Meu querido diário: por que o escrevo?

Meu querido diário: por que o escrevo?

Além do argentino Ricardo Piglia, a arte de escrever diários foi uma constante para escritores como Bertold Brecht, Franz Kafka, Adolfo Bioy Casares e Cesare Pavese.

Estado da Arte

26 de julho de 2019 | 17h00

por Júlio Pimentel Pinto

Você e eu já escrevemos um diário. Pode ter sido na infância, na adolescência ou ainda ontem. Foi lá que lançamos as notas secretas das nossas aflições e empolgações, dos medos e desejos, da irritação momentânea ou da alegria que só com muita dificuldade cabia na escrita. Ou as anotações não eram tão secretas assim e o que desejávamos era que alguém folheasse as páginas e soubesse de algo que dificilmente teríamos coragem de lhe falar. Os termos que usamos no diário, os julgamentos que fizemos eram às vezes duros e categóricos, até cruéis. Ou apenas traduzimos a ansiedade em palavras ocas, que o interlocutor de papel assimilou sem resposta.

Ricardo Piglia em seu escritório. Foto: Reprodução

Nosso diário pode ter capa vermelha, azul, cor de rosa, preta ou amarela, dura ou não, cadeado na borda e uma chave minúscula que, anos depois, jamais reencontraríamos. Talvez tenha sido breve, brevíssimo, e abandonado no mesmo dia, logo depois das anotações iniciais. Ou prolongou-se e alcançou o presente, tornado memória física daquilo que se esfumou da recordação na vertigem do dia a dia. 

Se ele ficou e chegou até o autor atingir cinquenta ou sessenta anos, a leitura pode ser constrangedora. Naquelas páginas amareladas, notamos a ingenuidade do passado, a precariedade da nossa compreensão, aqueles que fomos e, graças a Deus, deixamos de ser há tempos. Pode ser também surpreendente: como não me lembro mais daquela cena — beijo na boca, discussão acesa — que tomou três ou quatro páginas de caligrafia miúda? Por que não anotei nada sobre o dilema que ainda me apavora nos sonhos e que já ocupou sessões e sessões de análise?

A maior questão que o diarista enfrenta em qualquer tempo, na hora em que anota ou quando atordoado relê, é porém outra: por que, afinal, escrevi ou escrevo esse diário? A dúvida sobe à consciência ou se mantém subterrânea, sorrateira, mas está sempre ali. Porque um diário, afinal, é um livro sobre o nada — quem disse isso foi o crítico francês Gérard Genette, e ele tinha razão. Um diário é um amontoado de fragmentos esparsos, histórias truncadas, impressões vagas, uma microscopia do tempo. Com frequência, resvala para a filosofia de botequim, o desabafo bobo, a observação aleatória ou a narração delirante. Falta-lhe enredo, mesmo que acreditemos que sua trama é a da vida, condição prévia à existência em si do registro cotidiano. Entretanto a vida lhe é externa, transcorre com mais viço e dor do que o papel consegue acolher, mesmo quando o diarista, iludido, acredita que sua expressão imediata seja sincera.

Caso peculiar é o dos escritores que mantêm diários. Também eles perguntam-se e ensaiam respostas: por que escrevo um diário? Vários deles me cercam nesse instante, nas prateleiras do meu escritório, enquanto escrevo esse texto, num dia em que ainda não fiz qualquer anotação nos meus diários: Bertold Brecht, Franz Kafka, Adolfo Bioy Casares, Cesare Pavese. O argentino Ricardo Piglia é meu diarista favorito. Começou a escrever aos dezessete anos e prosseguiu por quase seis décadas. Pelo menos é isso que ele afirma nos três volumes de Os diários de Emilio Renzi, que publicou quando já passava dos setenta, entre 2015 e 2017 — o último volume saiu meses depois de sua morte. 

A história dos diários de Piglia é complexa e dezenas de pesquisadores hoje a discutem nas minúcias, decifram a letra dos cadernos que ele legou ao acervo da Universidade de Princeton e desconfiam de muito do que ele disse-nos e sobre os diários. Não sabem, por exemplo, se ele começou mesmo a escrevê-los aos dezessete ou antes disso, nem se o que consta dos volumes publicados é cópia fiel, ou aproximada, do material incluído nas anotações originais. Sequer têm certeza se a quantidade de cadernos acumulados na vida é mesmo 327 — tal como Piglia declarou para o documentarista Andrés di Tella, que filmou parte do processo de releitura e edição dos diários —, é muito menos ou muito mais.

O leitor comum — você e eu, que escrevemos diários e, vez ou outra, espreitamos diários alheios — pode guardar distância das dúvidas dos especialistas, mas se fascina igualmente com muito do que encontra nos diários de Piglia. Em primeiro lugar, intriga-se com o título: se são de Ricardo Piglia, por que se intitulam “diários de Emilio Renzi”? Em seguida, estranha a variação das vozes que aparecem nas páginas dos três livros: parte é escrita em primeira pessoa, parte em terceira pessoa. 

Sabemos que o escritor chamava-se Ricardo Emilio Piglia Renzi e que Piglia recorreu ao nome Emilio Renzi para assinar textos de crítica e batizar um personagem frequente em sua ficção — a ponto de alguns críticos afirmarem que Renzi era seu alter ego —, mas isso não resolve o problema. Mais significativo é que no jogo Piglia-Renzi o enunciador duplica-se e ganha espessura, divide-se e observa a própria trajetória ora de dentro, ora de fora: constrói a gênese e a consciência de si. Também por isso os volumes publicados misturam o registro do dia a dia com textos ficcionais, citações de outros autores, listas e análises explicitamente feitas muito tempo depois. 

A combinação de vozes e de materiais alerta o leitor: há algo de ilusionismo no que ele supunha a pura verdade da vida. Certo que os tempos verbais são empregados com insistência no presente — o que é coerente com a impressão de que os fatos sejam transcritos à medida que ocorrem — e a linguagem soa muitas vezes cifrada, privada, um idioleto. No entanto, os diários estão aí, dados ao leitor, disponíveis. A intimidade transitou para o campo público, o específico tornou-se geral, os significados do que foi vivido foram reconstruídos conforme as anotações guardadas eram selecionadas — algumas excluídas, outras alteradas — e editadas para que os diários fossem publicados. As anotações originais, que antes compunham “blocos de existência” separados, agora organizavam-se numa forma mais ou menos lógica e ofereciam trilhas para que o leitor construísse o enredo da vida do narrador: a partir de “um núcleo básico que se irradiava” surgiam “diferentes níveis de um mesmo relato”.

Um diário organizado e tornado público responde à questão: escrevo para que depois o leiam, saibam das leituras que fiz, de como me tornei escritor. Piglia vai além e diz que só se tornou escritor porque um dia começou a escrever seus diários. Condiciona assim a sólida ficção e a crítica que o consagraram à volatilidade das anotações dos dias passados. Adequa-se às dinâmicas do tempo. Enquadra as marchas e contramarchas da vida privada no universo alastrado da história. 

É bem provável (e desejável) que jamais leiam o querido diário em que anoto minhas idiossincrasias, nem aquele a que você, leitor, recorre para guardar vestígios da vida. Justamente por isso, o que justifica os diários de Renzi não justifica os nossos e a questão insiste: por que os escrevemos? 

No romance Respiração artificial, que publicou em dezembro de 1980, Ricardo Emilio Piglia Renzi usa como epígrafe dois versos de T.S. Eliot: “vivemos a experiência, mas perdemos o significado, / E a proximidade do significado restaura a experiência”. Talvez neles encontremos alguma explicação para nossos disparatados registros cotidianos: escrevemos diários para um dia possamos relê-los. Neste dia, passado o desconforto e o constrangimento que sempre marca a relação conflituosa que sustentamos com aqueles que fomos, restauramos a experiência que antes vivemos. Ela retorna “sob forma diversa”. E então vislumbramos ou supomos vislumbrar algum significado da vida: da nossa e da dos outros.

Júlio Pimentel Pinto é professor no Departamento de História da USP e autor, entre outros, de ‘A pista e a razão: uma história fragmentária da narrativa policial’ (e-galáxia, 2019).

Nota:

Os diários de Emilio Renzi foram publicados, em espanhol, pela editora Anagrama, de Barcelona, entre 2015 e 2017. Aqui no Brasil, já saíram os dois primeiros volumes: Anos de formação (2017) e Os anos felizes (2019), pela editora Todavia, com tradução de Sérgio Molina. O terceiro (Um dia na vida) é previsto para 2020.

O documentário de Andrés di Tella chama-se 327 cuadernos (2015).

O poema citado de T.S. Eliot é “The Dry Salvages” (1941) e a tradução utilizada no texto foi feita por Ivan Junqueira para o volume 1 da Obra completa, publicada pela editora Arx, em 2004.

 

 

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