O Eco da História: resultados eleitorais e diferenças regionais (parte II)

O Eco da História: resultados eleitorais e diferenças regionais (parte II)

O que ocorreu há mais de um século e meio atrás nos EUA ainda reverbera no comportamento eleitoral dos norte-americanos. E entre nós?

Estado da Arte

18 de dezembro de 2018 | 11h20

 

por Vinícius Müller

 

É conhecida a abordagem que identifica na divisão entre duas regiões diversas a origem da história dos EUA. A região norte teria sido colonizada de modo diferente do sul, na medida em que a produção e a relação com os recursos produtivos dos colonos da Nova Inglaterra teriam sido distintas em dois itens fundamentais: a predominância das pequenas propriedades e a produção voltada essencialmente para o mercado interno. Tais características, determinadas pelas condições climáticas em associação com as origens sociais e religiosas dos colonos, teriam sido capitais para certo isolamento da parte norte das colônias britânicas na América em relação à pátria-mãe. Disso teriam derivado mais três questões. A primeira é o pouco uso de mão de obra escrava nas regiões do norte. A segunda é o enraizamento de certo valor relacionado à igualdade. Este valor, em princípio relacionado à terra e ao trabalho, teria se desdobrado, ao longo do tempo, em uma maior igualdade de direitos.  Ou seja, a ideia definida por Acemoglu e Robinson como instituição inclusiva (Por que as nações fracassam. São Paulo: Editora Elsevier/Atlas, 2012). E a terceira, mais objetiva, teria sido a fusão entre elas. Em suma, uma maior capacidade de produzir e acumular riqueza que, pouco voltada ao mercantilismo britânico, pôde ajudar a criar um ambiente de autonomia econômica e distribuição mais equitativa. O melhor dos mundos, portanto: acúmulo de riqueza com maior igualdade. 

Já o sul, ao contrário, teria sofrido do mesmo mal que a América Latina. A colonização, fortemente vinculada aos interesses britânicos, teria sido voltada à produção de matérias- primas exportáveis e sob a combinação da grande propriedade agrícola com a mão de obra escrava. A riqueza seria maior, mas a desigualdade também. Esta situação se refletiria, até hoje, na pouca tolerância que a população das regiões caracterizadas no passado pela maciça presença de escravos teria dedicado à administração de Barack Obama. É também nessas regiões que o Partido Democrata tem sua maior dificuldade de penetração e fidelização. Ou seja, é nas regiões de maior concentração de escravos nos séculos XVIII e XIX onde está a maior proporção de eleitores dos Republicanos e, consequentemente, de Donald Trump, como atesta reportagem veiculada no The Washington Post (“Researchers have found strong evidence that racism helps the GOP win“, 03/03,2016). 

Vale lembrar que tais regiões originais dos EUA, as colônias do norte e do sul, representam atualmente uma parte relativamente pequena do território norte-americano. Ao longo da primeira metade do século XIX, os EUA ampliaram seus territórios contínuos até a costa oeste. Tal processo envolveu inúmeros mecanismos, como compra de territórios franceses e espanhóis, guerra contra os mexicanos, negociações com a Inglaterra e violentos conflitos com os povos indígenas. Mas esta expansão territorial também foi acompanhada de um processo mais orgânico de ocupação de novas regiões por pessoas que buscavam novas oportunidades. Entre elas, religiosos, imigrantes e aventureiros. Essas pessoas carregavam valores, modos de vida e tradições que se ajustavam às novas situações que encontravam pelo caminho. Por isso, tanto no norte quanto no sul, um fenômeno semelhante ocorreu. Em regiões novas mais próximas das colônias originais do norte, alguns itens fundamentais foram levados e reproduzidos. Por exemplo, a relação com a terra voltada à formação de pequenas e médias propriedades. O mesmo ocorreu no sul. Em regiões novas, porém mais próximas das colônias originais do sul, os elementos meridionais foram levados e reproduzidos. A escravidão é o exemplo mais eloquente. 

Nesse sentido, mesmo que haja certo e justificável pudor em usar a mesma abordagem e dividir em duas formações distintas a história do Brasil, algumas reflexões a partir dela podem ser feitas. Uma das possíveis divisões para a história brasileira é aquela que privilegia a formação de uma região exportadora e outra voltada ao mercado interno. A primeira, fortemente concentrada no litoral, teria sido a mais rica e também a mais próxima dos interesses portugueses. Já a segunda, voltada ao interior, mais pobre e relativamente isolada dos interesses mais presentes da colonização lusa. Esta região, mais autônoma e também mais pobre, teve seu momento original no século XVIII, quando formou sua rede de negócios entre o Rio Grande do Sul e Minas Gerais. Entre eles, São Paulo e Rio de Janeiro. Esta última, em uma dupla função que acabou por definir sua posição: além de capital da colônia (e depois do Império português, assim como do Brasil independente), o porto de chegada dos escravos e a origem do tráfico em direção às Minas Gerais. Tangente a esta região mais interiorana, o atual Mato Grosso do Sul e Goiás. 

Este mercado interno colonial, mesmo que contemplasse riqueza menor que a região litorânea exportadora, não viveu seu ocaso após a decadência da mineração durante a segunda metade do século XVIII.  Esta é, inclusive, a crítica mais sensata que foi feita às obras de Caio Prado Jr e Celso Furtado sobre a formação brasileira. Ambos, parte por ignorância e limites das pesquisas da época que escreveram, parte por insistência de origem ideológica, asseguraram equivocadamente que o pequeno mercado interno do Brasil colonial foi à falência com a crise do ouro em fins dos setecentos. 

Este eixo, mais interiorano, formado sob as relações do mercado interno e com relativa autonomia ante Portugal, pode ter sido fundamental para a definição das disputas políticas e partidárias do Brasil no século XIX. Engana-se quem, inspirado numa dicotomia entre ‘elite e povo’, pensa que os dois partidos dominantes da política dos oitocentos – o Liberal e o Conservador – eram ‘farinha do mesmo saco’ porque não apresentavam diferenças essenciais. Como aponta Richard Graham em sua magnífica obra Patronage and Politics in Nineteenth-Century Brazil (Stanford University Press, 1990), mesmo que com algumas variações locais, os liberais eram mais numerosos entre os membros das elites de São Paulo e Minas Gerais; enquanto os conservadores nas elites de Rio de Janeiro e Bahia. Rio Grande do Sul e Pernambuco apresentavam seus grupos dominantes mais divididos, situação facilmente identificada pelas disputas entre frações das elites das duas regiões. De qualquer forma, os liberais sul rio-grandenses eram mais barulhentos do que os conservadores, assim como os conservadores pernambucanos mais poderosos do que os liberais. 

Tais distinções se insinuaram não só nas posturas políticas durante o Império brasileiro, como também se acentuaram em questões econômicas e sociais ao longo do século XIX. As regiões que foram predominantemente formadas sob a forte influência das redes internas de negócios foram as que mais imigrantes receberam e as que mais investiram em infraestrutura e educação. Por isso foram aquelas que costuraram uma melhor combinação quando apresentadas às oportunidades do mercado internacional. Ou seja, a riqueza obtida pelas exportações de matérias primas gerou melhores resultados no longo prazo em regiões que combinaram a economia voltada ao mercado internacional com a infraestrutura doméstica gerada pelos negócios voltados ao mercado interno. Os produtos da pecuária gaúcha e, principalmente, o café paulista são os melhores exemplos. 

Assim como nos EUA, tais distinções entre regiões diferentes se espalharam para outras regiões mais novas. Desta forma, a estrutura de negócios, que se projeta nas questões políticas e em ajustes de mentalidade, montou um arco que em ordem geográfica começa no sul, faz uma inflexão a oeste em São Paulo, segue em direção a Minas Gerais e prossegue ao Mato Grosso do Sul, Goiás e Mato Grosso. Este arco possibilita outra maneira de compreender a formação nacional. Muito diferente daquela que concentra seu olhar na estrutura com forte presença no litoral e com mais relevância na parte setentrional do país. 

Não à toa, Caio Prado Jr e Celso Furtado mais erraram quando olharam para estas regiões do eixo sul-centro-oeste. E acertaram quando olharam para a formação do nordeste canavieiro. Não é por acaso, também, que o entendimento sobre o país e sua trajetória política, econômica e social entre aqueles cuja formação se caracteriza pela forte influência das teses dos dois autores consiga melhor capturar os votos do eixo formado pelo contorno litorâneo e, portanto, leste do país. Ao contrário, quem mais relativizou tais teses e apostou em outro entendimento sobre a trajetória do país tem maior facilidade em capturar as preferências eleitorais do eixo que faz, grosso modo, o caminho do sul ao extremo oeste do país. Ao menos foi assim nas últimas quatro eleições majoritárias.

Portanto, mercado interno antes de mercado externo, infraestrutura e educação, predomínio de elite ligada ao Partido Liberal e maior presença de imigrantes no século XIX podem ter originado um entendimento sobre a história brasileira que se revela em preferencias políticas atuais. O mesmo vale para aqueles cuja região se formou a partir de produção voltada ao mercado externo, menor infraestrutura interna, baixos investimentos em educação, predomínio de elites ligadas ao Partido Conservador e baixa presença de imigrantes. O que ocorreu há mais de um século e meio atrás nos EUA ainda reverbera no comportamento eleitoral dos norte-americanos. Não é diferente no Brasil.

 

Vinícius Müller  é doutor em História Econômica pela USP e professor do Insper.