O caótico nascimento do Messias

O caótico nascimento do Messias

A pintura incomum da Natividade de Hieronymus Bosch, realizada no século XV, traz elementos perturbadores para pensar o presente

Estado da Arte

23 Dezembro 2018 | 15h16

 

por Isabelle Anchieta de Melo

 

Serenidade (e caos) aproximam-se por combinações improváveis nessa imagem. O menino nu, imóvel, está no colo de uma Maria igualmente impassível. A rigidez dos corpos confere uma monumentalidade desencaixada em meio a um cenário decadente, terroso e violento. Na face direta do tríptico[1](de forma quase imperceptível, não fosse a violência da ação), uma fera acaba de dominar um homem que atravessava o caminho. Atira-se violentamente sobre ele enquanto a mulher corre desesperadamente de outro lobo. Na extremidade oposta, um senhor com vestes de abandono aquece-se em uma lareira improvisada embaixo de um teto em ruínas.  No centro, ainda em segundo plano, uma guerra entre dois grupos rivais está prestes a irromper. Homens armados com flechas em seus cavalos iniciam a corrida fatal ao encontro do Outro.

O telúrico, o pedestre e o além do homem compartilham o mesmo espaço. Não de forma propriamente harmônica, mas com uma quase indiferença entre uma esfera e outra. É como se a retidão convivesse impassível com a tortuosidade. Ideia tão bem traduzida pelo artista no detalhe entre Maria e o rei Mago, interrompidos em sua plasticidade pelo tronco retorcido que faz as vezes de uma coluna e sustenta a cobertura de um celeiro em ruína. Curiosos camuflados no ambiente retorcem-se, sobem em árvores, no telhado, olham de esguelha a colorida Epifania da Igreja. As cores demarcam o protagonismo. Os mantos vermelhos dos magos e o azul profundo de Maria definem a importância quase sobrenatural dos personagens em contraste aos terrosos humanos movidos por suas baixas paixões: a curiosidade, a inveja, a ira.

Caos e ordem. Guerras e Paz. Degradação e nascimento convivem simultaneamente. Não sem propósito retomo uma Natividade[2]e adoração dos Reis Magos pouco convencional realizada pelo holandês Hieronymus Bosch, no século XV. Ao contrário das tradicionais cenas pacificadoras, a imagem do artista conjuga cenas violentas diminutas que, nem por isso, deixam de perturbar a placidez do nascimento do menino Jesus em primeiro plano.

Uma criação sobreposta a outra. Vale dizer que a Natividade, tal como a conhecemos, é também uma invenção realizada por São Francisco. Em 1223, ele resolve encenar o nascimento de Cristo nos Montes de Arezzo entre os habitantes de Greccio: “Na noite de Natal, Assis juntou um boi, um burro e uma manjedoura cheia de feno de modo a recriar o cenário da Natividade[3]. Um cenário vagamente inspirado em passagens bíblicas: dos evangelhos de Lucas e Mateus[i]provavelmente escritos na segunda metade do século I, que localizam o nascimento de Cristo em uma hospedaria ou casa[4]. Desde então, a Natividade, tal como a conhecemos, é assim recriada e inventada via imagens , introduzindo elementos, como a cena ao ar livre, o curral e os animais.

A composição humanizada, humilde e natural de Maria e Jesus não se dá sem resistência da Igreja Romana, representada pelo Papa Gregório IX.  Mas, a despeito das tentativas do Papa em domesticar a representação da Natividade franciscanaela escapa ao controle da Igreja ganhando a afeição do público. Nos sécs. XV e XVI, Maria desce definitivamente do trono e toca o solo pela primeira vez[5]. Reclina-se em direção a seu filho na manjedoura de feno. Humaniza-se atendendo o ideal de humildade, generosidade e bondade. Torna-se menos “Virgem”e mais “Maria”.“Os mendicantes, sobretudo franciscanos, tomam a dianteira. É virada para a Virgem que a mística medieval levanta voo: piedade filial, mais do que nunca. Menos crispação sobre a virgindade: a mulher triunfa como mãe”[6].

Se a “Maria mãe e humilde” da Natividade é sintoma visual de uma profunda mudança de mentalidade social, a tópica proposta por Bosch, por sua vez, introduz cenas perturbadoras. Ela é o contrário do “kitsch mariano”, ainda que pareça dialogar com ele; entendendo kitsch como um ideal estético que elimina tudo o que é feio e violento.  “O Kitsch exclui de seu campo visual tudo que a existência humana tem de essencialmente inaceitável”[7].

Contrário a isso, a Natividade de Bosch não nega as contradições do mundo e, com isso, abala a ingenuidade da crença de que a chegada do Messias será capaz de eliminar o mal, a violência, o feio e os mais baixos sentimentos humanos.  A imagem é (e não é) apaziguadora. Maria e o menino estão ancorados no caos que se desenrola no entorno, incapazesde o evitar. Uma imagem traduz tão bem esse instante nacional que amalgama nascimentos e incertezas. Desordem e esperança. E, contra todas as intempéries, testemunha um nascimento.

Isabelle Anchieta de Melo é doutora em Sociologia pela USP, jornalista, mestre em Comunicação Social pela UFMG. Recebeu prêmio como Jovem Socióloga brasileira pela Associação Internacional de Sociologia com apoio da UNESCO.

 

[1]Conjunto com três pinturas articuladas, sendo uma central e dois painéis laterais.

[2]Museu do Prado. Disponível em: https://www.museodelprado.es/coleccion/obra-de-arte/triptico-de-la-adoracion-de-los-magos/666788cc-c522-421b-83f0-5ad84b9377f7

[3]Norbert Wolf, Giotto di Bondone (1267-1337), 2007, p. 24.

[4]“Envolveu-o em panos e o deitou em uma manjedoura, por não haver lugar na sala dos hóspedes” (Lucas, Evangelho, 2010, p. 697). Em Mateus: “Ao entrar na casa, viram o menino com Maria, sua mãe, e, prostrando-se, adoraram” (Mateus, Evangelho, 2010, p. 661). Na citação de passagens bíblicas , não é necessário indicar o versículo para que seja identificado?

[5]“A Virgem, pela primeira vez, está em contato com o solo. Os exemplos da Virgem sentada, ajoelhada, ou deitada são tão numerosos que constituem uma inovação incomum”. (…) Os teólogos haviam afirmado que a raiz da “humilitas” era o “húmus” (MEISS, 1988, p. 174).

[6]Jacques Dalarun,Olhares de clérigos”, em: Georges Duby, Michelle Perrot, História das mulheres,v. 2, 1990, p.55.

[7]Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser, 1985, p. 250.

[i]Lucas narra a viagem de José e Maria até Belém em razão de um recenseamento determinado pelo imperador Augusto, o evangelista escreve: “Estando eles ali se completaram os dias do parto, e ela deu a luz a seu filho primogênito. Envolveu-o em panos e o deitou em uma manjedoura, por não haver lugar na sala dos hóspedes. Naquela mesma região havia uns pastores no campo vigiando à noite o rebanho. Um anjo do senhor apresentou-se diante deles e a glória do Senhor os envolveu de luz. (…) Este será o sinal: encontrareis o menino envolto em panos e deitado numa manjedoura” (LUCAS, Evangelho, p. 697, 2010). Em Mateus, a referência aparece quando narra a busca de alguns magos pelo menino: “E a estrela que tinham visto no Oriente, ia à frente deles, até parar sobre o lugar onde estava o menino. Quando viram a estrela encheram-se de grande alegria. Ao entrar na casa, viram o menino com Maria, sua mãe, e, prostrando-se, adoraram. Abriram os cofres e lhe ofereceram presentes, ouro, incenso e mirra” (MATEUS, Evangelho, 2010, p. 661).