Nós Somos os Lunáticos: o cinema de Werner Herzog (Parte 1)

Nós Somos os Lunáticos: o cinema de Werner Herzog (Parte 1)

Muitas vezes tachado de insano, Werner Herzog talvez seja o mais lúcido dos diretores.

Estado da Arte

14 Setembro 2018 | 18h32

 

por Miguel Forlin

Ao ler textos críticos acerca da obra do cineasta alemão Werner Herzog, nota-se que a maioria dos autores costuma defini-lo usando termos associados à loucura. O estilo de vida aventureiro e as diversas histórias contadas a seu respeito acabaram por transformá-lo numa figura exótica e quase mítica. Quando envereda por narrativas mais convencionais, ouvimos pessoas afirmando que ele não foi “suficientemente herzoguiano”, como se dos seus filmes só pudéssemos esperar a insanidade. Todavia, ao seguirmos essas definições, estamos realmente próximos de entendê-lo como homem e artista ou isso serve apenas para uma avaliação que nos afasta cada vez mais de sua obra?

A loucura, de fato, está presente nos filmes do diretor, mas não como o impulso definitivo que o leva a realiza-los e sim nos sonhos dos seus personagens, sejam estes reais ou fictícios. O que o colonizador Aguirre (de Aguirre, a Cólera dos Deuses) e o explorador Fitzcarraldo (do filme homônimo) têm em comum, por exemplo, são desejos que se tornam insanos à medida que o tempo passa e as dificuldades se impõem. São eles que, motivados por obsessões e sonhos megalomaníacos, desafiam a natureza e os próprios limites a fim de colocar em ação planos mirabolantes. Herzog está lá para registrar as suas peripécias e os fins insatisfatórios que invariavelmente os esperam.

Esse interesse, por sua vez, esconde uma intenção, a mesma que orientou os irmãos Lumière nos seus primeiros registros, os italianos na criação e consolidação do neorrealismo, os cineastas e críticos franceses na formação da Nouvelle Vague, os dinamarqueses no surgimento do Dogma 95 e tantos outros artistas nos seus projetos particulares: filmar a realidade desnuda. Assim como nas outras artes, é a intenção de imitar o real que inspira esforços, gera movimentos e faz das obras manifestações artísticas capazes de auxiliar-nos na compreensão do mundo e de nós mesmos. Porém, diferentemente dos exemplos mencionados, em que a imitação da realidade passa por uma transformação estética e está mais voltada às questões do mundo civilizado, o caso do diretor alemão é muito particular e tem relação com uma maneira específica de enxergar as coisas.

Herzog já afirmou diversas vezes a importância de viajar a pé, não só porque há a oportunidade de conhecer novas pessoas como também por causa do contato que se tem com os ambientes e espaços. Em Hércules, o seu primeiro curta-metragem, ele filmou de perto os corpos de fisiculturistas, ressaltando os exercícios necessários para aprimorar a parte física. Entre esses dois dados aparentemente tão distintos, há um elemento comum fundamentando-os. Se o mundo é uma verdade esperando para ser descoberta, são os seus aspectos mais elementares que a revelam. Nas manifestações corpóreas de vida, na natureza e na relação mantida pelas duas é que se adquire um conhecimento específico da realidade na qual vivemos.

As pessoas que moram em centros urbanos têm a sensação de que são as obrigações diárias e os confortos do mundo moderno que formam a verdade de suas vidas. Quando descobrimos uma doença mortal, perdemos alguém próximo ou somos vítimas de uma catástrofe natural, sentimos que algo incomum rompeu a normalidade do nosso cotidiano. No entanto, costumamos esquecer que muitas das necessidades e obrigações que constituem a vida em sociedade são criações humanas, invenções de uma espécie que se tornou extremamente refinada, mas que não conseguiu impedir inteiramente as forças que a ameaçam ou evitar a morte dos seus membros. Em situações extremas, é a natureza e os limites por ela impostos que atravessam a redoma na qual acreditamos estar protegidos.

Em La Soufrière, curta-metragem de documentário realizado em 1977, há um momento emblemático. Na iminência da explosão do vulcão da ilha de Guadalupe, a cidade localizada no vale é evacuada e as ruas ficam completamente abandonadas (com a exceção de alguns animais que as percorrem à procura de comida).  Ao lado de dois operadores de câmera, Herzog foi até o local e filmou o cenário devastado, o que produziu uma série de imagens em que a impotência das organizações sociais diante da natureza é evidente. Essa sequência, inesquecível para os que a veem, exemplifica uma característica que, direta ou indiretamente, ajuda a caracterizar o cinema do diretor: a realidade elementar é a mais definitiva e irrefutável que conhecemos.

Em Juliane Cai na Selva, por exemplo, é fascinante ver como, décadas depois do acidente de avião do qual foi a única sobrevivente e do longo tempo em que enfrentou as ameaças mortais da natureza, Juliane criou tantas barreiras emocionais que tem dificuldade para reviver sentimentos antigos ou se comover ao encontrar, na região em que caiu, vestígios do passado. Para vencer o trauma e poder viver em sociedade, ela precisou erguer muros internos, mas a sua personalidade e o restante dos seus dias foram moldados pela situação limítrofe que vivenciou. Esse poder definidor é recorrente nos filmes de Herzog.  E ele nos pede que reconheçamos a sua força e inevitabilidade.

Geralmente, os protagonistas de suas obras são homens que respeitam a natureza e a encaram de maneira honrosa (como em O Grande Êxtase do Entalhador Steiner; O Pequeno Dieter Precisa Voar), a consideram digna de ser enfrentada (Aguirre, a Cólera dos Deuses; Fitzcarraldo; Cobra Verde; No Coração da Montanha; O Homem Urso; Encontros no Fim do Mundo) ou a representam no comportamento errático e instintivo (Também os Anões Começaram Pequenos; O Enigma de Kaspar Hauser; Stroszek; Gesualdo – Morte para Cinco Vozes; Meu Melhor Inimigo; Vicio Frenético; Meu Filho, Olha o que Fizeste!). Alguns são heroicos, outros se transformam em homens doentios, mas nenhum é iludido por uma falsa sensação de segurança. Todos estão próximos dessa realidade mais primitiva.

Reconhecê-la é desviar-se, enfim, da alienação. Vendo alguns filmes de Herzog, é muito comum sentir que certas regiões lembram mais lugares de um outro planeta do que territórios do nosso mundo. O próprio diretor reforça essa impressão empregando elementos de ficção científica em Fata Morgana, Lições da Escuridão (as tomadas de helicóptero que recriam a perspectiva de uma nave alienígena) e Além do Infinito Azul.  Quando o mundo em que habitamos nos soa estranho, é porque o conhecemos muito pouco. E obras que nos alertam sobre isso exercem uma função essencial: abrem os nossos olhos para possamos ver melhor a casa que nos acolhe e da qual ignoramos tantas coisas.

Diante disso, como não se questionar se insano é o diretor que viaja pelo mundo, conhece países novos e documenta as histórias de sujeitos totalmente inseridos na realidade (mesmo alguns casos terminando em alucinações febris e de forma trágica) ou se somos nós os loucos, seres perigosamente iludidos pelas próprias construções, reis de um castelo de cartas e alienados de um mundo que sempre encontra um jeito de se fazer presente. Não é muito difícil chegar a uma resposta. Basta ver os filmes de Herzog. Reconhecida a doença, o próximo passo é a cura.

Miguel Forlin é crítico de cinema e colaborador de diversas publicações na área