Loucura judaica: não leia, veja Andy Kaufman

Loucura judaica: não leia, veja Andy Kaufman

Estado da Arte

24 Abril 2017 | 08h00

Por Thiago Blumenthal

Que sou notívago, talvez alguns poucos amigos o saibam. Durmo muito tarde e somente depois de um remédio que me faz apagar. Do contrário, não apago, ou melhor, minha mente não apaga, nem com 100 mg de Diazepam. Talvez um vinho mais encorpado, mas não bebo, bem, já faz um bom tempo. Do que é feito um vinho?

Detesto textos tão pessoais e este não é um deles, chamemos de autoficção, um gênero tão cultivado hoje por nossa literatura, e do qual mantenho uma ou outra reserva e algum distanciamento. Não importa, não teorizemos. Quem quer saber de teoria literária a uma hora dessa? No presente momento que escrevo, passam das 2h da manhã, acompanho com um pouco de apatia (isto é verdade, não é ficção ou autoficção) que o ministro do STF Edson Fachin iniciará uma longa investigação de uma longa lista de senhores e senhoras. Ouço o grande Joe Strummer berrar no meu fone de ouvido algo sobre alguma guerra civil que aconteceria em Londres ou Birmingham (não aconteceu, spoiler para quem reside em Marte) e penso o mesmo em São Paulo. Tenho amigas que certamente tirariam a parte de cima de suas indumentárias, peitos de fora, e jogariam seus Molotov no bairro onde moro, na universidade onde realizo as minhas pesquisas (no mesmo bairro), na pobre da minha mãe, sei lá mais o que essas moças fariam em uma guerra civil. Tá bom. Duvido. Essas meninas não fumam o mesmo cigarro que eu fumo.

E os homens, sempre tão mal vestidos, acima do peso, o que fariam diante do caos social? Nascemos no Brasil, não na Europa, não em Ancara. Somos tupinambás, não importa se judeus, europeus, brindemos nossas taças de vinho francês no bistrozinho escondido das massas (epa, eu não). Não estamos acostumados à barbárie. A barbárie está na base da loucura, e a geopolítica, termo hoje usado tão incorretamente, diz muito sobre a gente. Aqui, somos civilizados, não somos sérios, somos homens cordiais, temos um tanto de preguiça, e gostamos mesmo é de discutir com o taxista e depois contar e ganhar like no Facebook. Eta vida besta, meu Deus (devagar, as janelas olham, um homem vai devagar, um cachorro vai devagar, um burro vai devagar etc etc).

Lembro-me do meu avô, o único vivo que ainda tenho, que conheceu o mundo e me puxou pra me contar algo sobre como eu deveria encarar meu futuro. Não deu tempo nem de começar a contar, pois três chineses invadiram a casa bem naquele momento e ameaçaram metralhar todo mundo. O apartamento ficava na esquina da Bela Cintra com a Fernando de Albuquerque. Você sabe onde é. É um prédio bem bonito. Meu avô teve que dar aos chineses. Vida ou morte, sabe como é. Nos livros, na autoficção, eu teria conversado com os chineses, hoje com o meu mandarim básico, explicaria a situação do atraso dos uísques, esconjuraria Mao Tsé-Tung, e defenderia os cinco territórios como parte de uma única e forte China.

Jamais abra concorrência com chineses. Não sei se há algum chinês que conheça o termo autoficção. Meu avô decerto ignora o termo. Literatura para ele era Hemingway, que deu um tiro nos miolos depois de uma sessão de eletrochoque mal-sucedida. A arma preferida de Hemingway era uma Boss da Abercrombie & Fitch. Hemingway sobreviveu a uma queda de avião (tal qual meu avô, aliás, que era piloto, e sobreviveu a três quedas – meu pai nasceu no avião, trívia da família Blumenthal). Em um jantar com uma estudante da FFLCH o máximo que você tira dela é o seu drink favorito, Mojito, sua relação com Cuba yada yada yada. O que temos que aguentar (epa, eu não).

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O que isso interessa ao leitor deste nobre espaço – uso nobre com absoluta consciência – dentro do complexo mundo de notícias, opiniões, Fachins, sarins, colunistas muito melhores que eu? Eu não interesso sequer a mim mesmo e me espanta que haja algum leitor interessado em literatura ou no que eu tenho a dizer sobre literatura. Ou por que alguém gostaria de saber mais sobre autoficção? Leia um livro, como diz aquele povo chato do teatro. Indico tanta gente boa, entre eles, um autor que admiro há longo tempo, chamado Jacques Fux, cujo último romance Meshugá (José Olympio, 2016) é uma maneira de entrar nesse sistema próprio de escrita, e com a qualidade de um autor que tem o domínio de sua escrita. Mais do que um romance, temos ali um longo ensaio sobre a loucura sob um viés judaico que compila um mosaico real e inventado para construir o cerne da literatura, na minha opinião: na loucura, no relato que vem recoberto de ruídos e fantasias conscientes e inconscientes, despertamos todos para o que há além de nossa vida miserável.

Em minhas pesquisas sobre Marcel Proust, deparei-me com um relato médico datado de 1897, em A Higiene do Neurastênico. Vejam: “A evocação das memórias é defeituosa pois os neurastênicos não são capazes de manter o esforço de atenção necessário em busca da memória perdida”. A reflexão é do pai do Proust, Adrien, um bom tempo antes do filho começar a escrever vocês sabem bem o quê. Relaciono Proust com Fux não porque sejam autores que tenham estilos parecidos (apesar desse estilo que mescla narração e ensaio), mas por causa da loucura, inclusive deste que escreve, e que acha que alguém vai se importar. O que significa a loucura? Não vou ao dicionário, até porque não sou pago para isso. Ir ao dicionário é a prática mais destrutiva que as escolas já ensinaram a seus alunos. Nunca, jamais, vão ao dicionário. Optem sempre pela enciclopédia, jamais o dicionário. Parênteses pedagogo: a segunda pior coisa que os professores ensinaram é essa história de não repetir palavras. Podem repetir. Repitam à vontade. Repitam mesmo. Repitam até cansarem de repetir. Uma grande bobagem. E nunca confiem muito em seus professores. Escolha um ou dois. Seja seletivo. Evite os professores de história. Abomine os de educação física. Divago.

Quando divago e não apago, pro Estadão, penso no quão louco isso pode soar. Ou pode soar desleixo. Não é. Os últimos textos de Paulo Francis para este mesmo jornal eram completamente caóticos em seu estilo e em sua forma, e muitos deles me ensinaram a escrever, muito mais do que, com todo o respeito, meu professor de português, ou uma Clarice Lispector. Mas volto: o texto de Fux tem alguma relação com os fascinantes contos de Bashevis Singer, escritor iídiche, cujos muitos de seus personagens são atormentados por seus dybbukim, tanto internos como externos, daqueles que destelham casas, como meu avô (o outro) contava. E resvala em duas questões: 1. seria a loucura um produto judaico, com Freud?; 2. esse demônio interno ou externo (suponhamos, uma alucinação, se não quisermos ser muitos místicos) desperta, tal qual a levodopa trouxe a vida de volta aos pacientes catatônicos (um misterioso caso de encefalite letárgica) de Oliver Sacks na década de 1960, mas também tem um efeito rebote on-off de autodestruição? No caso judaico, “self-hating Jew” no contexto pós-Shoá, é um termo quase sinônimo que loucura, e isso, caro leitor, você não achará no dicionário.

Passam das 3h da madrugada e o shuffle toca outro judeu cheio de problemas, Serge Gainsbourg. A vida daquele rapaz, meu Deus. Gosto muito da filha dele. Mas em menos de uma hora de texto, mais um tantinho de revisão, já sou um outro, como diz aquele poeta francês que foi se aventurar no Oriente. Não era eu mesmo, Thiago, no começo, nem sou o mesmo personagem do começo do texto, e poderia me estender com mais histórias e um pouco de esquizofrenia forçada, que é o que jovens autores adoram fazer em literatura hoje. Já basta o terrível legado que aquele autor americano que usava bandana na cabeça nos deixou, chega. Vão ler Jacques Fux, assistir a Andy Kaufman, ouvir Jesus and Mary Chain, fazer algo mais importante de suas vidas. E divaguem bastante. Mas divaguem de forma inteligente, sem muito entusiasmo. Não se levem a sério. O sol, que ainda não sei se saiu no dia que este texto for publicado, saiu. Eu paro por aqui. Volto em alguns dias, menos louco.

Thiago Blumenthal é fundador da editora Lote 42 e doutorando em Literatura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.