Luciano de Samósata, “Diálogos das Meretrizes”

Luciano de Samósata, “Diálogos das Meretrizes”

Gabriel Nocchi Macedo, da Universidade de Liège, apresenta Luciano de Samósata, grande nome da literatura satírica da Antiguidade, em tradução do grego para o Estado da Arte.

Estado da Arte

27 Maio 2018 | 16h31

por Gabriel Nocchi Macedo

Originário da cidade síria de Samósata, capital da província romana de Comegena (atual Samsat, no sudeste da Turquia, às margens do rio Eufrates), Luciano (c.120 – 180 d.C.) foi um dos mais prolixos prosadores de língua grega da época imperial; mais de oitenta obras atribuídas ao autor foram conservadas. Ilustrando-se em diversos gêneros – tratados, diálogos, cartas e narrativas ficcionais (incluindo o primeiro romance de ficção científica da literatura ocidental) – Luciano teve um grande renome na Antiguidade, graças ao seu estilo elegante e sua verve satírica, com a qual criticava, a religião, superstições, filosofias e costumes do seu tempo. Entre suas obras mais conhecidas, os diálogos satíricos – um gênero que ele mesmo inventou – merecem uma atenção particular. Neles, o autor dá a palavra a personagens-tipo conhecidos na tradição literária grega para retratar, e ridiculizar, o absurdo do comportamento humano. Esse gênero será retomado autores posteriores, sobretudo Giacomo Leopardi (1798 – 1837), nas suas Operette morali. Nos quinze Diálogos das Meretrizes, Luciano retoma o personagem da hetaira– a “prostituta de luxo” da Antiguidade, já presente nas comédias média e nova, e principalmente nas peças de Menandro – e cria cenas-miniatura (situadas em Atenas) nas quais são abordados, com ironia, algum moralismo e não sem uma certa misoginia, temas como amor, sexo, mas também status social, vaidade e ganância.

VI

Cróbila e Corina

 

CRÓBILA: Então, Corina, não é tão terrível passar de virgem a mulher quanto pensavas, agora o sabes. Estiveste com um belo rapazinho e ganhaste teu primeiro salário, uma mina[1], com a qual eu vou imediatamente te comprar um colar.

CORINA: Sim, mãezinha. E eu quero um que tenha pedras brilhantes como o fogo, como o da Filainís.

CR.: Ele será como queres. Escuta o resto que vou dizer, o que precisas fazer e como te comportar com os homens. Pois para nós não há outro modo de vida, minha filha. Esses dois anos desde que morreu teu pobre pai, não sabes como sobrevivemos! Enquanto ele era vivo, não nos faltava nada; ele era ferreiro e tinha uma boa reputação no Pireu. Pode-se ouvir todo mundo jurar que, depois de Filinos, com certeza não haverá um outro ferreiro. Após sua morte, primeiro eu vendi as pinças, a bigorna e o martelo por duas minas, o que nos sustentou por sete meses. Depois disso, tecendo, manipulando a trama ou girando a roca, eu mal conseguia comprar comida. Eu te alimentei, minha filha, esperando que a minha esperança se concretizasse.

CO.: Queres dizer a mina?

CR.: Não, mas eu calculava que, quando chegasses à idade que agora tens, tu poderias me sustentar e comprar enfeites com facilidade, e que tu serias rica e terias roupas de púrpura[2]e servas.

CO.: Como assim, mãe? O que queres dizer?

CR.: Frequentando rapazes e bebendo com eles e dormindo com elesem troca de pagamento.

CO.: Como Lira, filha da Dafnis?

CR.: Sim.

CO.: Mas ela é meretriz!

CR.: Não é tão terrível. Tu também serás rica como ela e terás muitos amantes. Porque estás chorando, Corina? Não vês quantas e quão desejadas são as meretrizes e quanto dinheiro ganham? Eu sei bem – pelo amor de Adrásteia[3]– que a filha da Dafnis se vestia com trapos antes de chegar à flor da idade. Tu vês como ela sai de casa, com ouro, roupas floridas e quatro servas.

CO.: E como a Lira ganhou tudo isso?

CR.: Primeiro, vestindo-se com elegância, comportando-se bem e sendo amável com todos, sem gargalhar por qualquer coisa como tu, mas sorrindo agradavelmente e de modo atraente; em seguida, gerindo habilmente suas relações, sem fingir se alguém vem até ela ou a manda buscar, mas também sem se jogar nos homens. Se ela é paga para ir ao um jantar, ela não se embebeda – isso é ridículo e os homens odeiam mulheres assim – e não se empanturra de comida grosseiramente. Ela pega com as pontas dos dedos pequenas porções em silêncio, sem encher as bochechas, ela bebe tranquilamente, sem gula, mas com calma.

CO.: E se por acaso ela tem sede, mãe?

CR.: Sobretudo nesse caso, Corina! E ela não fala mais do que o necessário e não caçoa dos convidados e só olha para aquele que a está pagando. Por tudo isso eles a amam. E quando ela tem que ir para cama, ela não é nem sem-vergonha nem indiferente, mas busca sobretudo uma coisa: seduzir o homem e fazê-lo apaixonar-se. É isso que todos elogiam nela. Se tu aprenderes tudo isso, nós também seremos felizes, pois em todo o resto, tu és muito melhor que ela –melhor ficar quieta, pelo amor de Adrásteia! Que tu vivas!

CO.: Dize-me, mãe, os clientes são todos como o Eucrito, com quem eu dormi ontem?

CR.: Não todos, alguns são mais agradáveis, outros mais viris, outros não são tão bonitos fisicamente.

CO.: E eu vou ter que dormir com homens assim?

CR.: Principalmente com eles, minha filha. Esses são os que dão mais dinheiro. Os bonitos querem somente ser bonitos. Tu deverás procurar sempre o que rende mais, se tu queres que em breve todas as mulheres te apontem do dedo e digam: “Não vês a Corina, filha da Cróbila, como ela é a mais rica e fez a sua mãe três vezes feliz?” O que dizes então? Farás tudo isso? Tu o farás, eu sei bem, e serás facilmente a melhor de todas. Agora vai tomar banho, caso venha hoje também o jovem Eucrito; ele prometeu.

 

XII

Jóessa, Pítias e Lísias

JOESSA: Tu te finges comigo, Lísias? Muito bem! Eu que nunca te pedi dinheiro e nunca te fechei a porta na cara quando vieste, dizendo que havia um outro dentro de casa, e nunca te forcei a enganar o teu pai ou roubar da tua mãe para me comprar qualquer coisa, o que as outras fazem. Mas, desde o início, eu te recebi sem pedir pagamento, sem salário. Sabes quantos amantes eu mandei embora? Teocleu, atual prítane, o capitão Pasião e o teu camarada Melisso, cujo pai morreu há pouco e que tem pleno direito sobre todos os seus bens. Eu te tinha como meu único Faonte[4]e nunca olhei para um outro, nunca recebi um homem que não fosses tu. Pois eu, idiota, pensava que era verdade o que tu me prometias. Por isso eu me dediquei a ti e fiquei casta como Penélope[5], apesar dos gritos da minha mãe que xingava na frente das suas amigas. Mas tu, desde que soubeste que eu sou tua e que me derreto por ti, tu começaste a brincar com Licaina na minha frente, para me fazer sofrer. Há pouco tempo, deitado ao meu lado, tu elogiavas Magidion, a harpista. Eu choro por tudo isso e me sinto humilhada. Recentemente, quando tu estavas bebendo com Trasão e Dífilo, a flautista Cimbalion estava junto e Piralís, minha inimiga, como tu bem sabes. Pouco me importa que tu beijaste Cimbalion cinco vezes, pois a ti mesmo que tu humilhas beijando uma mulher como ela. Mas quantos acenos tu fizeste a Piralís! Bebendo, tu lhe mostraste o copo, e quando o devolveste, disseste no ouvido do escravo que ele não o enchesse a menos que Piralís pedisse. No fim, tendo mordido uma maçã, quando viste Dífilo ocupado (ele estava conversando com Trasão), tu te abaixaste e com boa mira lançaste a maçã como um dardo nos seios dela, sem mesmo tentar te esconder de mim. Ela beijou a maçã e a colocou entre os seios, debaixo do sutiã. Por que tu ages assim? Eu por acaso te fiz alguma injustiça grande ou pequena? Ou te magoei? Por acaso encontrei um outro homem? Não vivo unicamente para ti? Não é excelente, Lísias, fazer sofrer uma pobre mulherzinha que é louca por ti? Mas existe uma deusa, a Adrásteia, que vê essas coisas. Talvez sejas tu que vais sofrer em breve, quando ouvires dizer algo sobre mim, que estou morta, que me enforquei com uma corda ou que me joguei de cabeça abaixo num poço, ou que encontrei algum outro modo de morrer, para não mais incomodar a tua vista. Assim triunfarás por uma façanha grande e gloriosa! Por que me olhas torto e ranges os dentes? Se me acusas de alguma coisa, fala! Pitiás aqui vai nos julgar. Então? Tu me abandonas sem dar resposta? Vês, Pitiás, o que eu sofro nas mãos do Lísias?

PITIÁS: Quanta crueldade! Nem as tuas lágrimas o comovem. Ele é uma pedra, não um homem. Apesar disso, se devo dizer a verdade, és tu, Joessa, que o estragaste, amando-o demais e mostrando que o amavas. Não devias tê-lo desejado tanto, pois os homens se tornam arrogantes quando se dão conta. Para, infeliz, de chorar, se acreditas em mim, fecha-lhe a porta umas duas vezes quando ele vier e o verás queimar de amor e enlouquecer de verdade por ti.

JO.: Não digas isso! Fora daqui! Fechar a porta ao Lísias? Se pelo menos ele não fosse o primeiro a ir embora.

PI.: Ele está de volta.

JO.: Tu acabaste conosco, Pitiás. Talvez ele tenha escutado quando disseste “fecha-lhe a porta”.

LÍSIAS.: Não é por ela que eu retornei, Pitiás, eu não poderia mais olhá-la, enquanto ela for assim. É por ti, para que não me acuses e digas: “Lísias é intransigível”.

PI.: Sem dúvida é o que eu dizia, Lísias.

LI.: Tu queres que eu suporte Joessa, Pitiás? Agora ela está chorando, mas eu mesmo a encontrei dormindo com um outro rapaz, me traindo.

PI.: Lísias, ela é uma meretriz afinal das contas. Como os surpreendeste na cama juntos?

LI.: Faz quase cinco dias, por Zeus, sim, cinco. Foi no dia dois deste mês e hoje é dia sete. Meu pai, sabendo que estava apaixonado há bastante tempo por essa moça virtuosa, me trancou em casa e mandou o porteiro não abrir. Mas eu, como não suportava não estar com ela, pedi a Dromão que se inclinasse na frente do muro do pátio, na parte mais baixa, para que eu subisse sobre suas costas, assim eu poderia facilmente escalar o muro. Por que eu estou contando tudo isso? Eu escalei, cheguei aqui e encontrei a porta do pátio cuidadosamente trancada, pois já era meia-noite. Eu não bati, mas levantando calmamente a porta – o que eu já tinha feito outras vezes – eu a tirei das dobradiças e entrei sem fazer barulho. Todos dormiam. Então, tateando a parede, eu cheguei até a cama.

JO.: O que dirás, Deméter? Estou agonizando.

LI.: Então, eu não notei apenas uma respiração. Primeiro, eu pensei que a Lídia estivesse dormindo com ela. Mas não era isso, Pitiás, mas tocando eu descobri um rosto sem barba, macio, a cabeça bem raspada e cheirando a perfume. Vendo isso, se eu tivesse vindo com a minha espada, não teria hesitado, fiquem sabendo! Por que vocês riem, Pitiás? O que eu te conto parece ser digno de risadas?

JO.: Foi isso então que te fez sofrer, Lísias? Era a Pitiás ela mesma que dormia comigo.

PI.: Não lhe digas, Joessa!

JO.: Por que não lhe dizer? Era a Pitiás, meu caro, que eu chamei para que dormíssemos juntas, porque eu estava triste de não te ter comigo.

LI.: A Pitiás era o homem com a cabeça raspada? E desde então, em cinco dias, cresceu-lhe toda essa cabeleira?

JO.: Ela raspou-se por causa de uma doença, Lísias, pois os cabelos estavam caindo. Agora ela pôs uma peruca. Mostra, Pitiás, mostra como é, convence-o. Olha o rapazinho, o amante de quem tinhas ciúmes!

LI.: Eu não deveria ter, Joessa? Eu te amo e o toquei eu mesmo.

JO.: Tu te convenceste agora, não? Queres que eu te faça sofrer? É justo que eu fique com raiva por minha vez.

LI.: Absolutamente não! Vamos beber agora, e a Pitiás conosco. É digno que ela participe dos brindes.

JO.: Ela participará. Como sofri por ti, Pitiás, o mais nobre dos rapazes.

PI.: Mas eu sou aquele que os reconciliou, então não te embrabeças comigo. Aliás, mais uma coisa, Lísias, cuida de não falar a ninguém sobre os meus cabelos!

 

 

Gabriel Nocchi Macedo é Pesquisador do Fundo Nacional de Pesquisa Científica, Bélgica

Universidade de Liège 

gn.macedo@uliege.be

[1]Unidade monetária grega, correspondente, em peso, a 100 dracmas. Trata-se de um valor elevado, considerando que, na Atenas clássica, o salário diário de um trabalhador qualificado era de um dracma.

[2]Obtida da tinta de moluscos do mar Mediterrâneo, a cor púrpura era, na Antiguidade, símbolo de riqueza, distinção e poder.

[3]Literalmente, “A Inescapável”, epíteto de Nêmesis, deusa da vingança.

[4]Na mitologia, barqueiro da ilha de Lesbos que, por ter transportado gratuitamente a deusa Afrodite disfarçada de velha, foi retribuído com juventude e beleza. A poetisa Safo teria se apaixonado por ele e, sendo rejeitada, se jogado ao mar.

[5]Mulher de Ulisses, célebre por sua fidelidade durante a longa ausência de seu marido.