Moda e Catolicismo: considerações sobre a recente exposição inaugurada no MET de Nova York

Moda e Catolicismo: considerações sobre a recente exposição inaugurada no MET de Nova York

A exposição do MET coloca lado a lado criações de estilistas contemporâneos inspiradas no imaginário católico e peças originais vindas do Vaticano, que incluem vestes papais.

Estado da Arte

02 Junho 2018 | 16h00

por Laura Ferrazza

Em maio, The Costume Institute, vinculado ao Metropolitan Museum of Art (MET), de Nova York, inaugurou sua nova exposição, intitulada “Heavenly Bodies: Fashion and the Catholic Imagination” – “Corpos celestiais: Moda e a Imaginação Católica”. À primeira vista, talvez pareça estranha a união entre o universo católico, com suas dimensões transcendentais, e algo  aparentemente tão profano quanto a moda. Contudo, algumas das mais profanas e profundas criações do mundo das vestimentas foram influenciadas em grande medida pelo irresistível apelo visual que a arte católica exerceu pelos séculos dos séculos. 

A exposição do MET coloca lado a lado criações de estilistas contemporâneos inspiradas no imaginário católico e peças originais vindas do Vaticano, que incluem vestes papais. A riqueza dos paramentos religiosos – não apenas em tempos remotos, mas ainda hoje – desperta inevitavelmente a atenção dos aficionados pela moda: não há como não admirar a suntuosidade de bordados, a presença de materiais preciosos e as cores específicas com seus significados ritualísticos. De uma maneira direta ou indireta, a religião católica influenciou grande parte do guarda-roupa ocidental durante séculos, tornando-se uma das tendências mais longevas do Ocidente. 

Desde a fundação da Igreja Católica uma mística própria cerca seus símbolos, tais como o trono de Pedro e a cor designada para seus sucessores. Na época do Império Romano, o púrpura era a coloração mais rara e mais cara, reservada apenas aos líderes mais poderosos. Por isso, foi também escolhida para vestir o líder da Igreja Católica – que no início era chamado apenas de Bispo de Roma. Muitas foram as mudanças na estrutura da Igreja desde sua fundação, mas a cor púrpura seguiu sendo utilizada pelos papas até a época contemporânea.

Ao longo dos séculos, após seu surgimento na Antiguidade, o poder da Igreja Católica se expressaria no uso de uma ornamentação cada vez mais complexa e carregada de ostentação; bordados de fios de ouro e pedras preciosas passaram a cobrir os trajes dos bispos e papas. Além dos trajes religiosos propriamente ditos, outra fonte inesgotável de beleza e inspiração é a arte sacra. O estilo da arte católica não foi sempre o mesmo, modificando-se ao longo dos séculos. Foi com o intuito de embelezar os templos católicos que algumas das mais belas obras de arte foram realizadas no Ocidente. O legado artístico e arquitetônico das Igrejas acabou por fundir a ideia do templo com a do museu, tornando-se foco de preservação patrimonial e visitação permanente em diferentes lugares do mundo. 

Assim, é inevitável que os estilistas nascidos em países do Ocidente que guardam relíquias católicas, principalmente Espanha, Itália e França, acabem, de forma consciente ou inconsciente, por expressar esse legado imagético em suas criações. No auge de seu poder, a Igreja criou leis que pretendiam interferir na forma como seus fiéis se vestiam. Por conta dessa influência, no final do período medieval, as mulheres vestiam-se com trajes que cobriam os cabelos e partes do rosto – características semelhantes às que ainda hoje encontramos no hábito das freiras. A principal diferença é que o traje usado em conventos é geralmente escuro com detalhes em branco; enquanto as mulheres medievais costumavam vestir-se em cores vivas. 

Na Idade Moderna, o peso da religião seguiu sendo sentido com força. Nos países onde o catolicismo era mais influente, como a Espanha, os tons dos trajes se escureceram; as golas e mangas longas e os decotes cobertos indicavam um respeito mais rigoroso aos preceitos da fé. A cor e o luxo só seriam retomados nas sociedades católicas após a Reforma. Os protestantes levaram ao extremo a tendência de escurecer os trajes; suas roupas eram geralmente negras, com detalhes como golas e punhos brancos; tudo isso, com o objetivo de demonstrar modéstia e humildade perante Deus. Para diferenciar-se dos rivais, o catolicismo lançou-se na direção contrária e gerou a mais exuberante de todas as artes religiosas: o barroco. E a cor voltou a invadir os trajes nos países católicos – dessa vez, como forma de declarar visualmente a lealdade à Santa Sé. Com o passar dos séculos, veio o triunfo do livre trajar, mas os hábitos de vestuário em terras de maioria católica jamais se desvincularam totalmente da longa tradição que os conecta ao Trono de Pedro.

Segundo o curador da exposição do MET, Andrew Bolton, a relação entre religião, arte e vestuário vem se manifestando na criação de grandes estilistas desde o século XX, e segue forte no XXI: “Como curador, você está sempre interessado naquilo que instiga a criatividade e naquilo que está por trás da mente de designers e artistas. Eu nunca achei que fosse a religião. Eu nunca pensei que crescer como católico tivesse um impacto no desenvolvimento e nos impulsos criativos. Eu acho que um designer que cresceu nessa religião tem sim uma tradição narrativa inerente à tradição imagética. Ostensivamente, a mostra é sobre o imaginário católico, mas fundamentalmente, é sobre criatividade e o que a instiga. Nesse caso em particular, é a religião.” (Trecho de entrevista concedida à Vogue América) 

Se as referências ao catolicismo inspiraram nomes tão tradicionais como Coco Chanel, Cristóbal Balenciaga e Elsa Schiaparelli, o legado foi seguido por outros tantos como Gianni Versace, John Galliano e a dupla italiana Dolce and Gabbana. Trajes inspirados no imaginário católico realizados por esses designers podem ser vistos na exposição do MET, em salas ambientadas com suas possíveis fontes de inspiração, que vão desde estátuas de anjos barrocos até vestes religiosas cobertas de ricos bordados. 

Dessa maneira, percebemos que as fontes para inspiração, imaginação e criatividade advindas da iconografia católica parecem mesmo inesgotáveis. Os trajes religiosos ainda carregam muito do passado e da tradição que representam se comparados com os trajes mundanos contemporâneos. Essas vestes são, quem sabe, propositalmente destoantes da atualidade, a fim de dar a seus portadores um ar de santidade vindo de um passado longínquo. Diversos são os símbolos católicos que tornaram-se tendência na moda, como a cruz. Mesmo as imagens de anjos e santos e da própria Virgem acabam por estampar coleções de vestidos da alta costura, como a mostra do MET destaca. A moda afirma assim seu lugar no mundo profano, ousada e capaz de trazer para as passarelas e as ruas os símbolos milenares de devoção.

Laura Ferrazza é doutora doutora em História da Arte pela Sorbonne/PUCRS e pesquisadora do PPG de História da UFRGS