La La Land: a realidade não se corrige dançando

La La Land: a realidade não se corrige dançando

Estado da Arte

27 Janeiro 2017 | 16h01

Por Willian Silveira

Nada de novo sob o céu de Hollywood. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas anunciou os candidatos ao Oscar deste ano e, como esperado, La La Land confirmou ser o filme da estação – o trocadilho fica por conta do péssimo subtítulo nacional. Poucos dias após deixar o jantar do Globo de Ouro com 7 prêmios, incluindo Melhor Filme e Melhor Direção, o romance entre o pianista de jazz Sebastian (Ryan Gosling) e a aspirante a atriz Mia (Emma Stone) recebeu nada menos do que 14 indicações, igualando-se ao recorde de A Malvada (Joseph Mankiewicz, 1950) e Titanic (James Cameron, 1997).

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Mia (Emma Stone) e Sebastian (Ryan Gosling) em cena do elogiado La-la-land. (Foto: divulgação)

Na prática, La La Land é um bom filme. Agradável, competente e nostálgico, o musical apresenta uma roupagem moderna, sinalizada desde a sequência na abertura, e dialoga facilmente com a tradição – desde Vamos Dançar (1937), passando por Cantando na Chuva (1952), Os Guarda-Chuvas do Amor (1964) e Charity, Meu Amor (1969), até Moulin Rouge (2001) -, compondo uma homenagem ao gênero. Se as qualidades visivelmente superam os deslizes, aos poucos, porém, vemos a euforia da trajetória de sucesso e uma empenhada campanha de marketing transformarem o segundo longa-metragem de Damien Chazelle (Whiplash, 2014) em unanimidade. No Rotten Tomatoes, site que contabiliza avaliação de público e crítica, a média do musical supera a de Cidadão Kane (Orson Welles, 1941) e a de O Poderoso Chefão (Francis Ford Coppola, 1972). Para alguns, La La Land é o melhor musical de todos os tempos – quando não o melhor filme já realizado.

A onda de elogios desproporcionais gerou reações contrárias na mesma intensidade, pois se há algo em que as redes sociais estão engajadas é na missão de desfazer a ideia de consenso – qualquer um que seja. Posso entender as reivindicações acerca do enredo, dos que o tomam por algo frágil e pueril, e a crítica quanto ao ritmo, realmente desequilibrado. O argumento mais interessante, entretanto, repercutiu a partir de Rostam Batmanglij. Não exatamente pela sua perspicácia. Formado na Universidade de Columbia, o músico alegou que La La Land não serve como narrativa em pleno 2016. Segundo ele, o longa não conta sequer com um personagem gay; os negros, por sua vez, não têm papéis relevantes ou atuam como vilões: após inventarem o jazz, eles não precisam de um salvador branco (Ryan Gosling) para resguardar o gênero musical da extinção.

Em um movimento comum a partir da ascensão da teoria multiculturalista, Rostam observa bem mas conclui mal. O argumento se utiliza de uma demanda recorrente nas teorias narrativas clássicas, mas em vez de exigir verossimilhança como requisito essencial para a ficção, requer representatividade. Tanto Platão quanto Aristóteles se ocuparam do termo. O verossímil remete às ações possíveis de acontecer, não exatamente ao que acontece ou aconteceu. Em caráter genérico, a verossimilhança é importante pelo seu caráter mimético, ou seja, sua função primordial é a de assemelhar a ficção ao real, sem, no entanto, tornar a criação refém da realidade.

Para além de apagar uma distinção extremamente relevante, equivalente a ter um pesadelo à altura das insinuações de Jorge Luis Borges, responsável por uma literatura em que sonho e realidade são indistintos, Rostam se equivoca ao interpretar o contexto de La La Land. A obra de Chazelle não se propõe a ser sobre o jazz e sequer transcorre em meio à cena musical do início do século XX. Na trama, o jazz não passa de uma perfumaria conveniente, um elemento ficcional destinado a conduzir a relação entre Sebastian e Mia. O fato do músico ser branco é circunstancial. Paul Desmond, Bill Evans e Chet Baker estão aí para confirmar. O casal Gosling e Stone bem poderia ser o encontro de um escritor e uma pintora. Não haveria diferença. Sebastian canta e dança não por ser pianista, mas porque o filme é um musical. Basta lembrarmos que Geneviève  (Catherine Deneuve), a protagonista do clássico de Jacques Demy, é uma mera vendedora de chapéus, algo nada artístico, convenhamos. O importante em La La Land é o dilema dos protagonistas – persistir ou abandonar os sonhos que os uniram.

Por ingenuidade ou desatenção, Rostam confunde verossimilhança com representatividade. Aponta como problema ficcional o que, na verdade, é uma importante dívida social. Ao exigir que o filme seja de determinada forma, o músico pretende corrigir a vida por meio da ficção. No fundo, e por ser artista, anseia que a arte possa mais. Mas a História nos prova que tomar a arte por guia moral, na esperança de nos tornarmos melhores, é um dos nossos desejos mais antigos – assim como um dos nossos maiores equívocos.

 

Willian Silveira é editor da Revista Sétima e membro da Associação Brasileira de Críticas de Cinema.

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