Notre-Dame: testemunha da condição humana

Notre-Dame: testemunha da condição humana

Mais do que um símbolo francês, a Catedral de Notre-Dame representa a condição humana através da sua beleza.

Estado da Arte

19 de abril de 2019 | 10h38

por Caio Morau

Permitam-me que redija esta breve crônica em primeira pessoa, não porque tenha sido eu protagonista de qualquer espécie de acontecimento, mas porque creio que vos fará compreender que todos quantos já tiveram o privilégio de participar do cotidiano da Catedral – sem mérito próprio -, estabeleceram com ela uma relação personalíssima, íntima, dando impressão de que seu dono nos chama pelo nome e que de nossa parte respondemos sem titubear: ecce ego quia vocasti me, aqui me tens porque me chamastes.

A Notre-Dame de Paris, concebida no século XII em homenagem a Nossa Senhora, não é somente uma chef d’oeuvre, um grande monumento que albergou notáveis fatos históricos, como a coroação de Napoleão Bonaparte ou a liberação de Paris na Segunda Guerra Mundial com o badalar de seus sinos.

Também não é um mero catecismo de pedra com lições das escrituras em suas imponentes fachadas, ou um reles museu, que conserva objetos de outrora – quanto a esta última função, os grandes saques sofridos pela Catedral durante a Revolução Francesa diminuíram consideravelmente o tesouro de que dispunha.

(Detalhe da “Flecha”, que se perdeu completamente com o incêndio)


A Catedral de Nossa Senhora de Paris é o retrato e o testemunho da condição humana. Homens simples, parcos de recursos humanos e intelectuais, empregaram suas vidas por quase dois séculos para erguer uma catedral digna de ser oferecida a Deus e ao povo.

Impressionam o grande esmero em cada detalhe e o cultivo da fortaleza, na sua variante da paciência, de todos os que se empenharam em tão grande tarefa. Os que a iniciaram não viveram para vê-la acabada.

Teriam os homens do nosso tempo a mesma braveza? Já o disse Heinrich Heine: “Naqueles tempos medievais os homens tinham convicções; hoje em dia, só temos opiniões, e com opiniões não se constroem catedrais góticas.”

Vivi na Notre-Dame de Paris uma legítima epopeia humana e espiritual. Ali entrei – não há dúvidas que me assaltem a esse respeito – por providência divina. Cursando por um ano a Faculdade de Direito em Paris, no mês de férias, encontrei-me necessitado de uma rotina que me satisfizesse e ao mesmo tempo pudesse ser útil aos demais.

(A “Floresta”, parte da Catedral igualmente consumida pelo incêndio)


Chegando em Notre-Dame e colocando-me à disposição caso necessitassem de ajuda para os mais variados serviços, candidatei-me para a vaga de guia da Catedral, para a qual fui designado no mês de agosto de 2012. A partir dali, minha presença no templo gótico mais belo do mundo tornou-se praticamente diária.

Minha entrada na vida da Catedral não teria se dado sem a intercesão de Jean-Pierre Cartier, antigo Professor de História em Paris e mestre de cerimônias da Notre-Dame há muitas décadas. Como ele próprio me confidenciaria em minha despedida da Catedral, nunca um brasileiro havia atuado como guia naquele ambiente. Atribuo uma vez mais à providência divina a sua decisão em conceder a mim o privilégio.

Vivi na Notre-Dame de Paris uma legítima epopeia humana e espiritual.

Recebíamos de Jean-Pierre, ou de Monsieur Cartier, como lhe chamavam alguns, aulas preciosíssimas sobre cada pequeno pedaço de história de Notre-Dame. Sempre entusiasmados pela vibração com que nos eram contadas, passávamos algumas noites nos dedicando aos estudos, para que estivéssemos preparados para apresentá-la com a mesma distinção com que fazia Jean-Pierre.

(Jean-Pierre Cartier, de colete azul e cabelos brancos, dando formação aos guias. O autor está no centro, sem colete)


Com o passar do tempo, fui convidado por Jean-Pierre para servir às missas que se celebravam na Catedral. Nessas ocasiões, pude experimentar a sensação de se estar no altar principal, muito próximo do magnífico coral, e de contemplar a beleza da luz que penetrava por meio da Rosácea Oeste, onde se encontra o órgão, ambos preservados do incêndio.

Testemunhei os bastidores da Catedral: desde os treinos das leituras, feitos na sacristia, para os quais Jean-Pierre dava a perfeita entonação que deveria ser por nós repetida, até o olhar severo e ao mesmo tempo brincalhão de Monseigneur Jacquin, falecido reitor da Catedral, grande e excêntrica figura, que a par de acender sempre seus cigarros na sacristia após as celebrações, teve grande papel na preparação do jubileu de 850 anos, cujas comemorações principiaram em 2012.

Tomei conhecimento também de diversos segredos e passagens, inacessíveis aos turistas, que deixam Notre-Dame ainda mais misteriosa e única. Contemplei, com uma proximidade inimaginável, a sua maior relíquia, a Coroa de Espinhos, adquirida por São Luís e para qual havia mandado construir a Sainte Chapelle.

Todas essa aventuras, contudo, são muito pouca coisa diante da verdadeira presença de Deus naquela Catedral, que converteu e continua convertendo homens como o poeta e diplomata Paul Claudel e que impressionou figuras como Chesterton, que confidencia em Fancies Versus Fads:

“Notre-Dame não é um mito. Notre-Dame não é uma teoria. O seu interesse não floresce da ignorância, mas do conhecimento; de uma cultura complicada com centenas de controvérsias e revoluções. Não é inexpressiva, mas esculpida em uma incrível floresta e labirinto de características fascinantes, podendo-se falar de cada uma delas por dias.”

E conclui: It is not great because there is little of it, but great because there is a great deal of it.  

A presença divina de que falávamos se dá na formosura de cada pedra, de cada vitral, de cada canto entoado, de cada pintura, de cada feixe de luz que penetra em seu interior. Tudo dá provas da pequenez do homem, que embora tenha construído tão singular obra, ainda experimenta uma sede de infinito que esta vida não pode dar.

Talvez seja esse, aliás, o grande mérito de Notre-Dame: através de sua Beleza – imperativo colocar em maiúscula – nos inclina para o infinito que todo coração humano anseia.

(Vista a partir da “Flecha”, dizimada pelo incêndio, que dá para o Rio Sena)


Trata-se de um tesouro de todos os homens de todas as épocas. E assim como sucedeu no século XIX com o lançamento do livro de Victor Hugo, que redirecionou os olhares para uma Notre-Dame abandonada e decadente, culminando com seu renascimento pelo talento de Viollet-le-Duc, que este incêndio sirva para reaquecer os corações de tantas pessoas que já não são capazes de contemplar a Beleza que lhes é oferecida.

Caio Morau é doutorando e mestre em Direito Civil pela Universidade de São Paulo, Professor da Escola Superior de Direito e assessor de Senador da República.

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