Lugar de fala: o novo apartheid enunciativo?

Lugar de fala: o novo apartheid enunciativo?

Em que medida a utilização estratégica do ‘lugar de fala’ por grupos identitários tem produzido efeitos contrários aos pretendidos, inibindo a solidariedade e gerando antipatia social.

Estado da Arte

10 de dezembro de 2018 | 19h00

 

por Isabelle Anchieta de Melo

Recordo-me, nitidamente, da introdução do conceito de “lugar de fala” no curso de jornalismo. Daríamos ‘voz’ à vivência concreta de pessoas pertencentes a grupos subalternos. Olhando diretamente para a câmera; falando livremente e, conduzidos apenas por questões pontuais, as pessoas, até então invisíveis, teriam sua existência pública restituída. Era a emergência de uma voz titubeante, aprendendo a rasgar o silêncio histórico.

Em uma das entrevistas que realizei, entreguei o gravador a ‘Jaque’, a pequena com então 13 anos, viciada em crack que se oferecia sexualmente a traficantes em troca de umas minúsculas pedras. Incentivei-a a sair de minha zona de observação e gravar livremente suas experiências. O que ela disse? Cantou músicas sem sentido e nada mais, como se estivesse a me mostrar o quão tolo era o intento.

Ainda assim fui, por um bom tempo, uma das entusiastas do ‘lugar de fala’. Fiz reportagens com meninos de rua, presidiários e integrantes do MST utilizando a ‘metodologia’. Mas com a experiência e o aprofundamento dos estudos em Sociologia, aprendi que um antídoto, utilizado em doses equivocadas, é tão deletério quanto o veneno contra o qual se luta. É preciso acertar a dose, encontrar o difícil equilíbrio para não reproduzirmos o mal que queremos combater.

A ideia de ‘lugar de lala’, ao que tudo indica, foi gestada pela professora indiana Gayatri Spivak no artigo “Pode o subalterno falar?”[1],publicado em 1985 (publicado no Brasil em 2010 pela editora UFMG).  O texto é um chamado crítico ao papel dos mediadores que detêm a palavra nas discussões de problemas sociais: sociólogos, intelectuais e jornalistas.  Ela questiona até que ponto somos cúmplices, ainda que inconscientes, de uma perspectiva ocidental cuja tendência é a objetificação dos subalternos, terceiro mundistas, orientais e, sobretudo as mulheres, como Outros. Para Gayatri, seria preciso ultrapassar o que chama de “elitismo colonial, burguês e nacionalista” e, contrariamente a isso, citando Deleuze, tentar “estabelecer condições nas quais os subalternos sejam capazes de falar por si mesmos”[2]. Se autoapresentarem e se expressarem. A única forma de evitar “o abalo da soberania subjetiva”[3]é restituir ao sujeito a sua singularidade humana.

A proposta ecoa na academia a partir dos anos 1980. O chamado é acolhido por professores e alunos, os futuros profissionais das ciências humanas. O terreno político também dá espaço para a ideia florescer no País. Gradualmente, os grupos identitários organizam-se[4]com apoio (até então) da sociedade em geral.

Nada mais natural e justo, não fosse a deformação de uma “proposta inclusiva em uma estratégia política de exclusão”[5]─cometendo, pelo avesso, o erro que tanto criticam. Explico-me: uma coisa é dar espaço para que os que não tinham voz falarem, outra bem diferente é esse mesmo espaço ser agora condicionado ao silenciamento dos demais. O ‘lugar de fala’ acabou se tornando uma arma retórica de impedimento de atores tidos como privilegiados no espaço público. Os brancos, os homens, os heterossexuais e os abastados passam a ser deslegitimados como personae non gratae. Mesmo internamente, dentro dos grupos identitários, uma série de marcadores de diferenças cria uma hierarquia velada: se a mulher é negra e pobre, ela tem autoridade; se branca e com condições financeiras, não. No limite, são impedidos de falar e hostilizados ─mesmo quando apoiam a causa em questão, e isso me parece um grande equívoco.

Infelizmente, o uso dessa estratégia não se restringe, como alguns intelectuais tentam crer, a internautas raivosos que se apropriaram equivocadamente do termo. Em um evento comemorativo do Dia Internacional da Mulher, presenciei uma das palestrantes, doutora e professora de filosofia, impedir que um homem fizesse uma pergunta ─com o consentimento das demais. A professora afirmou ser aquele um gesto “educativo, exemplar, para que ele sentisse na pele o que elas sentiram por tanto tempo”. Depois disso, nenhum outro homem atreveu a se manifestar. Muitos se retiraram do evento. Hoje me arrependo de não ter feito o mesmo ─solidarizando-me com aquela pessoa que foi silenciada. Naquele momento, senti-me incomodada e só aos poucos pude dar sentido ao que já intuía.

O lugar de fala é apartheid pelo avesso. Uma segregação enunciativa de uma suposta maioria privilegiada.  E o pior: é uma estratégia improdutiva para os próprios grupos identitários. Há um ressentimento histórico de fundo. Uma vingança. Aprendi com a jovem Malala, em um singelo conselho dado por seu pai, que a “vingança é uma pedra que nunca se desgasta”. E se é ela o que move a transformação, tende-se a um impasse logo adiante. O espaço de ascensão desses movimentos identitários é limitado até o momento em que seus solidários apoiadores passem a se perceber como vítimas dele.

Os adeptos do ‘lugar de fala’ não perceberam que seu ‘voo é de galinha’, pois a única possibilidade de realizar uma profunda mudança de mentalidade é pela empatia e pela solidariedade; não será por meio da vingança e da exclusão. Essa é apenas capaz de dividir a sociedade e criar uma guerra de cem anos, condenando-nos a viver um círculo vicioso.

Quem sabe “a grande lição que temos a aprender não é sobre nós mesmos, sobre como nos definimos, nossos afetos, sensibilidades e interseccionalidades, mas é lutar pela justiça social dos outros e pelos outros”, segundo o sociólogo Mark Lilla. Em outras palavras, menos políticas das identidades no stricto senso e mais política no lato sensu, como a arte de unir as pessoas.

Sem a empatia, sem apiedar-se de uma dor que não lhe pertence, não há transformação social (estrutural). Não há o reconhecimento pleno do outro. É preciso algum grau de comunhão para forjar a coesão social. Por isso, prefiro a empatia ao lugar de fala. A compreensão da dor do outro, por meio de experiência similar, à compreensão nenhuma. Prefiro pensar a raça humana, àquela dividida por cores. O gênero humano, à divisão sexual. É urgente reconstituir um ‘novo humanismo’ no qual os indivíduos sejam contemplados individualmente, mas simultaneamente reconhecidos em sua igualdade: o individumanismo[6].  Uma noção que rompe as categorias intermediárias de sexo, cor, etnia e preferência sexual, por compreender que nenhum de nós é igual, que cada um tem uma trajetória muito singular, mas todos podemos ter a humanidade em comum.

Isabelle Anchieta de Melo é doutora em Sociologia pela USP, jornalista, mestre em Comunicação Social pela UFMG. Recebeu prêmio como Jovem Socióloga brasileira pela Associação Internacional de Sociologia com apoio da UNESCO.

[1]Gayatri Spivak, Pode o subalterno falar? (Editora UFMG, 2010, tradução de Sandra Regina Goulart Almeida, Marcos Pereira Feitosa e André Pereira Feitosa)

[2]Idem.

[3]Idem.

[4]  Para saber, mais recomendo: Maria Amélia de Almeida Teles, Breve história do feminismo no Brasil, 1999;  Heleieth Saffioti, A mulher na sociedade de classes: mito e realidade,1969, e Mariza Corrêa, Do feminismo aos estudos de gênero no Brasil: um exemplo pessoal, 2001.

[5]Francisco Bosco, A vítima tem sempre razão?,2018.

[6]O neologismo foi desenvolvido em minha tese de doutoramento intitulada Imagens da Mulher no Ocidente Moderno, que será publicada pela EDUSP em 2019.