O discurso tartamudo da ideologia

O discurso tartamudo da ideologia

Estado da Arte

25 Março 2017 | 09h13

Por Fabrício Tavares

Se é certo que Boécio, em meio a torturas e esperando sua execução, expulsou logo de início as Musas e tomou para seu consolo a filosofia, visto que considerava a poesia inepta para assuntos de grande monta como a morte, também é igualmente seguro dizer, como Gustavo Corção, que somente a poesia, como em Dante, é capaz de nos guiar em meio aos infernos.

Apenas isto explica a obra de uma Anna Akhmatova, um Boris Pasternak ou Marina Tsvetaeva na Rússia stalinista, ou ainda o lamento pelos mortos de um Paul Celan em meio aos campos de concentração nazistas.

Uma das principais características do discurso ideológico é precisamente a sua capacidade ou pretensão de incorporar em si as vozes e vontades de uma coletividade, como se naquele que profere as palavras ou pautas se reunissem, numa unidade cristalina, todos os cacoetes, cacofonias e frases tartamudas de indignação ou de clamor pela justiça que estão dispersos numa entidade que, de maneira provisória e vaga, designamos “povo”. De modo que, perante o tom vociferante e contumaz do líder político, só nos cabe dizer que seu nome é Legião.

Se o discurso ideológico, como diria Kenneth Minogue, é aquele que propõe uma verdade redentora dos males humanos em forma de análise social, e que, prometendo um hipotético paraíso na Terra, brinda-nos sempre com infernos reais, a poesia, por sua vez, pertence à ordem das coisas, por vezes incômodas, que nos trazem à memória nossa queda e expulsão do jardim das delícias – o fato de que “o tempo”, diria Paul Éluard, “é o pecado da eternidade”.

“O Jardim das Delícias Terrenas”, Hieronymus Bosch, 1515

No Brasil, curiosamente, vemos talvez uma confirmação de nossa tese – a ideia de que para atravessarmos o inferno a poesia se faz necessária –, pois ao mesmo tempo em que tanto a discussão pública quanto a linguagem do seio familiar foram tocadas pelo tom infernal da ideologia, há, por outro lado, bons poetas em processo criativo. Ora, o discurso da decadência da literatura brasileira não é, de modo nenhum, equivocado, todavia talvez falhe em perceber que a alta cultura é sempre salva e conservada por um pequeno número de indivíduos com ela comprometidos.

E a poesia é, de fato, um dos poucos contrapontos às esperanças narrativas exauridas da ideologia; primeiramente porque enquanto a ideologia, no entendimento de Hannah Arendt, reduz todas as questões e mazelas humanas, assim como suas possíveis soluções, a um único elemento da realidade (os modos de produção, as instituições, etc.), a poesia, por sua vez, se estabelece sempre como uma aporia, ou ao menos uma ambiguidade irresolvível.

As narrativas (e as guerras de narrativas) que constituem hoje, no Brasil e no mundo, o substrato mesmo dos discursos ideológicos são uma tentativa de fornecer sentido – uma aparência esquelética de sentido, é claro – para as tensões e dilemas políticos, sociais e existenciais do Ocidente moderno. Há, inclusive, esperanças escatológicas que concebem a harmonia de todos os povos, o império da razão e do bom senso e o estabelecimento final da “justiça social”.

A poesia, por sua vez, não é, em si, uma narrativa, pois não se obriga a seguir princípios de economia diegética, não se apraz, em geral, numa sintaxe retilínea ou na ordem cronológica dos fatos, antes, submete-se de bom grado ao ritmo, que mais do que compasso, é a unidade métrica, emocional, prosódica e gráfica do poema. À vista disto, pode-se indagar, de que serve o poema na ordem do discurso cotidiano, já que, perante a veemência e repetições verbais dos ideólogos, ele nos oferece somente sua cadência encantatória?

Ora, Samuel Johnson, segundo relato de seu amigo James Boswell, recomendava: Clear your mind of cant, isto é, limpe a cabeça da presunção, do conformismo ou mesmo da hipocrisia. Dito de outro modo, a literatura, e mais vigorosamente a poesia, esgarça as névoas e véus das ideias prontas, dos lugares-comuns e da doxa que se opõe à episteme. Eis aí sua força e singularidade.

Já a ideologia, por necessidade, nutre-se do lugar-comum – primeiro reconforta e recepciona o ouvinte como um hóspede, para, no decorrer do tempo, enredar-lhe em suas malhas do discurso artificial ou do filisteísmo. O que, todavia, os ideólogos ou messias políticos ignoram é que a repetição de termos e expressões, por meio da qual visam inculcar suas doutrinas aos que lhes ouvem, cedo desgastam e esvaziam a linguagem de seu núcleo semântico, de modo que cabe novamente aos poetas a renovação das palavras, “insuflando na linguagem da tribo o sopro primordial”, como dizia Mallarmé, para reparar o “defeito das línguas”.

Nesse sentido, a poesia é não somente um antípoda, mas também o antídoto da ideologia. Até porque, devido à sua insuficiência explanatória e sua natureza perecível, a ideologia tende sempre ao esquecimento ou torna-se um relicário exangue e ininteligível, ao passo que, como canta o verso de Hölderlin, “aquilo que permanece é fundado pelos poetas”.

Portanto, é certo que se há, no domínio da linguagem humana, uma diretriz que nos conduza em meio ao inferno das últimas convulsões sociais, certamente não são os gritos de guerra ou palavras de ordem proferidas em meio ao vozerio inflamado.

O falecido poeta irlandês Seamus Heaney, num ensaio que tinha como pano de fundo histórico o terrorismo do IRA, comparou a poesia à escrita de Cristo no chão enquanto cercado de líderes furiosos que ansiavam pela condenação da adúltera.

Para Heaney, “a inscrição daqueles traços no chão é semelhante à poesia – uma ruptura com a vida cotidiana, mas não uma fuga dela”. Não promete à turba acusadora ou ao impotente réu uma solução, não se propõe como instrumento ou objeto útil; entretanto, tampouco “funciona como distração, mas sim como pura concentração, um foco no qual nosso poder de concentração se concentra de volta em nós mesmos”. Desse modo, a poesia não é um caminho, mas um limiar – um local de entrada e saída contínuas.

Se os que vivem na letra da ideologia buscam a todo momento vítimas para suas lapidações, a poesia permanece sendo inscrita no chão, frágil e efêmera, mas ainda capaz de, acusando as consciências, pôr de lado, ainda que por um momento, as pedras. Afinal, já dizia Wallace Stevens, a nobreza da poesia é uma violência que procede do interior e que nos protege de uma violência exterior – principalmente quando esta é perpetrada por nós mesmos.

 Fabrício Tavares de Moraes é tradutor e doutorando em Literatura (UFJF/Queen Mary University London)