FOCO – Os homens que deram os primeiros passos ao longo dos séculos

FOCO – Os homens que deram os primeiros passos ao longo dos séculos

Valeska G. Silva analisa o cinema de King Vidor em diálogo com a obra da escritora e filósofa Ayn Rand.

Estado da Arte

10 Agosto 2018 | 08h00

por Valeska G. Silva

uma parceria com Foco – Revista de Cinema

Ele está vestido com sua roupa de trabalho e carrega uma maleta com ferramentas. Movimenta-se despreocupadamente, não combinando com a suntuosidade ao seu redor, ou mesmo com o desejo indisfarçado de Dominique Francon, que esperava que ele se sentisse constrangido dentro de sua casa, “mas é a casa que parece intimidada ao redor dele”[1]. Esta é a síntese da maneira com que a personagem do arquiteto Howard Roark se coloca frente ao mundo e, como o mundo se coloca frente a Howard Roark. 

Vontade Indômita

Roark (Gary Cooper) foi chamado para trocar o mármore danificado na lareira do quarto de Dominique (Patricia Neal). Para ela, trata-se de um simples empregado da pedreira de seu pai. Ele percebe que o dano na pedra de mármore foi causado de forma proposital. Enquanto trabalha na sua remoção, faz uma intrigante observação: “Há diversos tipos de mármore, entre o branco, o ônix e o verde. Este último não deve ser considerado um mármore verdadeiro. O mármore verdadeiro é uma pedra produzida por calor e pressão. A pressão é um fator poderoso, Srta. Francon, conduz a consequências que, uma vez iniciadas, não podem ser controladas.” A aproximação entre Roark e Francon se dá entre gestos e olhares muito mais que com palavras. A atração enigmática que se impõe esconde de forma pouco eficiente a violência, uma brutalidade que só poderia emergir pelo sexo. A sedução afronta crua, primária, e mesmo vulgar, mas de forma consensual. A correspondência no jogo entre eles é demonstrada em muitos níveis no decorrer da trama. O cineasta King Vidor, ao longo de sua carreira, dedicou-se a revelar diversos jogos eróticos, dos mais admiráveis aos mais românticos ou virulentos.

Dois mármores verdes

 Peter Keating (Kent Smith) é um arquiteto sem talento e sem identidade forte, que realiza o que lhe é designado, um acomodado que inicia sua vida profissional dedicando-se às fórmulas de sucesso, o que parece conseguir por algum tempo, mas seus êxitos são aqueles de um pequeno homem que abdicou de antemão da inspiração e da criação, tornando-se um parasita. Gail Wynand (Raymond Massey), dono do grande jornal The Banner, possui um profundo desdém pelas pessoas e se dedica a alimentar um poder que acredita deter, mas constata, antes de meter uma bala na cabeça, que sempre foi um servo, como qualquer outro homem que desprezava (“Eu não era dono das massas, era apenas sua ferramenta; eu nunca dirigi o Banner; eram eles, os homens das ruas, que o dirigiam”). Como o mais baixo dos subordinados, ele sempre realizou o que esperavam dele, o que a população ansiava. Não viveu de forma muito diversa à do medíocre arquiteto.

Durante um jantar, que serviu explicitamente para que Gail Wynand expusesse a Dominique como “as pessoas são corruptíveis”, ele a pede em casamento, o que a faz reagir da forma mais verdadeira que uma mulher poderia reagir, com a vulgaridade: jocosamente Dominique afirma que se algum dia quiser se punir, casar-se-ia com ele. Dominique Francon, desiludida, enxerga o mundo como um lugar sem espaço para a beleza e a genialidade. Ao contrário de diversas personagens femininas dos filmes de King Vidor, que demonstram domínio sobre o que pensam, Dominique se entrega de forma grotesca a uma fuga declarada de tudo que lhe possa prender e fascinar. Assume compromisso com o carreirista Peter Keating, que é logo comprado pelo seu rival amoroso, Gail Wynand; e mais tarde assume compromisso com o próprio Wynand. 

Vidor filmou numa época em que as mulheres sofriam uma inquestionável e penosa discriminação sexista de toda sociedade, mas suas histórias apresentam-nas em pé de igualdade e fúria com seus homens: Ruby Gentry (Jennifer Jones) em Fúria do Desejo (Ruby Gentry, 1952), Stella Dallas (Barbara Stanwyck) em A Mãe Redentora (Stella Dallas, 1937), Rosa Moline (Bette Davis) em A Filha de Satanás (Beyond the Forest, 1949) e Dominique Francon em Vontade Indômita (The Fountainhead, 1949) são exemplos de força e doses de concupiscência que o cinema dedicava à época majoritariamente aos homens.

Quando Dominique decide por se afastar de todos, seguindo para a casa de campo de seu pai, inicia uma escalada tão expressiva e impressionante quanto foi a de Ruby no pântano úmido em Fúria do Desejo, por entre troncos e na mira de tiros de espingardas, ao lado do seu amante; ou a de Pearl Chavez (Jones novamente) em Duelo ao Sol (Duel in the Sun, 1946), que após uma troca de tiros certeira entre ela e seu vil amor, precisa se arrastar montanha acima sobre um solo seco de pedras e terra, numa escalada comparável à da personagem de Stromboli (Stromboli, terra di Dio, 1950), de Roberto Rossellini. Em Vontade Indômita o casal se enfrenta como desconhecidos, com a aparente distância social e moral intervindo de forma controversa, mas não apenas: a auto-estima de Roark atinge inicialmente Dominique, contrariando-a, tal como Rosa Moline quando desafia o marido a odiá-la em A Filha de Satanás. Dominique chicoteia a face de Roark após se ver abandonada em seus anseios.

Roark poderia ser confundido com um egoísta (no sentido pejorativo com o qual nos acostumamos, não no sentido filosófico: “virtude do egoísmo”) quando não se dobra às exigências externas, evitando comprometer a qualidade de seu trabalho, repelindo o que ele entende por sacrifício em troca de necessidades mundanas, como faz o homem comum de Ayn Rand (autora do romance que deu origem a Vontade Indômita). “Há milhões de anos, um homem descobriu como fazer o fogo e provavelmente foi queimado na fogueira que ensinou seus irmãos a acender”: é com essas palavras que ele abre o discurso em própria defesa, no julgamento sobre sua razão ou falta de razão em implodir um edifício de sua autoria. Ele justifica a quebra de contrato, uma vez que seu projeto foi alterado à sua revelia. Apesar da falta de compreensão do mundo, Roark é incapaz de se dedicar ao ódio e à revolta como um homem comum de Rand faria. O doutor Lewis Moline (Joseph Cotten) de A Filha de Satanás, o John (James Murray) de A Turba (The Crowd, 1928), o Jesse McCanles (Cotten novamente) de Duelo ao Sol: nós admiramos os formidáveis homens comuns de King Vidor pela dedicação com que travam a luta contra as tendências terríveis do mundo, fazendo o que sabem fazer. Para Rand os homens comuns são aqueles que aderem a todas as tendências. Roark não é nem um nem outro: é um homem extraordinário. 

Caminhando pelas ruas, Roark observa as construções arquitetônicas sendo erguidas. Em meio à sua solidão que a falta de convites para trabalho o relegou, encontra-se, não por acaso, com aquele que vinha sendo responsável pela campanha difamatória que impedia que seu trabalho existisse no mundo: o crítico do jornal The Banner, Ellsworth Toohey (Robert Douglas). Após Toohey revelar que esperava encontrá-lo algum dia naquela situação, caminhando desoladamente, observando o trabalho alheio, e confessar numa ânsia sádica que foi o responsável por todo o infortúnio que assola Roark, ainda pergunta: “Por que não me diz o que pensa de mim, Roark?”, ao que Roark responde: “Mas eu não penso em você”. 

Ayn Rand, romancista e filósofa judia, chegou aos Estados Unidos em 1926 fugindo do regime soviético. Com um sentimento de gratidão próprio dos exilados, passou a militar contra os ideais do regime do seu país de origem – os quais, àquela altura, pareciam uma tendência mundial –, na busca por ajudar a preservar, segundo ela, a então ameaçada cultura que fundou “o país dos homens livres”. No prefácio de seu livro ela antecipa que inventou e idealizou um universo para que sua personagem Roark pudesse existir nele. O romance pressagia nosso tempo no que diz respeito ao sistema econômico. Rand faleceu em 1982, acreditando que o poder das decisões nas mãos da população através de um regime liberal-capitalista seria a solução para um mundo mais justo. Mas não foi o que bastou.

King Vidor, como Ayn Rand, demonstrou muito cedo interesse pelos assuntos políticos. Ele já filmava antes mesmo de completar 20 anos e não tardou para ser cativado pelo tema, antecedendo ao seu modo o neorrealismo, com posições bastante antagônicas às de Rand. Vidor foi um cineasta de caráter prático, prosaico, um otimista frente à humanidade do homem comum; já Rand, uma racionalista, sintética, de um pessimismo para com os homens altruístas. Na composição específica de Vontade Indômita o cineasta e a escritora formam dois eixos perpendiculares, um horizontal (a alma, a ideia: Rand), o outro vertical (o corpo, a imagem: Vidor). 

Em A Turba, filme mudo de 1928, que permaneceu sendo o preferido do cineasta e que guarda uma extrema semelhança visual com Vontade Indômita, da solidez moderna e minimalista ao sincretismo da trama, as personagens encontram um mundo sem conformidade com suas ideias. John, o protagonista do filme, fora educado como um predestinado, e em meio às contrariedades resiste, não se corrompe, mantendo-se com dignidade apesar da falta de trabalho, e encontrando apoio na forte esposa e em mais ninguém. Ele termina como um malabarista de rua, figura que no início da história ele desprezara abertamente. Não temos uma personagem em desistência, mas em transição de amadurecimento.

O arquiteto de Vontade Indômita não passa pelo amadurecimento quando precisa se empregar quebrando pedras, pois já desde o início da trama se encontra absolutamente resoluto quanto ao que é dispensável e indispensável. O filme de Vidor, como o romance de Rand, pertence conceitualmente ao universo do romantismo – o qual lida com idealizações, a projeção de um homem ideal, num universo ideal, e da representação de um ideal ético de seus autores –, e deve-se ressaltar que uma obra artística romanceada não procura vínculo com a realidade. Howard Roark, assim, acaba despontando como “um homem sem estrela”, sem guia, dono da própria consciência, assim como Dempsey Rae (Kirk Douglas) em Homem sem Rumo (Man Without a Star, 1955). Nenhum limite pode contê-los.

 

Não importa que apenas alguns em cada geração entendam e alcancem a realidade total da estatura apropriada ao Homem – e que o resto a traia. São esses poucos que movem o mundo e dão à vida seu significado – e é a esses poucos que eu sempre procuro me dirigir. O restante não me diz respeito; não é a mim ou a A Nascente que eles traem: é às suas próprias almas.  AYN RAND, Nova York, maio de 1968

[1] The Fountainhead, Ayn Rand, 1943.

Valeska G. Silva é crítica de cinema e editora da Foco – Revista de Cinema