Literatura e compromisso ideológico: notas sobre uma entrevista de Sergei Dovlátov

Literatura e compromisso ideológico: notas sobre uma entrevista de Sergei Dovlátov

Sem compromissos, a não ser com sua literatura e consigo mesmo, livre de sistemas ideológicos, filosóficos ou religiosos, sua única concessão foi à vida e à linguagem.

Estado da Arte

01 Junho 2018 | 18h00

por Flavio Quintale

Compromisso ideológico é sempre um tema recorrente quando se trata de literatura produzida em períodos e países totalitários. Mas ele pode existir também em países oficialmente livres. Isso se dá através da difusão e da promoção de obras e autores que interessam à ideologia dominante, qualquer que ela seja. Ao mesmo tempo, existe um tipo de literatura marginalizada, pouco difundida, totalmente desconhecida do grande público. Ela resiste em pequenos grupos, sem se preocupar com a aprovação da ideologia dominante.

Esse é um dos temas da entrevista de Dovlátov para o jornal ?????, publicada recentemente no terceiro volume das obras completas do autor pela editora russa ??????. Embora esteja em discussão a produção literária no ambiente soviético em oposição ao mundo ocidental e, em particular, nos Estados Unidos, o tema permanece atual. E permanecerá enquanto o compromisso ideológico estiver presente na literatura. Ou seja, sempre.

No conto “Sapatos da autoridade” (?????????????? ???????????) do livro A mala (???????) de Dovlátov, o protagonista avisa: “trabalho ideológico não é pra mim” (?????????????? ?????? ?? ??? ????). Não é por acaso que logo na abertura da entrevista o autor argumenta que há escritores que escolhem a literatura como profissão por diferentes motivos como, por exemplo, ganhar dinheiro, ficar famoso ou surpreender a família. Há, porém, uma pequeníssima grande maioria, parodiando Juan Jamón Jiménez, que não se enquadra nesse grupo. “Falo apenas dos autores que não escolheram essa profissão, mas que foram escolhidos por ela” (? ?????? ???? ? ??? ????????? ??????? ?? ???????? ??? ????????? ??? ???? ?? ???????).

O meio mais eficaz para se ganhar dinheiro e ficar famoso é aderir à ideologia, aceitar servir o compromisso ideológico vigente e promovê-lo. É o que se convencionou chamar de autores best-sellers, promovidos, sejam em países livres ou não, em nível local ou internacional, que, em via de mão dupla, são intensificados e intensificam o gosto do público pelas mesmas coisas. A padronização do produto ao gosto do público e o gosto do público em harmonia com a ideologia triunfante produz a sensação de satisfação, mérito e qualidade.

Na Rússia, tradicionalmente, os autores gozam de grande respeito e prestígio, ainda que isso tenha mudado bastante com a perda vertiginosa do status da literatura e o aumento avassalador da importância e da influência das estrelas da televisão, do cinema, da música e do futebol. “A Rússia tem uma tradição literária, e se podemos dizer, é um país de centro de pesquisa literária, onde a literatura, como a filosofia, tem a tarefa de dar a interpretação intelectual do mundo à volta e, como a religião, advoga para si o fardo de promover a educação moral do povo” (?????? ??????????? ???????????, ???? ????? ??? ?????????? – ?????????????????????? ??????, ??? ??????????, ??????? ?????????, ????? ?? ???? ?????? ???????????????? ????????? ??????????? ???? ?, ??????? ???????, ?????????? ?? ???? ????? ????????????? ?????????? ??????). Nesse contexto, a literatura, como a cultura em geral, funciona como veiculo de propagação de uma visão de mundo, Weltanschauung, e o autor tem papel determinante na produção desse espetáculo, ainda que como mero instrumento da difusão de tal visão. Seu compromisso ideológico voluntário, ou não, é recompensado com dinheiro, fama e prestígio. Isso não se restringe apenas à realidade soviética ou aos países totalitários, mas também ao ocidente teoricamente livre.

Autores norte-americanos são citados. Seus nomes pouco importam. O mecanismo repete-se a cada geração, exceção feita ao poeta Alain Ginsburg, sem dinheiro e incapaz de reunir pessoas para encher metade de uma sala, ao menos na época em que Dovlátov foi entrevistado. Um poeta que escreve apenas de acordo com o resultado obtido pelas suas poesias provavelmente compreendeu bem o sistema. Está inserido e legitimado. É uma opção possível. Quando a literatura, porém, escolhe sem pressa e sem interesse específico, e não é escolhida por qualquer motivo, não há desertor, nem compromisso ideológico que a vença.

Entretanto, Dovlátov não se coloca como um Quixote destemido e lunático. Admite que o desconhecimento de sua obra nos Estados Unidos, onde vivia exilado na época, devia-se também a erros que ele mesmo havia cometido como o de não correr atrás de “editores, editoras, agentes literários e estabelecer amizades próximas, encontros diários, conversas íntimas à meia-noite. As pessoas fazem negócios – falo dos norte-americanos – frios e reservados, mas conscienciosos e pontuais, sem a ternura russa, mas também sem suas trapaças” (??????????, ?????????, ???????????? ??????? ? ???????????? ???????? ??????, ??? ??????? ??????, ????????? ?????????? ??????????. ???? ?????? ???? – ? ?????? ?? ??????????? – ?????? ? ?????????, ?? ???? ????????????? ? ???????????, ??? ??????? ????????, ?? ? ??? ???????? ??????????????). Casos como do amigo Joseph Brodsky são raríssimos, praticamente únicos.

À parte a questão ideológica, o insucesso da maioria dos manuscritos ocorre, em primeiro lugar, pela sua má qualidade, ou pelo menos, pelo seu valor duvidoso. Em segundo lugar, mesmo que tenha qualidade, por falta de possibilidade mercadológica quando o tema não se adéqua aos desejos e às necessidades do mercado. Por não despertar o interesse ou por ser bom demais para ser absorvido. Dovlátov queixa-se da baixa tiragem das traduções dos seus livros nos Estados Unidos à época. Não era publicado na Rússia, até então.

Deixar a União Soviética e emigrar para o maior antagonista de sua pátria tem um único motivo, que o próprio Dovlátov deixa claro: “o único motivo de minha emigração foi a liberdade artística”. (???????????? ????? ???? ????????? ???? ?????????? ???????).  Não é uma adesão ao estilo de vida ou aos princípios econômicos, políticos ou culturais do mundo norte-americano, mas simplesmente a busca de um espaço onde lhe fosse permitido exercitar sua liberdade de pensamento, de criação, à qual nenhum escritor respeitável, ou artista em geral, está disposto a abdicar. “Nenhuma outra ideia me guiou, nem mesmo solicitei alguma coisa às autoridades: era vestido, alimentado, e enquanto tinha macarrão nas lojas soviéticas, jamais me preocupei com comida. Se fosse publicado na Rússia, não a teria deixado” (??????? ?????? ???? ? ???? ?? ????, ? ???? ???? ?? ???? ????????? ? ???????: ??? ????, ????, ? ?? ??? ???, ???? ? ????????? ????????? ????????? ?????????? ???????, ? ??? ?? ?????? ? ??????????. ?????????????????????, ??????????). No ocidente, o maior adversário, ou aliado, do escritor é o mercado. Tudo gira em torno dele, para ele e por ele.

Dovlátov, contudo, não escreveu, nem se preocupou substancialmente como o mercado. Escrevia por um motivo preponderantemente pessoal: “Escrevo para meus filhos, para que depois de me terem lido e compreendido, após minha morte, vejam que pai de ouro tiveram, e finalmente então passem a jorrar lágrimas de remorso de seus olhos americanos inocentes! ( ? ????? ???? ??? ????? ?????, ????? ??? ????? ???? ?????? ??? ??? ????????? ? ??????, ????? ? ??? ??? ??????? ??????, ? ??? ????? ??????? ?????????? ????? ????????? ?????? ?? ?? ????????? ???????????? ????!).

Entre os caminhos propostos, Dovlátov escolheu o menos trilhado. Sem compromissos, a não ser com sua própria literatura e consigo mesmo. Evidentemente a escolha trouxe incompreensões, provações e inúmeras dificuldades. Livre de sistemas ideológicos, filosóficos ou religiosos, sua única concessão foi à vida e à linguagem. Não há niilismo desesperado, mas simpatia na sátira e elegância no deboche.  Atitude corajosa a de viver e amar a vida em tudo que ela exige.

Trinta anos depois de sua morte Dovlátov se tornou um clássico da literatura russa. Sucesso de mercado. Lido, relido e discutido, enquanto que quase a totalidade dos autores com bolsos cheios, lidos, famosos à época, compromissados ideologicamente, pois, caso contrário, não seriam lidos, famosos e muito menos teriam os bolsos cheios, caíram no esquecimento. Talvez alguns ainda apareçam catalogados em manuais de literatura. Mas quem se importa?

Flavio Quintale é tradutor literário, bacharel em jornalismo e doutor em Letras pela USP e pela Universidade de Könstanz, Alemanha. Foi professor de Literatura Comparada na Universidade de Aachen, Alemanha. 

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