Gertrude Himmelfarb – O passado e o presente em diálogo e em confronto

Gertrude Himmelfarb – O passado e o presente em diálogo e em confronto

"Passado e Presente - Os desafios da modernidade" reflete sobre a noção de virtudes públicas, indispensáveis para se sustentar uma estrutura democrática permanente.

Estado da Arte

23 Janeiro 2018 | 12h00

por Luiz Bueno

No ano de 2017, a editora Encounter Books lançou o mais recente livro de Gertrude Himmelfarb, uma coletânea de artigos que cobrem o período de 1951 a 2016, intitulado Past and Present – The Challenges of Modernity, from Pre-Victorians to the Postmodernists. A autora, nascida em 1922, é uma renomada intelectual, historiadora e crítica de cultura, professora emérita na Graduate School da City University of New York, com uma extensa obra publicada na forma de livros e muitos artigos acadêmicos e de contribuições para jornais e revistas de grande circulação.

Uma das suas áreas de expertise é o período vitoriano e pós-vitoriano britânico, e suas principais ideias giram em torno da recuperação da noção de virtudes públicas. No Brasil, Gertrude Himmelfarb teve publicado pela É Realizações um de seus grandes livros, Os Caminhos da Modernidade, no qual a autora investiga o Iluminismo apresentando a tese de que, na verdade, houve três tipos diferentes de Iluminismo: o britânico, o francês e o americano. Dentre outros aspectos relevantes na pesquisa, a autora quer devolver aos britânicos a prerrogativa de terem iniciado este movimento na história do Ocidente e que, aquilo que o iluminismo francês prometeu, foram mais propriamente o iluminismo britânico e o americano que entregaram.

Neste novo livro, que desfila grandes pensadores e figuras políticas do passado e do presente, o passado e o presente entram em confronto e em diálogo por todo o livro.

Uma das linhas de força de Past and Present aparece na atitude tomada pela autora de se contrapor ao espírito dos intelectuais modernos quanto à forma com que estes olham para o passado. Os modernos, diz a autora, tendem a contemplar o passado a partir do presente, achando que estão em uma posição de vantagem pelo fato de viverem no momento presente. Himmelfarb diz que cede à tentação de olhar no sentido inverso, isto é, de considerar as condições do presente a partir do passado. E esta leitura do presente a partir do passado lhe permite compreender aspectos de nossa vida contemporânea que escapam às ideias preponderantes no nosso mainstream intelectual.

Himmelfarb inicia o livro com um artigo dedicado a Leo Strauss, exatamente para colocar a questão do passado versus o presente, e termina o livro com um artigo no qual aponta o sintoma mais evidente da doença que afeta a vida contemporânea, o pós-modernismo.

No comentário à obra do filósofo Leo Strauss, escrito em 1951, a autora aponta a grande críticas de Strauss à modernidade: o abandono da noção, que os antigos filósofos adotavam, de que as grandes questões são perenes, não se confinando às circunstâncias do momento em que a reflexão veio à luz.

Diz Himmelfarb a partir de Strauss:

Grandes mentes são grandes por todo o tempo, não apenas no seu próprio. A as categorias básicas do pensamento político da mesma forma são eternas e imutáveis. O direito natural ou a justiça social não mudam seu caráter apenas porque mudaram as opiniões dos homens a respeito. A verdade não muda, somente as crenças mudam.

Já os pensadores modernos passaram a considerar que o conhecimento racional seria construído somente mediante a aplicação rigorosa do método científico, derivado das ciências naturais, tanto ao homem quanto à sociedade e somente assim as questões morais e políticas poderiam ser propriamente compreendidas.

Himmelfarb aponta que esta postura dos modernos, que querem eliminar a discussão filosófica e moral dos temas políticos, impediria que um “cientista político” (considerado como o pesquisador que parte da postura positivista e aplica o método científico natural às questões políticas) se utilizasse “de expressões óbvias de julgamento como crueldade, desumanidade, barbarismo, selvageria, horror, atrocidade, ignomínia, degradação” ao analisar um dos fenômenos mais dolorosos do século XX que foram os campos de concentração. Pensar da forma judiciosa prescrita pela ciência política seria pensar os campos de concentração como os nazistas os pensavam.

Mas Himmelfarb esclarece que a ciência política empirista não é incompatível com a filosofia política. Em uma concepção legítima de ciência política, esta não interferiria nas investigações da filosofia política, o que ocorre quando “o ‘poder’ é tratado como uma realidade objetiva mas a ‘justiça’ não, quando os ‘interesses’ são considerados como uma ferramenta política apropriada mas a ‘moral’ não”.

Toda esta reflexão só é possível a Strauss porque este considera que nós vemos mais e melhor não apenas quando “subimos nos ombros de gigantes”, como disseram os modernos, mas quando entramos em suas mentes e nos imbuímos de seu espírito e suas verdades.

No artigo “Remédios Democráticos para Doenças Democráticas”, publicado em 1998, Himmelfarb parte da preocupação dos pais fundadores da moderna república norte-americana de que a busca dos interesses particulares se desse em detrimento do interesse geral. E seu remédio para esse mal foi o federalismo. Mas, na atualidade, a doença que assola a sociedade americana não é mais política, é moral e cultural. E essa doença se manifesta na forma do “colapso dos princípios e hábitos éticos, da perda de respeito pelas autoridades e instituições, da ruína da família, do declínio da civilidade, da vulgarização da alta cultura e da degradação da cultura popular”. E em suas formas mais “virulentas”, estas doenças se manifestam como violência, crime, vício em drogas, analfabetismo, pornografia e dependência do sistema de seguridade social (“welfare dependency”).

Note-se que a indicação da natureza da doença apontada por Himmelfarb – não sócio-econômica, mas cultural e moral – é que faz a diferença. A autora discute, então, a divisão interna que passou a caracterizar a sociedade americana no século XX. A estrutura cultural e moral que formou a nação americana e que por muito tempo foi dominante e definiu o caráter da nação, sofreu durante o século XX um processo de crítica que transformou sua feição geral e deu início ao processo de degradação cultural em andamento. Um tipo de remédio não político teria sido proposto para enfrentar este estado de degradação: a restauração e a revitalização da sociedade civil, isto é, das famílias, comunidades, igrejas, organizações cívicas e culturais. Mas, o problema é que também a sociedade civil está infectada pelo mesmo vírus, pois também aí o relativismo cultural e moral se instaurou, fazendo com que os valores e o respeito à autoridade e às instituições tenham se tornado também questões de âmbito pessoal.

Assim, a autora vê o surgimento de duas nações dentro da nação americana: aquela que o movimento de contracultura consolidou e que se tornou a dominante na sociedade e a outra nação que se embasa nos valores derivados da tradição e da religião, afirmando a necessidade de uma estrutura moral como alicerce da sociedade. Esta outra nação, agora minoria, composta por muitos grupos diferentes, encontra convergências morais e culturais que são transversais às próprias denominações religiosas das quais se origina uma parte significativa de seus componentes. O domínio da contracultura a partir dos anos 1960 de certa forma impulsionou este movimento de “contra-contracultura”, que configurou esta “outra nação”.

Isto significa que a nação americana está dividida, já não mais ou não tanto em termos de classes sociais ou econômicas, mas em termos de padrões culturais e morais. Esta noção de “Uma Nação – Duas Culturas” foi posteriormente desenvolvida de forma ampla por Himmelfarb em um livro que leva este nome e que constitui um diagnóstico muito perspicaz da condição atual da sociedade americana. Talvez, se devidamente estudada, esta tese possa ajudar a entender melhor o recente fenômeno da eleição de Donald Trump à presidência dos EUA. Pode, também, oferecer um bom modelo para se estudar o novo momento cultural e moral do Brasil, que parece guardar semelhanças bastante notáveis com o que Himmelfarb descreve e que parece indicar uma certa divisão interna em parcelas da sociedade brasileira, com tonalidades religiosas e morais, como pudemos observar nos confrontos políticos, morais e culturais que ocorreram nos últimos meses. Uma tese que pode ajudar a entender o fundamento desta possível divisão em andamento em nossa sociedade.

O livro se encerra com uma breve apreciação dos efeitos da pós-modernidade com seu discurso de desconstrução de tudo quanto pertence à sociedade e à cultura contemporânea. A noção pós-moderna de desconstrução alcança não apenas o âmbito cultural, moral e racional mas, agora, produz também a desconstrução do humano em si, de seu corpo, de sua identidade, de sua natureza. O que chama a atenção é que estes temas já são pouco discutidos, não por terem “saído de moda”, mas, ao contrário, pelo fato de já terem sido integrados à cultura, a qual já não necessita afirmá-los ou abrir a controvérsia sobre eles. Ao final do livro, a autora afirma que o estágio atual da pós-modernidade significa, em suma, uma negação radical da própria realidade.

Esse breve panorama de alguns dos artigos presentes no livro, característicos do pensamento de Gertrude Himmelfarb, pretendem apontar para aquilo que ela considera mais relevante em toda essa discussão histórica e cultural: ressaltar a importância de se trazer de volta à reflexão a noção fundamental de virtudes públicas, indispensáveis para se sustentar qualquer estrutura democrática que se queira fazer permanente.

Luiz Bueno é Bacharel e Mestre em Filosofia e Doutor em Ciências da Religião. Professor de Filosofia na FAAP. É autor do livro “Gertrude Himmelfarb: Modernidade, Iluminismo e as Virtudes Sociais”, publicado pela É Realizações.

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