Inteligências

Inteligências

A teoria das inteligências múltiplas expandiu a noção de inteligência na segunda metade do século XX.

Estado da Arte

15 Maio 2017 | 08h02

Por Felipe Pimentel

Alguns anos atrás, pude entrevistar o eminente psicólogo Howard Gardner, professor de Harvard e parceiro intelectual do também influente filósofo Nelson Goodman. Gardner foi o principal pesquisador e divulgador da teoria das inteligências múltiplas, que expandiu a noção de inteligências na segunda metade do século XX. Os psicólogos conceberam durante muito tempo a inteligência como uma habilidade intelectual, puramente cognitiva, de modo que até mesmo os testes psicométricos de inteligência (o famoso Q.I.) mediam majoritariamente capacidades lógicas, racionais e matemáticas. Porém, através de pesquisas e da prática clínica, os psicólogos perceberam que existiam outras formas de inteligência – artística, verbal, corporal, emocional, intrapessoal, interpessoal. Isso ampliou sua concepção de inteligência, segundo a qual podemos possuir ilhas de inteligência profunda (de determinado tipo) coabitando com inabilidades básicas (de outro tipo). Trata-se de um fenômeno corriqueiro encontrarmos alguém (ou nós mesmos) com uma capacidade cognitiva apurada (lógico-matemática ou facilidade para o aprendizado de línguas, por exemplo) em paralelo com a mais atrapalhada inteligência emocional (intrapessoal, consigo mesmo, opaca diante dos próprios afetos; ou interpessoal, no relacionamento com os outros).

Esta ideia, que, para muitos, parecia profundamente original (tal como formulada precisamente realmente o é), guarda, contudo, uma semelhança com uma hipótese bem mais antiga: no seu livro sobre a ética, Aristóteles afirma* que nossa mente não possui só um tipo de inteligência, mas cinco: a ciência, a intuição, a arte/técnica, a ação e a filosofia. E esses cinco tipos só existem, na verdade, porque são efeitos das diferenças dos próprios objetos do mundo, isto é: compreender um pensamento abstrato da metafísica é completamente diferente de conceber a arquitetura de uma casa, que, por sua vez, difere enormemente da habilidade de decifrar uma lei da física ou de saber como agir numa situação de perigo. Para cada tipo de inteligência, haveria uma maior ou menor inclinação de cada um de nós e sua consequente competência para tal (cada pessoa pode ser mais ou menos virtuosa em cada um dos cinco tipos). É uma ideia genial, límpida e precisa como tantas de Aristóteles – e concebida pouco mais de 2 mil anos atrás.
Duas outras áreas afins da pesquisa em psicologia e da filosofia também tematizaram a noção de inteligência ampliada, para além das fronteiras do intelectualismo: a neurociência e a psicoterapia.

“Círculos em um círculo”, Wassily Kandinsky, 1923

Na neurociência há muito se estuda a relação entre nossas emoções e nossa capacidade para a tomada de decisão (esse mecanismo aparentemente tão racional), exemplificado no paradigmático caso de Phineas Gage). No célebre livro de divulgação de Antonio Damásio, O erro de Descartes, o cogito do filósofo tem a partícula penso trocada pela sinto.

Na psicoterapia, que mais me interessa nesse texto, essa concepção expandida de inteligência apresenta-se muito elucidativa, tanto para o terapeuta quanto para o paciente. As pessoas enfrentam uma série de impasses que normalmente podem ser traduzidos em conflitos de inteligências, como na tentativa forçosa de incutir uma decisão que só se quer racionalmente, mas não se sente emocionalmente. Também há os temores da passagem de uma mudança intrapessoal ocorrida para um novo tipo de relacionamento interpessoal. E, por fim, um processo constante para aqueles que se tratam: a lenta sedimentação de um pensamento em nosso mundo interno emocional, isto é, o processo de “saber” algo intelectualmente, mas ainda não ser capaz de sentir internamente tal qual, um processo lento, mas dos mais belos em psicoterapia – dos grandes mistérios dela, que mesmo Freud, tendo-o percebido, não compreendera: a transformação do afeto pela fala e pelo diálogo.

*Traduzo aqui seus termos para a linguagem moderna e acessível, correndo o óbvio risco da imprecisão. O termo aristotélico para mente é psykhé, e os cinco modos são episteme, sophia, nous, phronesis (mais corretamente traduzido por sabedoria prática ou até mesmo prudência, em sentido filosófico) e tekné.

Felipe Pimentel é psicanalista e historiador.