O dever moral do ideólogo

O dever moral do ideólogo

A descoberta de uma teoria que saiba não somente diagnosticar uma injustiça social, sua etiologia e seu funcionamento, mas também oferecer um prognóstico e até mesmo uma solução prática para extingui-la, é algo que pode ocorrer tanto no atacado (o que ocorre com as teorias generalistas), quanto no varejo (com hipóteses sobre algum tema específico).

Estado da Arte

17 Julho 2017 | 14h00

Por Felipe Pimentel 

Todo dia somos metralhados por imagens e experiências de injustiça social. Todos nos revoltamos: pobreza, miséria, analfabetismo e desigualdades; desemprego, desigualdade social, concentração de renda e trabalho escravo; guerras, exilados políticos, refugiados de guerra e autoritarismo; homicídios, sequestros, crimes diversos, corrupção. Muitos se indignam, outros se questionam; alguns se rebelam, outros vão pesquisar; quase todos nós sofremos, seja com a injustiça que os outros passam, seja com a que nos acomete, tentando tocar a vida em frente a despeito desse padecimento.

Porém, quando vamos estudar as causas das injustiças sociais, sempre tão complexas, teremos à disposição, uma série de ideias prêt-à-porter para explicá-las, ou mesmo podemos desenvolver as nossas próprias formulações a partir de ideias anteriores. A descoberta de uma teoria que saiba não somente diagnosticar uma injustiça social, sua etiologia e seu funcionamento, mas também oferecer um prognóstico e até mesmo uma solução prática para extingui-la, é algo que pode ocorrer tanto no atacado (o que ocorre com as teorias generalistas), quanto no varejo (com hipóteses sobre algum tema específico).
Foi no século XIX, uma época de afã cientificista e profunda crença no progresso, quando a maioria das ciências modernas foi fundada (a medicina, a biologia e a engenharia, por exemplo), que a área das humanidades também começou a se cientificizar. Isso significava formular teorias generalistas que podiam explicar não só a trajetória do homem (a história), mas sua atualidade (a sociologia), seu comportamento (a psicologia), suas diferenças culturais (a antropologia) e suas instituições administrativas (a ciência política). Por certo, todas essas disciplinas possuíam suas raízes longínquas: a história podemos remontar à Grécia clássica, e a psicologia e a política à modernidade renascentista. Porém, a intenção generalista e global dessas teorias, aliada a uma suposta metodologia (e objetividade) científica, cristalizara-se nesse século da grande revolução industrial.
Assim, proliferaram teorias sobre os porquês da história ter avançado desse ou daquele modo e ter nos trazido para essa época maravilhosa que o Ocidente supostamente vivenciava na Belle Époque. O positivismo de Comte e sua crença no estágio positivo da sociedade, que se alcançava pela ordem autoritária governamental, alicerçada no progresso científico; o determinismo do meio de Taine e sua ênfase na força do ambiente em determinar os comportamentos individuais; o darwinismo social, esse desviante do darwinismo biológico, que se julgava capaz de levar a civilização para os povos “primitivos” do mundo; o hegelianismo, seja de esquerda, seja de direita, que via na dialética da razão que trazia a realização do espírito absoluto no estado democrático de direito moderno; são todas teorias que ofereciam uma explicação global do desenvolvimento da humanidade e apontavam para uma direção seguinte. Porém, entre elas, nenhuma teve a pujança que o marxismo teve, seja na extensão em que se propunha explicar as origens dos problemas sociais, seja na precisão com a qual propunha intervir neles. Como uma teoria da história, capaz de explicar não só o surgimento do Estado, mas também as causas do abolicionismo, o marxismo delimitou o escopo de ação necessária para a melhoria da situação social. Outras teorias também o fizeram em menor grau e com menor complexidade, e essa tendência novecentista repercutiu nas teorias do início do século XX, derivadas diretamente daquelas, como o marxismo e o darwinismo social, o que nos levou a algumas aberrações, como o fascismo, o nazismo e o stalinismo.

 


Agora, imaginemos que conhecemos uma teoria que explique as razões de determinada injustiça social; mais, que ela explica de modo razoável e conceitual uma série de transformações históricas e, não suficiente, oferece ferramentas de como intervir nos problemas atuais, a fim de fazer com eles o que se fez no passado com problemas hoje extintos. Se eu compreendo e adiro a tal teoria, isto é, se eu creio que as injustiças sociais que vivemos seriam consertadas pela aplicação da prática dessa teoria, não estou em apuros? Quer dizer, não estou frente a frente com um problema moral? Se eu sei como a sociedade poderia melhorar, não parece um dever que eu imponha isso à sociedade?

 

 Felipe Pimentel é psicanalista e historiador.