhos – mãe celebrada por Rousseau no Emílio.) Porém, se no artigo Jaeger foi como na Paideia, ele jamais poderia conquistar os nazistas por um motivo: seu apego à verdade factual. O que quer que se pensasse à época, fato era que os varões espartanos se amavam uns aos outros. Tanto ao tratar de Esparta quanto de Safo, Jaeger, um cristão do começo século XX, buscava conhecer e apreciar os homens de outras eras em seu melhor, em vez de ler outras épocas com espírito inquisitorial, focado em emitir juízos morais. Fazer dos gregos uns heterossexuais judaico-cristãos ocidentais não era projeto seu.

Fracassados os ensaios de aproximação, Jaeger convertera-se em inimigo ideológico do regime, que tinha seus intelectuais de plantão; e, após o terceiro ano da ascensão de Hitler, emigrara para nunca mais voltar. Escapou cedo do nazismo, ainda na época em que as ideias chamadas de progressistas davam fé e aceitação ao racismo, e era coisa de vanguarda e bom tom defender o Povo contra a raça dos banqueiros.

Seus antídotos foram a desvinculação entre raça e cultura, o apreço pelo legado cultural da Grécia (apreço este que não impedia que admirasse também a Itália renascentista, nem que tivesse planos para a sua Alemanha), pela individualidade e pela verdade factual. Outra coisa que podemos acrescentar talvez seja a própria cultura humanista de Jaeger, que possibilitou o conhecimento respeitoso de um povo com história e valores diferentes do seu.

Ter uma formação cultural – ou antes simples escolarização – deveria nos impedir de achar que tudo se resume a poder. Deveria nos lembrar que os gregos foram vencidos e vencedores; que perderam em tudo para os romanos, exceto pela cultura. Foram o povo vencido que os romanos se esforçaram pra imitar. Assim, em vez de assumir cultura como algo fixo e de origem racial, deveríamos assumi-la como um ideal; em vez de ficarmos estáticos, ou mirarmos um estado ancestral de pureza, mais vale olhar para o mundo e para a História à procura de exemplos e inspirações. Abandonando essências inalteráveis, sintamo-nos livres para escolher o que parecer melhor. Façamos como o humanista, que escolheu ser o indivíduo Werner Jaeger e eleger por si um ideal, e não um mais um membro da raça ariana que se deixa dirigir por ideólogos autoritários.

Bruna Frascolla é doutora em Filosofia pela UFBA, atualmente pesquisadora colaboradora da Unicamp, tradutora dos Diálogos sobre a religião natural, de David Hume (Edufba, 2016).