Ingmar Bergman: o homem e o artista

Ingmar Bergman: o homem e o artista

A vida e obra do cineasta sueco são marcadas por momentos brutais de sinceridade.

Estado da Arte

06 Julho 2018 | 10h10

por Miguel Forlin

                                                          Apliquei o coração a esquadrinhar e a informar-me com sabedoria de tudo quanto sucede debaixo do céu; este enfadonho trabalho impôs Deus aos filhos dos homens, para nele os afligir.

Eclesiastes 1:13

O Sétimo Selo (1957)

No seu famoso ensaio sobre Ingmar Bergman ― intitulado O Percurso Sombrio ―, Woody Allen escreveu:

Ele é rápido; os filmes custam muito pouco e o seu bando de colaboradores regulares consegue improvisar uma grande obra de arte em metade do tempo e por metade do preço que a maioria dos cineastas gasta para montar algum cintilante desperdício de celuloide. Além disso, ele escreve os próprios roteiros. O que mais se pode querer? Sentido, profundidade, estilo, imagens, beleza visual, tensão, fluência narrativa, velocidade, economia, fecundidade, inovação, um diretor de atores sem igual.

Nessa série de atributos mencionados por Allen, é possível notar muitas das características que tornaram Bergman um dos principais nomes do cinema moderno. Temas, experimentos formais e qualidades estéticas costumam ser os aspectos mais destacados de uma obra definida pela profundidade psicológica e destreza técnica.

No entanto, se muito é dito sobre os filmes, pouco se fala dos métodos empregados pelo cineasta no período de concepção artística. Ao ler Lanterna Mágica ― uma de suas autobiografias ―, acima das situações narradas, é a sinceridade de Bergman que impressiona o leitor. Em certos momentos, ele confessa pensamentos e desejos que a maioria das pessoas nunca teria coragem de admitir. A conhecida tentativa de assassinar a própria irmã ― planejada ao lado do irmão quando os dois ainda eram crianças ― é somente um dos atos pecaminosos que marcaram a sua vida e que ele relembra sem nenhum tipo de falsidade. O sujeito que casou com cinco mulheres, traiu diversas vezes e foi negligente com os filhos é um homem ciente das suas ações e dos males que causou. Em nenhum instante busca aliviar o fardo que carrega há anos ou minimizar as consequências de sua conduta. Inclusive, no documentário Bergman e a Ilha de Fårö, ao ser perguntado sobre o seu papel como pai, ele afirma que ter peso na consciência é egoísmo, já que a sua dor sempre será pequena perto do tormento que gerou.

Bibi Andersson em Persona (1966).

Se por um lado, isso remete a eventos particulares que não cabe a nós julgar, por outro, nos revela muito sobre o homem e o artista. Em vários de seus filmes, existe uma tensão originada pelas coisas que não são ditas e se escondem sob gestos e olhares. Seja pela própria estrutura da realidade, seja pela força das convenções, os personagens do diretor armazenam agonias, aflições e rancores. Eles sentem medo de dizer o que pensam e não conseguem verbalizar o universo de sensações que alimentam internamente. Como não poderia deixar de ser, a consequência desse silêncio são confrontos dolorosos e incompletos. Entretanto, ao colocá-los em situações limítrofes, Bergman sempre os obriga a articular discursos e expor os seus verdadeiros sentimentos. Esses são os momentos em que há uma explosão de palavras, lágrimas e sinceridade. Naturalmente, é só depois desses embates genuínos que se delineia a esperança de uma redenção.

Tecnicamente, essa imposição do diretor se dá através do uso de monólogos e close-ups. Enquanto os primeiros funcionam quase como fluxos de consciência ininterruptos, os segundos expõem os atores a um perscrutamento imagético feroz. São instantes tão sinceros que é muito comum nos sentirmos envergonhados, como se estivéssemos tendo acesso a uma intimidade proibida. Já psicológica e moralmente, esses momentos de revelação interior são antecedidos por um exame de consciência quase infalível. Desde muito jovem, Bergman foi atormentado pela ideia da morte. Dos filmes que abordam o tema diretamente, dois (O Sétimo Selo Morangos Silvestres) foram realizados quando o diretor tinha apenas 39 anos de idade. Em diversas vezes, ele afirmou ter pensado na questão e chegado a conclusões diferentes. Numa perspectiva metafísica, há dúvidas sobre o que ela encerra e inicia. Mas a partir de um olhar retrospectivo, ela joga luz sobre a vida, indica onde estão o Bem e o Mal e separa as coisas supérfluas das que realmente importam.

Bergman sempre foi um cineasta moral. Entre a sua vida e obra, existe uma nítida percepção do certo e errado. Ao se colocar diante do absoluto ― Deus e, numa escala menor, a inevitabilidade da morte ―, o cineasta enxerga a existência com os olhos de quem já viveu tudo o que há para viver (a cena em que as personagens de Gritos e Sussurros são chamadas pela irmã já falecida é um exemplo perfeito dessa confrontação diante do fim). Assim, os seus filmes são análises complexas da condição humana. Eles partem da única posição que nos permite enxergar a vida com um pouco mais de clareza. E descobrir o mundo é conhecer as alegrias e, principalmente, as angústias que o fundamentam. “Tudo é vaidade”, diria o autor do livro de Eclesiastes, ao passo que Kurtz, de Coração das Trevas, suspiraria: “O horror, o horror”.

Todavia, a visão de mundo de Bergman não nasce apenas de uma inspeção objetiva da realidade, mas também de um auto-conhecimento prodigioso. É por mergulhar no seu eu mais profundo que ele é capaz de ver do que os humanos são capazes. Conhecendo os seus anjos e demônios interiores, ele percebe a ambiguidade que nos define. É como o prelúdio de Chopin tocado em Sonata de Outono (uma dor constante quebrada por instantes de leveza) e as teclas do piano: a alternância entre o branco e o preto. Nesse sentido, ele segue a tradição literária do já mencionado livro de Eclesiastes e As Confissões, de Santo Agostinho. Vida pessoal e criação artística se misturam para gerar um híbrido cuja base nunca deixa de ser a sinceridade completa.

Curiosamente, partindo de uma interpretação superficial, essa pode parecer a trajetória individual de um único homem. Porém, se tivermos a coragem de aprender o que é ensinado, veremos que nos é fornecida uma rara lição de maturidade. Se durante a vida inteira, mesmo sendo capaz de distinguir os atos ruins dos bons, Bergman tinha dificuldade em evitá-los, ele nunca deixou de condenar as ações egoístas e malévolas nos seus longas. Se foi derrotado na batalha contra as forças da existência, em muitos filmes nos mostrou que, além de não ser possível escapar da realidade (Monika e o Desejo, por exemplo, deixa claro que idílios românticos têm data de validade), é preciso vencê-la, se não as tentações se impõem e as fraquezas humanas falam mais alto (a infidelidade, tão recorrente em sua biografia, sempre é abordada negativamente nas obras). E se a prudência foi tantas vezes esquecida na sua história pessoal (ele afirmava ter se tornado adulto apenas com 58 anos), no seu corpo de trabalho, ela sempre foi a promessa de que, caso fosse exercida mais vezes, evitaria muitos sofrimentos. Obviamente, na situação particular de Bergman, o exame do universo cobrou um preço caro demais. Contudo, o conselho está aí para quem tiver o desembaraço de ouví-lo. Ou melhor, para quem, ao enfrentar o mundo, exibir a bravura que também é exigida na hora de investigá-lo. Não há desculpas. Fugir disso é a mesma coisa que fazer um voto de ignorância e covardia.

Miguel Forlin é crítico de cinema e colabora com diversas publicações da área.