O apogeu artístico de David Lynch

O apogeu artístico de David Lynch

A terceira temporada de Twin Peaks é a obra máxima de um dos cineastas mais criativos da história do cinema.

Estado da Arte

01 Dezembro 2017 | 08h00

por Miguel Forlin

Invariavelmente, todos os grandes cineastas contêm em seus respectivos corpos de trabalho obras que se destacam não só pelos seus próprios méritos como também por compilarem assuntos e características estilísticas que estavam dispersas ou fragmentadas ao longo de toda uma carreira. Geralmente são obras-primas cuja aparição no cenário cinematográfico está fortemente ligada à idade do artista. De fato, embora existam situações em que o diretor obtém esse tipo de resultado no início da vida adulta ou velhice, na maior parte das vezes, filmes dessa natureza surgem no momento mais ativo da profissão, em que a maturidade superou as idiossincrasias da juventude, mas não a ponto de ceder às decrepitudes da longevidade.

No caso de David Lynch ? como não poderia deixar de ser ?, o que se tem é uma subversão dessa regra. Na septuagésima década de vida e há mais de quarenta anos dirigindo filmes, o cineasta norte-americano retornou ao universo que deixara para trás em 1992 e transformou as 18 horas que constituem a terceira temporada de Twin Peaks na maior realização artística de sua carreira. É verdade que, no decorrer dessa trajetória cinematográfica, há filmes que, reunindo as características presentes nas obras anteriores, estabelecem novos patamares. Veludo Azul, por exemplo, ao mesmo tempo que possui algumas das estranhezas visuais e temáticas de Eraserhead, apresenta o mesmo classicismo visto em O Homem-Elefante. Contudo, nenhum desses compêndios narrativos e estéticos abrange a totalidade de características que compõem o universo lynchiano.

Alguém poderia até dizer que os dois primeiros anos de Twin Peaks e o filme Twin Peaks – Os Últimos Dias de Laura Palmer agrupam todas as capacidades criativas do diretor. Porém, como Lynch sempre foi um artista em constante evolução, não faria sentido recorrer a tal afirmação, uma vez que, desde 1992, ele realizou vários curtas e quatro longa-metragens, muitos contendo rupturas com a linearidade temporal e narrativas duplas. Cidade dos Sonhos é o que mais se aproximou de acumular todos essas capacidades, mas como Império dos Sonhos se destacou, entre outras coisas, por ser a primeira produção filmada em digital pelo cineasta e a obra mais formalmente radical de sua carreira, é um fato que, até pouco tempo atrás, era necessário se conformar com a inexistência de uma obra máxima na sua filmografia.

David Lynch fuma alguma coisa enquanto fala uma vez mais sobre si no documentário The Art Life.

Todavia, isso mudou completamente em 2017. Twin Peaks – O Retorno é um assombro artístico poucas vezes testemunhado na história do cinema, certamente inédito na da televisão. Trata-se de uma realização audiovisual que quebra até mesmo paradigmas estabelecidos recentemente pela Segunda Era de Ouro dos seriados norte-americanos. Ao fim dos seus dezoito episódios, tanto a inclusão de David Lynch no panteão dos grandes mestres da Sétima Arte quanto a constatação de que testemunhamos a ebulição cinematográfica final de uma mente brilhante são inegáveis. É praticamente impossível que nos anos vindouros ele consiga nos presentear com algo capaz de equiparar ou superar o que testemunhamos nesta temporada.

No entanto, para a surpresa de muitos, esse nível não foi atingido através de um ineditismo estético, narrativo ou temático. Basicamente, Lynch “apenas” extrapolou o que havia sido realizado anteriormente e juntou todos os assuntos e as opções estilísticas que lhe foram caros durante a carreira. Aqui, o desenrolar dos anos, juntamente com os acertos e tropeços que caracterizam qualquer desenvolvimento cronológico, foram vitais. Em outras palavras, para que a terceira temporada de “Twin Peaks” apresentasse o mesmo padrão de qualidade que nos foi entregue, era essencial que sua realização ocorresse nos últimos anos, no momento em que o diretor parece ter esgotado toda a complexidade artística que habita a sua intimidade em uma explosão criativa única e especial.

Desde a representação surreal da realidade concreta (presente em obras como Eraserhead) e o combate onírico ao estilo de vida anunciado pelo sonho americano, um elemento definidor de Veludo Azul e da trilogia sobre Los Angeles (tema que abordei no primeiro artigo dedicado ao diretor nesse Estado da Arte), passando pela existência de realidades paralelas que podem ou não ser sonhos de algum personagem ou entidade (como é o caso de Estrada Perdida, Cidade dos Sonhos e Império dos Sonhos), até a participação ativa de figuras sobrenaturais nas estruturas físicas da realidade, tudo que aparece na nova temporada é uma extrapolação de coisas que já vimos e admiramos em filmes anteriores. Mesmo o oitavo episódio, com a sua já famosa ópera fúnebre, nada mais fez do que ilustrar a origem de alguns dos seres malévolos que assombram os heróis das narrativas.

Entretanto, seria um engano achar que essas “auto-referências” se estendem apenas ao cinema. À medida que recria planos e cenas dos próprios filmes (o que pode ser considerado, inclusive, um intenso exercício de egocentrismo), Lynch introduz muito do trabalho que realiza em outros mídias. Influências plásticas, como os quadros de Francis Bacon e Edward Hopper, as obras que ele mesmo compõe (muitos dos momentos que se passam no Black Lodge remetem a algumas das coisas que criou) e as canções de sua autoria, com os elementos de blues, jazz e música ambiente que as caracterizam, são todos elementos de um artista multimídia que ignora as fronteiras que ilusoriamente separam os diferentes tipos de arte.

Por fim, também há a necessidade de mencionar o forte caráter biográfico que há anos acompanha os filmes de Lynch e que em Twin Peaks – O Retorno parece atingir o seu ápice. Afinal de contas, é difícil não enxergar na ingenuidade de Paul Atreides, na iniciação sexual de Jeffrey Beaumont e em todas as transformações pelas quais Dale Cooper passa reflexos da progressão biográfica do diretor. Nesse sentido, o fato de ele próprio ver em Kyle Maclachlan uma espécie de alter ego (como admitido no livro Em Águas Profundas: Criatividade e Meditação) e de conhecermos boa parte de sua história contribuem para essa impressão geral.

Sendo assim, torna-se uma atividade hercúlea afastar a impressão de que, ao realizar uma obra que homenageia a primeira temporada de Twin Peaks da melhor maneira possível, ou seja, ocasionando outra revolução na televisão estadunidense, David Lynch reuniu quase tudo que, interna e externamente, o constitui e pôs no topo de sua carreira uma coroa pesada, densa e resplandecente. Aliás, a tendência é que isso se torne cada vez mais difícil, já que é muito provável que a perspectiva histórica e as futuras revisões revelem camadas interpretativas que ainda não foram sequer vislumbradas.

Miguel Forlin é crítico de cinema e colabora com diversas publicações da área.

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