O cânone em pauta – O Talmud

O cânone em pauta – O Talmud

Estado da Arte

22 de fevereiro de 2017 | 00h41

Segundo o historiador da cultura judaica Harry Freedman, “os judeus são conhecidos como o Povo do Livro. Mas, na verdade, eles são o povo de Dois Livros. O mais antigo, a Bíblia hebraica, é considerado a palavra sagrada e revelada por Deus. Mas o mais recente, o Talmud feito pelo homem, é o mais significativo para se entender o judaísmo”. Para o exegeta Adin Steinsaltz, o Talmud é “a coluna vertebral da criatividade e da vida nacional judaica”; “se a Bíblia é a pedra fundamental do judaísmo, então o Talmud é a sua pilastra central, erguendo-se das fundações e sustentando todo o seu edifício intelectual e espiritual”.

Tão volumoso quanto uma enciclopédia, o Talmud “cobre tópicos diversos como direito, fé, espiritualidade, folclore, medicina, mágica, ética, sexo, relacionamentos e oração” (Freedman), formando “um conglomerado de lei, lenda e filosofia; a combinação de uma lógica singular e de um pragmatismo concreto, de história e de ciência, de anedotas e de humor” (Steinsaltz). Para Paul Johnson, “este multifacetado corpo de escritos constitui não somente um trabalho de contínua investigação sobre o verdadeiro sentido da Bíblia, mas o corpo vivo da lei comum judaica… Visto em termos ocidentais, é o Direito Natural, a legislação da Bíblia, o Código de Justiniano, o direito canônico, a ‘common law’ inglesa, o direito civil europeu, os estatutos do Parlamento britânico, a Constituição norte-americana e o Código Napoleônico, todos unidos numa só coisa”.

Apesar disso, na opinião de Jacob Neusner, “o Talmud preserva não o consenso, mas o confronto”. Para Freedman, “se a Bíblia levanta questões, o Talmud levanta questões sobre questões”, e “mesmo que se ocupe de leis, comportamentos e crenças, está menos interessado em chegar a conclusões do que em apresentar diferentes modos de se olhar um problema. Não é tanto a decisão final que conta, mas o processo que leva a ela”. Daí porque, segundo Steinsaltz, esse “é possivelmente o único livro sagrado em toda a cultura mundial que permite e mesmo encoraja o seu estudioso a questioná-lo”, exprimindo maximamente a “mistura singular de fé profunda e ceticismo questionador que caracterizou o povo judeu pelos séculos”.

Contrariamente ao que se espera da literatura espiritual, percorrer os casuísmos labirínticos do Talmud, suas contendas rigoristas e minúcias excruciantes, pode ser com frequência causa de desorientação e embaraço. Mas há também cenas de uma simplicidade estarrecedora. A estória conta que, poucos anos antes do nascimento de Cristo, um não judeu dirigiu-se ao Rabino Hillel prometendo converter-se à Lei de Deus sob a condição de que ele a explicasse enquanto apoiado em uma só perna: “O que é odioso para você, não o faça aos outros”, disse o sábio, “Esta é toda a Torah e o resto é comentário. Vá e aprenda”.

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Com

  • Alexandre Leone: rabino ordenado pelo Seminário Teológico Judaico de Nova York e professor colaborador do programa de pós-graduação de estudos judaicos e árabes da Universidade de São Paulo.
  • Moacir Amâncio: professor titular de Literatura Hebraica da Universidade de São Paulo e tradutor do Talmud.
  • Saul Paves: rabino ordenado pelo Rabinato Chefe de Israel e diretor pedagógico da área judaica do Colégio Iavne.

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