O fascínio e os perigos das imagens

O fascínio e os perigos das imagens

Estado da Arte

23 Março 2017 | 22h37

Por Laura Ferrazza

Platão nutria uma imensa desconfiança para com as imagens, como demonstra o seu famoso Mito da Caverna – nele, o filósofo defende a ideia de que a imagem é fonte de engano e de ilusão. Assim como não deveríamos acreditar nas sombras projetadas na parede da caverna, tampouco as obras de arte mereceriam nossa confiança: elas não contribuem para que alcancemos a verdade e, portanto, são desnecessárias. Isso, ao menos, é o que a teoria platônica sugere. Mas ocorre que o ser humano parece ter um desejo perene por coisas aparentemente inúteis. Prova disso é que a própria civilização grega, na qual Platão viveu e da qual foi um dos representantes máximos, dava imenso valor às imagens e à arte. Para os gregos antigos, aliás, o principal sentido era o da visão – conforme atesta Aristóteles na Metafísica. Nada poderia ser pior do que perder o mais nobre dos sentidos – vejamos, a título de exemplo, o caso de Édipo, que, como autopunição máxima por seu incesto, furou os próprios olhos. Podemos dizer, inclusive, que os gregos tinham uma civilização eminentemente visual; por esse motivo, valorizavam a beleza física do corpo humano e a beleza plástica das obras de arte.

No entanto, o platonismo, com sua desconfiança visual, inspirou profundamente a teologia cristã e causou uma celeuma acerca das imagens. O cristianismo do início da Idade Média se viu às voltas com um dilema: como abandonar os ídolos (imagens), se eles possuíam – e ainda possuem – o poder de nos fascinar? Essa querela teve repercussões inflamadas no oriente; uma das mais conhecidas foi o movimento iconoclasta, em Constantinopla, que levou à destruição física de imagens sagradas. O desacordo em relação à questão das imagens foi um dos fatores que influenciou a separação da Igreja entre Ortodoxa e Latina. No final, as imagens triunfaram mesmo em Bizâncio – lá, contudo, os ícones religiosos eram cercados de estritas regras de representação. A imagem produzida no Ocidente cristão, por outro lado, gozou de liberdade maior.

O homem jamais deixou de produzir imagens, sejam elas religiosas ou profanas. Essa necessidade humana se explica pelo fato de que as imagens dão a possibilidade de nos eternizarmos, seja como autores ou como personagens. E, ao nos tornar eternos, ela nos faz semelhantes aos deuses – um epíteto homérico que jamais deixou de nos seduzir. Afinal, nós somos passageiros, mas as imagens sobrevivem a nós. Elas percorrem tempos longos e carregam nesse caminho uma parte de seu produtor.

Perenes e inquietas, elas nos desafiam diariamente. Estamos cansados de ouvir que vivemos em uma sociedade “saturada de imagens”. É possível que você só tenha começado a ler esta coluna porque a imagem que a acompanha chamou sua atenção, sendo ela uma imagem que já foi alçada à categoria de ícone. Isso significa, entre outras coisas, que podemos ver muitas representações de mulheres nuas, mas, quando vemos a Vênus de Milo (século II a.C.), nós a identificamos rapidamente. Foi justamente a mudança na forma como as imagens se apresentam, ou seja, a tecnologia, que permitiu que a estátua da Antiguidade pudesse ser conhecida e tornar-se um artefato pop. Através de fotografias e de uma rápida busca na internet, podemos ver abundantes reproduções da Vênus. Contudo, não é apenas por esse motivo que a conhecemos, mas também porque seu modelo foi aplicado por artistas durante séculos. Ela tornou-se uma síntese de beleza de um corpo feminino nu; mesmo que os padrões estéticos mudem, ela segue encantando. Pode aparecer referida num comercial de televisão, ou num anúncio publicitário. Dessa maneira, torna-se uma espécie de fantasma, segundo a visão do historiador da arte alemão Aby Warburg (1866 – 1929). Ela nos assombra e pode ressurgir a qualquer momento.

Voltando à questão das reproduções fotográficas e virtuais, dessa vez é em Walter Benjamin (1892 – 1940) que buscaremos uma reflexão pertinente. A estátua da Vênus de Milo, que só podemos ver ao visitar o Museu do Louvre em Paris, carrega a aura do original, que nenhuma cópia conseguirá reproduzir, assim como nenhuma descrição verbal nos dará a mesma sensação que teremos diante da imagem.  Será que podemos transpor imagens em palavras e vice-versa? Quantas vezes um amigo voltou de uma viagem e nos descreveu em detalhes um lugar, uma obra de arte, querendo transmitir a sensação que sentiu ao olhar algo, mas nós só compreendemos plenamente sua explanação quando, anos depois, estamos diante daquilo que foi descrito. As imagens são inquietas e fugidias demais para serem condensadas em palavras. Não raro, contudo, a grande literatura consegue criar algo novo ao, supostamente, descrever uma obra imagética que já existe. É o caso do memorável poema de William Carlos Williams, “Paisagem com a queda de Ícaro”, inspirado no quadro homônimo de Bruegel. Em vez de descrever exaustivamente a totalidade da pintura – o que seria impossível –, o poeta recorre a versos lacônicos e reticentes para causar a mesma impressão que se tem ao ver a minúscula figura de Ícaro afundando no mar.

“Paisagem com a queda de Ícaro”, Pieter Bruegel, 1565

Mas e quando o fascínio se torna desejo de conhecimento? Ao tentar decifrar, apreender ou buscar sentidos para as imagens, nos deparamos com pedras no caminho, que podem ser ignoradas ou encaradas. Descobrimos que a imagem, diferente do cadáver, não se presta bem à dissecação, porque ela é viva, é pulsante. As imagens possuem a capacidade de congregar elementos artísticos, históricos, sociológicos e antropológicos. A imagem não é prova de nada concreto: ela é incerteza. É passageira e ao mesmo tempo permanece, observada por diferentes pessoas, em épocas e lugares distintos; assim, desafia os conceitos tradicionais de tempo e espaço. A impressão que tenho ao experimentar uma imagem é minha, particular, uma experiência individual que pode ser dividida e melhor apreendida com outros observadores.

Assim, também, o tempo das imagens é diferente do nosso. Elas permanecem e se reconfiguram através dos olhares; são carregadas de memórias. A própria memória humana é feita de referências visuais. Quando o personagem de Marcel Proust (1871 – 1922) no romance “Em busca do tempo perdido” sente o sabor da madeleine, todo um cenário e seus personagens, todo um tempo passado sobrevêm, em forma de imagem, em sua mente: “Certamente, o que palpita desse modo dentro de mim, deve ser a imagem, a lembrança visual, que, ligada a esse sabor, tenta segui-lo até mim”. Hoje, somos tão bombardeados por múltiplos estímulos visuais que, em meio à enxurrada, parecemos ter perdido a capacidade de nos determos na reflexão da imagem individual: ver não é o mesmo que olhar. O sentido da visão pode ser o mais nobre, como queriam os gregos, mas é o ato de olhar detidamente, hoje cada vez mais raro, que definiu, em muitos aspectos, a nossa civilização.

Laura Ferrazza é doutora em História e pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)