Freud e a melancolia

Freud e a melancolia

Diferentemente do que supomos quando sofremos por um objeto desejado perdido, a dor maior é o luto do próprio desejo.

Estado da Arte

11 de setembro de 2017 | 09h19

Por Felipe Pimentel 

Quando se fala tanto em construção da loucura e de novas patologias, torna-se interessante voltarmos a atenção para algumas patologias sempre percebidas. É o caso da melancolia. No pensamento ocidental, especialmente, muitos questionaram essa afecção da alma que a torna desistente de tudo e todos, mas, acima de tudo, de si mesma. De Avicena a John Locke, obviamente partindo de Hipócrates que a chamava de bile negra (donde vem o nome), os grandes pensadores reconheceram a possibilidade de este mundo (ou o interior – e há diferença?) não mais interessar a alguém.

No entanto, são divagações teóricas, e sabemos que no século XVII, há uma grande virada no conhecimento ocidental, com o que chamamos de Revolução Científica. O afã categorial avança das racionalizações e “vai ao mundo” compreendê-lo e organizá-lo. Tudo, obviamente, premido pela necessidade de os Estados, recém organizados, ordenarem a sociedade civil. Quer dizer, é a partir daí que podemos falar efetivamente de um saber empírico sobre a doença mental. E se acompanhamos a história da psiquiatria, temos que, desde os primeiros, e todos os grandes, viram a melancolia nos asilos e elucubraram sobre em seus textos.

Uma das primeiras ocorrências é o monumental The anatomy of melancholy[1], de Robert Burton, publicado em 1621. A monumentalidade do texto não se esgota no tamanho (mais de mil páginas), mas na genialidade clínica e também categorial do autor. Uma de suas sentenças mais precisas sobre a patologia temos ainda no início da obra: Melancolia, neste sentido, é o caráter da mortalidade.”[2]

Alguns anos depois, no fim do século XVII, John Moore publica Of religious melancholy, abrindo espaço para a associação ainda mais clara entre a tonalidade melancólica e a relação com a morte e, logo, com a religiosidade. No início da modernidade, é recorrente tal relação, seja na literatura, seja em análises de casos. David Irish, proprietário de asilo no início do século XVIII, toma a melancolia como uma das patologias mais recorrentes (que ele sonhava curar com boa comida) e, principalmente, Pinel trata dela no Tratado sobre a alienação mental ou a mania. Este adianta um paralelo freudiano: a melancolia pode travestir-se em mania. Karl Jaspers, situa a melancolia no “Terceiro círculo das grandes psicoses”, no seu Psicopatologia Geral.

Mas foi Abraham, em texto intitulado “Notes on the Psycho-Analytical Investigation and Treatment of Manic-Depressive Insanity and Allied Conditions” que Freud cita numa nota de pé de página, o responsável por, na teoria psicanalítica da alma, situar a melancolia no quadro da psicose maníaco-depressiva, como uma impossibilidade de freamento dos impulsos hostis, que, ao invés de dirigirem-se ao mundo externo, voltam-se contra o próprio indivíduo. Seria uma espécie de autoparanóia.

Freud, no clássico Luto e Melancolia, amparado em Abraham, avança a compreensão da patologia ao traçar um paralelo com o luto. A necessidade de abandono do investimento da libido no objeto perdido no luto, normalmente, provoca, inicialmente, repulsa e rejeição do mundo – conscientemente. Correspondem a este estado, a inibição e a perda de interesse no mundo externo como esforços hercúleos para o ego.  Posteriormente, “resolvido” o luto, o ego está livre para novos investimentos. No entanto, nos casos de melancolia, a perda objetal não se faz no inconsciente, e o próprio ego volta-se contra o indivíduo: “Mas a libido livre não foi deslocada para outro objeto; foi retirada para o ego.”[3]

O ego identificado com o objeto perdido torna-se a sede do ódio do indivíduo, pois ele utiliza seu ego como um objeto (e quando não é?), o qual ele maltrata e repudia. Eis o ponto onde a melancolia torna-se claramente um masoquismo do ego, ou um sadismo do indivíduo e seu inconsciente contra seu próprio ego. Isto é, não se trata de um hetero-erotismo, pois o objeto está no ego, nem de um auto-erotismo, pois o ego está tomado por um outro objeto. Isto porque uma relação libidinal transformou-se numa relação mortífera do indivíduo com seu ego, cujo efeito maior é um ódio ao próprio desejo como tal, pois foi ele que libidinou o objeto outrora amado, agora perdido.

A suspeita de Freud, que ele não leva adiante, de que a melancolia seria uma psicose alucinatória do desejo não se confirma, pois a dor do melancólico esvazia o desejo, reconhecendo-o, mas o desvalorizando. O melancólico, porém, volta seu ódio ao desejo contra si mesmo e não contra o social – como faria o perverso.

Diferentemente do que supomos quando sofremos por um objeto desejado perdido, a dor maior é o luto do próprio desejo. Como afirma Lacan : “…já se ouviu esta dor em estado puro que vem modelar a canção de alguns doentes que chamamos – melancólicos”. O que resta a um sujeito que, ao mesmo tempo que reconhece o desejo o esvazia? Eis o que, Pierre Henri Castel explicita quando define a melancolia como o “deixar-se alguém morrer pela morte”[4].

 

[1] No Brasil, há um grande livro sobre o tema da melancolia relacionado à literatura e ao “shandismo” intitulado Riso e melancolia, de Sergio Paulo Rouanet (Companhia das Letras).

[2] Tema V, da Primeira seção, da Primeira Parte, página 144.

[3] Freud, em Luto e Melancolia, página 281.

[4] Pierre Henri Castel, em seu texto “Loss, bereavement, mourning, and “melancholy”: a conceptual sketch, in defence of some psychoanalytic views”, disponível em http://pierrehenri.castel.free.fr/.

 

Felipe Pimentel é psicanalista e historiador.

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