“Manchester à Beira-mar” e a dor que não tem cura

“Manchester à Beira-mar” e a dor que não tem cura

Estado da Arte

10 de fevereiro de 2017 | 11h26

Por Jeffis Carvalho

Espelho de uma sociedade que celebra o vencedor, mas também se abre para a possibilidade da segunda chance, o cinema americano dificilmente abre mão de fórmulas que possam confirmar ambos. No cinema de Hollywood, aquele a quem é concedida a segunda chance não pode desperdiçá-la. Aposta-se, aqui, e sempre, na consagrada jornada do herói. E se o herói pode conquistar a recompensa, que lhe seja, então, concedida a ressurreição da sua história. E quando essa história é comprometida pelo trauma, pela mais profunda e dilacerante dor que se pode sentir, o herói precisa conquistar a redenção.

Contrariando tudo isso, Manchester à Beira-mar (em cartaz nos cinemas) empacota a velha fórmula e a atira pela janela. Não, não há e nem é possível algum tipo de redenção para Lee Chandler, magistralmente interpretado por Casey Affleck. Irmão mais novo de Ben Affleck e muito talentoso, Casey concorre ao Oscar de melhor ator, é um dos favoritos, mas surpreendentemente perdeu o prêmio do sindicato dos atores para Denzel Washington (Fences).

Aposentos à beira-mar de Edward Hopper

Aposentos à beira-mar de Edward Hopper (1951).

Na história, tão comum em seu drama, mas dilacerante na forma como nos é contada, Lee Chandler é forçado a retornar para sua cidade natal. Ele trabalha em Boston como um zelador faz-tudo e volta à Manchester by The Sea (a cidade realmente tem o beira-mar em seu nome) para tomar conta de seu sobrinho adolescente. O pai do rapaz, seu irmão, morreu precocemente. O retorno fica realmente complexo quando Lee se vê novamente diante dos motivos que o fizeram ir embora, alguns anos atrás. A partida de Lee se deu após uma grande tragédia que se abateu sobre sua vida, e que só conhecemos em toda sua dimensão lá pela metade do filme.

A originalidade do diretor e roteirista Kenneth Lonergan é estilhaçar não só a consagrada fórmula da redenção mas, principalmente, a própria forma do filme. Dramaturgo respeitado, Lonergan dirige o seu terceiro filme imprimindo-lhe um tratamento tão diferenciado que percebemos a intenção de conceber quase um tratado anti-clichê. A cada cena ele nos surpreende; quando nos vemos diante de um momento que pede compaixão – nossa e dos antagonistas – eis que os dois personagens centrais tio e sobrinho – saem com tiradas típicas de um humor simples, mas refinado o bastante para ser o contraponto perfeito e evitar que acabemos nos debulhando em lágrimas. O clima do filme é pesado, mas a sua narrava flui de forma simples, direta, muitas vezes até mesmo leve – se é possível haver leveza nessa história trágica de Chandler em suas várias facetas de filho, pai, marido, irmão e tio.

Com uma narrativa aparentemente linear, mas que aos poucos vai sendo implodida, Lonergan nos leva a (re)viver com Lee Chandler a sua tragédia. Quando o primeiro flashback surge na tela, temos um certo estranhamento porque não fica claro de que tempo se trata, se aquilo é o passado ou não. Dali por diante, esse passado vai surgindo como se fosse presente. Esse embaralhamento do tempo cumpre, então, a sua função narrativa e revela a proposta original do  diretor. Ao superar a linearidade da narrativa, aproximam-se passado e presente de tal forma que tudo vira presente. A conclusão é mais uma vez devastadora porque entendemos que nem o tempo pode curar essa dor incomensurável.

Na impressionante sequência em que nos damos conta da tragédia de Lee, Lonergan nos faz viver com ele as suas dolorosas lembranças. Aqui, o diretor trabalha a trilha sonora com o famoso Adagio de Albinoni, um forte clichê melodramático. Mas consegue fazê-lo de forma tão original que aos poucos a música nos parece nova em sua pungente tristeza. Ao som do adagio, os cortes secos  nos levam de um tempo a outro; vamos do presente para o passado, e deste de volta aos dias de hoje. Tudo passa pelo rosto, pelos ombros, pela respiração, pelo corpo de Casey Affleck, em uma excepcional interpretação, digna de antologia.

Camada após camada, mais do que na vida de Lee, penetramos pouco a pouco em sua alma e, de repente, nos damos conta que compartilhamos com ele a sua dor. O efeito é avassalador. Para ele e para nós. A segunda chance de Lee, aquela que surge para redimi-lo, não é suficiente para fazer com que ele supere a dor. O que o filme nos diz, na contramão do drama clássico americano, é que nem sempre se consegue curar a dor. Alguns traumas nos atingem de forma tão definitiva que não há saída. Não há superação. Nem toda dor da alma tem cura.

Jeffis Carvalho é jornalista, roteirista, cinéfilo e consultor de comunicação.

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