Não, as coisas não estão bem

Não, as coisas não estão bem

Como lidar com nossos erros e fracassos, com nossas dores e derrotas? O psicanalista Felipe Pimentel analisa o culto da positividade em nosso discurso social e aponta: sem essas experiências, não levamos uma vida plena.

Estado da Arte

29 Janeiro 2018 | 14h56

Por Felipe Pimentel

É trivial que em situações de estresse ou sofrimento busquemos alívio, como é natural sugerirmos ao próximo alguma espécie de consolo. Seja nas perdas, em que os consolos travestem-se de crenças religiosas ou análises sobre a intensidade do que se viveu, seja nas “derrotas”, nas quais indicamos o lado positivo para ser analisado, esse é um comportamento comum e, acima de tudo, importante para sobrevivermos a muitas situações. Não fosse assim, lidar com a brutalidade de determinados fatos difíceis da vida seria insuportável para a nossa cabeça. Nós usamos os tais alívios como modo de preparar a mente para, aos poucos, aceitar determinada situação com menos “intermediários”.

A mente, assim, funciona como um processador: a situação aparece como traumática ou devastadora, e a nossa cabeça trabalha para encontrar razões (não no sentido estritamente “racional”) que amenizem a dor. Até aí, tudo bem. Ocorre que, como tudo na vida psíquica, é fácil cruzar a linha, de modo que, aquilo que era saudável pode se voltar contra nós. Ou, para falar a língua dos filósofos, o que era virtude pode degenerar em vício.

Por uma série de razões (que em próximo texto arrisco explicar), a nossa época vive processando o mal-estar da realidade, travestindo-o em bem-aventurança. Explico. Circula, no discurso social, uma crença de que devemos ser “positivos”, retirando sempre algo de renovador e beneficamente transformador de qualquer situação; extrair “o melhor” das coisas; evitar os ressentimentos, as brigas, as disputas; que devemos carregar “somente energias boas”, nos afastar dos “conflitos” e emanar bons pensamentos e sentimentos, sem jamais mal-querer alguém ou alguma situação. Estruturalmente, é igual ao processo muito natural que expliquei acima: diante da dureza do cotidiano da vida, nós tentamos, através de um discurso, repetido insistentemente e compartilhado externamente (repetição e compartilhamento que buscam reforçá-lo), bem, nós tentamos selecionar somente os momentos benéficos e positivos.

Quer dizer, diante de uma separação, buscamos manter a harmonia e o bem-querer entre ambos envolvidos, pelas mais refinadas (e infindáveis) estratégias para evitar o conflito. Diante da nossa irritação, do nosso rancor, das nossas tristezas e das nossas derrotas, tentamos retirar de tais experiências o que elas têm a “nos agregar”. As éticas orientalistas (pelas quais nutro o mais absoluto respeito) são muitas vezes incorporadas no Ocidente por esse viés (e não pelo viés profundo que originalmente propõem – basta um estudo do budismo tibetano para saber que é uma prática fundada em renúncias, e não em atingir um verniz de paz mental pela meditação três vezes por semana). Em algum sentido, assim parece, ultrapassamos o ponto do consolo, do alívio, para algo unilateral, monocórdico. Isso pode trazer alguns empecilhos. Vejamos.

Coloquemos em ordem de “empecilhos”. Em primeiro lugar, evitar experimentar qualquer sentimento negativo, seja em relação a si mesmo, seja em relação aos outros, ao nosso passado ou ao mundo, causa um dispêndio de energia mental exacerbado. Isto é, diferente do consolo que ameniza, o dito contemporâneo parece buscar extirpar qualquer resquício de mal-estar das situações. E, para lograr isso, a mente precisa trabalhar e tanto. É uma energia dispendida talvez gratuitamente, especialmente quando envolve os outros (uma separação ou uma demissão que só deixam sentimentos bons são praticamente irresolúveis).

Em segundo lugar, algo que decorre da anterior, a vida em si fica absolutamente mais trabalhosa – e frustrante – se dela devemos extrair somente as coisas boas, pois alimentar tal expectativa diante da existência é praticamente um certificado de decepção (terminamos praticamente despreparados para a dureza e as durezas do destino).

Pior. Em terceiro lugar, se nós adicionamos à imagem que queremos que os outros tenham de nós a de que somos “positivos”, a tendência de que soframos essa decepção em silêncio e solidão é muito maior. Afinal, não podemos nos mostrar pessoas “pesadas”.

Em quarto lugar, nós estamos abrindo um espaço imenso para aquilo que os analistas chamam de falso self, isto é, a fabricação de um eu falso. Por quê? Nós podemos enganar a nossa mente, mas nunca por inteiro. Tanto ela, quanto nossas emoções não são cegas e surdas, elas sabem o que nos ocorre e o que nos afeta. Impor a nós próprios que reajamos positivamente aos distintos momentos da vida fortalece um mecanismo defensivo do nosso eu frente ao mundo, que, na realidade, é construído sobre um auto-engano. Daí, é muito fácil perder a linha entre algo que realmente não nos afetou e algo que nos afetou, mas buscamos evitar o sofrimento daí decorrente.

E, em quinto e último lugar, viver a vida positivamente (o que termina por corromper uma sugestão central do próprio discurso da positividade) não ensina coisa alguma.

O aprendizado diante da vida, a transformação ao longo da existência ou, para falar o termo da moda, a evolução de nós mesmos, não se dão numa capacidade de não se afetar pelo mundo e de suportar benevolentemente as distintas situações da vida. Pelo contrário. Qualquer terapeuta, das mais distintas correntes, sabe que “evoluímos” emocionalmente ao viver efetivamente as experiências da vida, e não ao falsificá-las.

Mais: se nós não aprendermos com os erros que cometemos (que nos fazem sofrer, ter vergonha, raiva, ressentimento e angústia de não poder consertá-los); se nós não olharmos as dores que uma relação desastrada nos deixou e o que a fez naufragar; se nós não olharmos as lambanças que fazemos com os amigos, as burradas no trabalho; se descuidarmos das dores que nos causaram, das injustiças que sofremos e das que causamos; se não olharmos as feridas que não saram e que insistem, as perdas que não voltam, ou o tempo, inclemente; se nós despercebermos tudo isso, nós poderemos parecer leves e positivos, mas seremos os mesmos, entrando e saindo da vida do mesmo jeito, com alguma espécie de sorriso tímido, adquirido ou não em um paraíso farmacológico ou num discurso de verniz.

O nosso rechaço pelos nossos erros, o nosso ressentimento por um amor perdido; a nossa dor por uma perda, a nossa raiva da injustiça humana e do destino; são, também, essas coisas que nos fazem batalhar para não errar novamente, para conquistar um novo amor, para valorizar os amigos presentes, para lutar por aquilo que julgamos certo. São elas, as irmãs gêmeas das nossas experiências belas, que fizeram, fazem e farão uma vida, talvez triste, talvez feliz, não sabemos, mas plena e realmente vivida.

Felipe Pimentel é psicanalista e historiador.

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