Menos histeria, menos gritaria: lições de História a partir de Getúlio Vargas

Menos histeria, menos gritaria: lições de História a partir de Getúlio Vargas

Entender a História requer concentração e silêncio

Estado da Arte

19 Novembro 2018 | 19h00

por Vinícius Müller

Há uma duplicidade, mesmo uma ambiguidade, que de tempos em tempos a História nos revela. Isso porque a dificuldade em definirmos os parâmetros temporais que nos possibilitam o melhor entendimento sobre o que já ocorreu é frequente. A ela misturam-se a memória e os rancores de cada espectador, assim como a intenção muito particular de cada um de nós ao voltarmos nossos olhares ao passado. Assim, alguém que em nossos dias queira estabelecer uma reflexão acerca, por exemplo, dos resultados sociais do processo de industrialização ocorrido na Inglaterra em fins do século XVIII e início do seguinte, poderia fiar sua construção intelectual e seu conhecimento no longo processo de formação da classe operária britânica anterior à industrialização propriamente dita. Esta formação, secular, envolveu a criação de regras formais, de tradições e de uma mentalidade que, em 1848, Karl Marx identificava como sendo favorável à revolução proletária que desejava e previa. Muito tempo depois, este processo nos foi revelado pela maestria de E.P. Thompson, em seu clássico A Formação da Classe Operária Inglesa, de 1963. O brilhante historiador inglês (e marxista), em sua descrição de uma longa história que culmina em 1848, revela o que, para muitos, descortina os antecedentes e a coerência da fotografia tirada pelo seu mentor alemão sobre o padrão de vida e de trabalho dos operários britânicos em meados do século XIX. Contudo, a depender de quem está, hoje, percorrendo tal trajetória, será mais significativo se concentrar não nos antecedentes e na história da formação da classe operária britânica, tampouco na fotografia tirada por Marx – que revelava as péssimas condições a que os trabalhadores fabris estavam submetidos-, mas, sim, no que aconteceu com a classe operária depois disso. Neste caso, poderá concluir que menos de cem anos depois do apelo de Marx (“trabalhadores do mundo, uni-vos!”), a vida, o padrão econômico, a sociabilidade e a inclusão da classe operária aos cercos e possibilidades do capitalismo contemporâneo foram maiores e melhores do que previra o filósofo germânico.

Diante dessas possibilidades, é razoável que as reações aos eventos, personagens e inflexões pretéritas se revelem em uma grande variedade de humores e acusações no presente. Também, que esclareçam as preferências daqueles que, a partir de uma fotografia do passado, reconstroem a trajetória que nos levou até ela. Ou, por outro lado, aquele que a partir da fotografia, projeta o que ocorreu depois dela. No final, não sabemos bem se a Revolução Industrial promoveu um empobrecimento e uma descaracterização dos trabalhadores britânicos, culminando na terrível análise feita por Marx em 1848 ou se, diferentemente, potencializou a riqueza e o padrão de vida de todos, inclusive dos operários, como defendido por Dierdre McCloskey quase dois séculos depois.

Estas confusões muitas vezes revelam, além da dificuldade em determinarmos os parâmetros da História que queremos contar, a limitação imposta pelos olhares particulares e muitas vezes pessoais que assumimos quando misturamos História e Memória. Ao somarmos os dois problemas, temos que, a depender da nossa memória (ou da memória que recebemos) olharemos para um evento histórico a partir daquilo que fez com que ele ocorresse ou, por outro lado, o que depois dele ocorreu. Por isso é tão difícil determinar com convicção e honestidade intelectual se, por exemplo, Getúlio Vargas fez uma Revolução em 1930 ou se foi o líder de um golpe. O que o colocou no governo foi um golpe. O país que dali surgia representava uma revolução.

Getúlio Vargas pode ser um bom personagem para avaliarmos tamanhas dores e delícias da História. Ascendeu à presidência em 1930 a partir de um golpe, com apoio de partes consideráveis dos militares e da sociedade civil, que impediu a posse do vencedor da eleição presidencial ocorrida no mesmo ano, o paulista Júlio Prestes. Desconsiderou por completo a Constituição então vigente, aquela promulgada em 1891, e governou de modo provisório por quatro longos anos. Submeteu-se a uma nova Carta, a de 1934, promulgada por uma Assembleia e que continha, inequivocadamente, elementos da social-democracia. Suspendeu a mesma Constituição um ano depois, espremido entre duas tendências políticas não democráticas que se aproveitavam da liberdade garantida pela formalidade democrática para tentar derrubá-la. A primeira vítima foram os comunistas, que em 1935, após terem o partido  que os abrigava interditado pelo presidente, promoveram uma frustrada tentativa de golpe, a Intentona Comunista. Aliás, o argumento anticomunista continuou sendo um dos preferidos de Vargas, que o usou para dar um autogolpe  em 1937, se transformando em ditador. Em 1938, um ano após o golpe do Estado Novo, colocou na clandestinidade a Ação Integralista Brasileira, versão tupiniquim e quase folclórica do fascismo que, até então, apoiava o ditador em sua cruzada contra os comunistas.

Alguns anos depois, já em meio a Segunda Grande Guerra, Vargas e alguns de seus auxiliares mais próximos insinuaram a possibilidade do país de se aproximar da Alemanha nazista. Contudo, ao fim e ao cabo, o Brasil lutou ao lado dos Aliados, grupo que tinha EUA e a ex-URSS, juntos, contra o nazi-fascismo. Em 1945, cambaleante frente à contradição aparente de ter lutado contra as ditaduras europeias, mas manter uma ditadura doméstica, Vargas foi apeado do poder por outro golpe, agora contrário a ele. Contudo, boa parte da população entendia que tamanha contradição não era suficiente para derrubar o presidente e/ou proibi-lo de ser candidato à presidência neste novo período democrático que se abria. Entre os apoiadores do movimento queremista (queremos Vargas!) estavam os comunistas. Os mesmos que, anos antes, foram perseguidos por Vargas em sua sanha autoritária e centralizadora.

Cinco anos depois, já na década de 50, Vargas voltava à presidência, pela primeira vez eleito por voto popular. Estabeleceu um novo campo de disputa política ao fundar a Petrobrás, em 1951, que opunha os nacionalistas aos entreguistas. Os primeiros, aliados do presidente, defendiam a estatal petrolífera contra os supostos interesses imperialistas, bem ao sabor do debate internacional da época. Já o segundo grupo, defendia a entrada de capital estrangeiro em setor estratégico, o que lhe valeu o pejorativo qualificador de entreguista. A soma entre nacionalismo, recusa ao capital estrangeiro e avanço da legislação trabalhista (a CLT foi criada por Vargas ainda durante a ditadura do Estado Novo) fez do gaúcho de São Borja uma espécie de ‘herói da esquerda brasileira’. A ambiguidade é latente:  o ‘herói da esquerda’ era o mesmo que, poucos anos antes, perseguia e prendia comunistas, justificando o ‘perigo vermelho’ como suficiente para se tornar um ditador.

Tamanha ambiguidade se revelara anos depois, quando João Goulart, herdeiro do trabalhismo e do nacionalismo varguista foi visto por boa parte da sociedade brasileira como um comunista. O golpe de 1964 foi amplamente apoiado por aqueles que carimbavam em Jango a pecha de comunista. Tanto quanto criticado por aqueles que também concordavam que Jango era um comunista. Ou seja, de um lado e de outro, o golpe de 1964 contra o governo do varguista João Goulart foi entendido a partir de um parâmetro inverídico: Jango não era comunista. Mas, para muitos, caiu porque era ou parecia ser um.

Depois de tantas décadas, ainda sofremos com interpretações quase histéricas sobre o que fez Vargas virar o que virou e sobre o que ocorreu após sua marcante passagem pela presidência. Para alguns, um ditador que impediu por muitos anos o avanço da democracia no país, além de criar o populismo. Para outros tantos, o presidente que criou a indústria e os direitos sociais no país. Há também aqueles que apontam para sua simpatia ao fascismo e perseguição aos comunistas. E, mais alguns que louvam sua contribuição ao nacionalismo e ao trabalhismo.

Em uma sobrenatural hipótese de uma candidatura de Vargas à presidência no início do século XXI, com qual versão ficaríamos: com a do populista?  Com a do ditador? Com a do simpático ao fascismo? Com a do inimigo de comunistas? Com a do nacionalista? Com a do trabalhista? Com a do ‘herói da esquerda? Todas elas são verdadeiras. Por isso, todas são parcialmente falsas. Para quem quiser assumir uma das versões, há um conselho útil: não grite tanto. Possivelmente sua versão é parcial e, por isso mesmo, concomitantemente verdadeira e falsa. Esta histeria só atrapalha nosso entendimento e reforça nosso pouco conhecimento sobre a História. Ou, pior, que só conhecemos a parte que corrobora alguns particulares modos de pensar. A histeria é a inimiga da História e, por isso, é a inimiga do presente e do futuro. Menos histeria, menos gritaria: entender a História requer concentração e silêncio.

Vinícius Müller  é doutor em História Econômica pela USP e professor do Insper.